Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Stevie Wonder – “Another Star” (2011; Tamla, EUA)

O dia do show de Stevie Wonder no Rock in Rio, 29/9, só não coincidiu por um dia com o aniversário de 35 anos de um dos mais fantásticos monumentos da música do século XX, o álbum duplo Songs on the Key of Life (na verdade um duplo vinil de 12” e um adicional compacto de 7”). Rodeado de enorme expectativa, atrasos de gravação e lançamento, colaborações estelares, o álbum é um desses poucos projetos ultra-ambiciosos que não apenas justifica, mas na verdade excede suas ambições em refletir sobre vida, amor, desigualdade social, crença, arte, esperança e tudo mais que importa, mantendo incrível leveza, ritmo e força melódica em 21 faixas que mantêm, cada uma  delas, uma indelével singularidade de estilo e emoção. A comovente apresentação no Rock in Rio apresentou cinco das faixas de Song in the Key of Life, na ordem “Sir Duke”, “I Wish”, “Isn’t She Lovely”, “As” e “Another Star”. As duas últimas, aliás, terminaram o show.

A época era fantástica para a música negra americana em todas as suas vertentes, e “Another Star” parece captar todas elas numa síntese inacreditável. Ela consegue amalgamar pop negro com salsa (cortesia do piano e dos timbales), disco (cortesia da marcação de contratempo e do baixo), jazz em algumas acepções diferentes (big band, fusion), soul-funk americano e africano com uma naturalidade extraterrena, sem qualquer intervenção soar como afetação. É sem sombra de dúvida uma das gravações mais dançantes da história da música, com inúmeros instrumentos a serviço do ritmo (bateria, percussão, baixo, mas também piano, guitarra e metais, executando com perícia e suíngue suas funções), e duas linhas melódicas inesquecíveis, uma na voz dos backing vocals e outra no naipe de metais. A excelência instrumental faz até com que a voz de Stevie Wonder e o forte refrão pareçam coadjuvantes, mas logicamente ele não gasta sua voz em vão, e seja grunhindo ao final da faixa ou entoando as melodias de estrofe e refrão, ele empresta toda sua contagiante eletricidade para o sentimento da canção. Mas, ao contrário de outra obra-prima, “Visions”, em que o protagonista absoluto é a voz (com um Oscar de coadjuvante para a sutil melodia de guitarra), aqui o Wonder cantor é apenas parte da música, um elemento absolutamente integrado e pulsante a serviço de um tudo, uma máquina que soa como se funcionasse num móto perpétuo de vivacidade e graça. “For you there might be a brighter star/But through my eyes the light of you is all I see”, diz o refrão. Naquela madrugada de quinta para sexta, no Cafundó do Judas, era apenas e nada mais que isso o que podia ser dito a Stevie Wonder, enquanto “Another Star” encerrava um dia histórico. (Ruy Gardnier)

Ouça aqui a versão de Songs in the Key of Life e aqui a versão do Rock in Rio, com participação de Janelle Monae.

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Publicado às 7 de outubro de 2011 por em Baú da Camarilha e marcado , , , , , , , , , , .
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