Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Richard Youngs – Atlas of Hearts (2011; Apollolaan Recordings, Reino Unido)

Richard Youngs é um multi-instrumentista escocês nascido em Glasgow que vem lançando discos desde os anos 90. Sua música se caracteriza pela grande abrangência de estilos e por profícuas colaborações com nomes como Simon Wickham-Smith, Andrew Paine, Neil Campbell e Jandek. Atlas of Hearts é um dos cinco discos lançados por Youngs em 2011, com destaque também para Amplifying Host, que funciona como um complemento do álbum aqui apresentado. (M.M.)

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Richard Youngs é desses artistas extremamente prolíficos e francamente ignorados. Talvez a culpa seja de seu estilo por vezes obtuso, ou talvez seja da fragmentação de sua produção em incontáveis colaborações com os mais diversos parceiros. Também não consigo identificar um estilo preponderante para sua produção. O próprio instrumento de escolha, apesar de primazia da guitarra, variou bastante ao longo dos anos. Tais incertezas me fazem ter uma impressão vaga quando penso em seu nome. Ou pelo menos era assim.

É verdade que ele continua arriscando registros dos mais diversos, mas também é inegável que ele vem desenvolvendo uma marca impressionante e muito particular nas canções, que sempre fizeram parte de seu repertório, mas ao menos desde Beyond The Valey Of Ultrahits ganharam uma dimensão e ressonância iluminadoras, e que talvez junto a Atlas Of Hearts seja o trabalho em que isso fica mais claro. Se tínhamos como referência de seus exercícios nomes como Jandek ou Kawabata Makoto, passamos a sutis referências a antes insuspeitos nomes como Robert Wyatt, Mark Hollis ou Jason Molina.

Não é que Youngs não tenha feito discos folk anteriormente, mas o pendor em se fingir pop nunca foi tão acentuado, e o seu grande diferencial é o agregar de sua bagagem experimental no espectro das canções. E isso desde as primeiras canções, como a faixa de abertura “Haze I” onde convivem o cantor-compositor, o admirador do minimalismo e o arranjador de estruturas complexas. A faixa parece conciliar uma imobilidade interna de suas células sonoras e a constante variação na estrutura. Acredito que aí resida o diferencial das canções de Youngs, o atrito entre forma e conteúdo que nos apresenta um resultado instável mas coeso. Choques no andamento e a dissonância entre a guitarra elétrica, a acústica, os vocais e o eventual sintetizador em uma faixa como “Heart In Open Space” sugerem uma técnica de sobreposição apurada.

E por fim, mesmo com essa atenção quase excessiva ao aspecto técnico, as canções sempre parecem almejar algo maior. O artifício minimalista resulta em um derramar oceânico, e as faixas se espraiam na melhor tradição do folk cósmico, como em “Joy Ride”. E algo em que Youngs está cada vez mais apurado é na imposição de sua voz. Em outra época poderia ser temerário que seus vocais estivessem tão à frente na mixagem, mas a cada disco ele tem se mostrado um intérprete mais sofisticado.

Podemos dizer que Atlas of Hearts, junto ao posterior Amplifying Host e pouquíssimos outros discos, representa o que até o momento existe de relevante na composição folk em 2011. Independente disso tudo, o disco é principalmente uma aventura recompensadora. (Marcus Martins)

Ouça aqui “Heart in Open Space” e aqui “Joy Ride”.

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Publicado às 6 de outubro de 2011 por em folk e marcado , , .
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