Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Container – LP (2011; Spectrum Spools, Áustria [EUA])

Container é o pseudônimo de Ren Schofield, um músico experimental de Nashville, Tennessee. Schofield é mais conhecido pelo projeto de noise God Willing, com o qual grava desde meados dos anos 00, e por seu selo I Just Live Here. Com o Container, Schofield trabalha mais próximo da música eletrônica de pista, com batidas repetitivas. LP é o primeiro lançamento desse novo pseudônimo, e foi lançado pela Spectrum Spools, subselo das Editions Mego capitaneado por John Elliott, do duo Emeralds. (RG)

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Tomado isoladamente, nenhum som ouvido em LP é desbravador ou inaudito. Muito pelo contrário, as sonoridades que compõem as cinco faixas desse primeiro álbum são todas já conhecidas e imediatamente reconhecidas: tal tonhonhóim de sintetizador, tal programação de bateria eletrônica, tal som de prato, tal som pulso sequenciado, e assim por diante. O primeiro álbum do Container é um lançamento da Spectrum Spools, subselo da eMego com curadoria de John Elliott, dos Emeralds, o que significa grosseiramente música de sintetizador refratária em alguma medida dos sons kosmische da eletrônica viajante dos anos 70-80 tipo Tangerine Dream, Ash Ra Tempel e Cluster. Mas, como tudo, esse “refratário” tem limites máximo e mínimo, e pode-se ir da mera emulação respeitosa à reciclagem inventiva, passando por variados graus de referência retrô e talento nos resultados. De todos os lançamentos até agora da Spectrum Spools, o Container não é o mais anômalo (esse seria o Bee Mask com sua singular mistura de sintetizadores, drones, registros de campo e barulhinhos pinçados a dedo), mas é certamente aquele que vilipendia a receita básica e chega ousadamente ao prato mais saboroso (ainda que não para todos os gostos). Por ser alguém que vem direto do noise e se apropria de uma música já moldada por três décadas de tradição e estabelecida em gêneros e subgêneros (a eletrônica de pista, por assim dizer), Ren Schofield consegue ouvir cada célula sonora ao mesmo tempo como ruído e como bagagem cultural – o já digerido e historicamente localizável e socialmente “legível”, por assim dizer –, e brinca em torno desses elementos com uma desenvoltura fantástica. LP é um disco feito inteiramente de reciclagens, mas ao trabalhar associativamente com presets de batidas eletrônicas dos anos 80 e com barulhos insistentes e ríspidos, ancorados sempre por ritmos pulsantes, Schofield tem a fina proeza de criar um objeto sonoro híbrido entre a dança e o vandalismo sonoro. Barulho não é barulho sempre; depende sempre do contexto. Harsh noise em execução por muito tempo uma hora ou outra vira música de fundo. Recontextualizado dentro de um gênero tido como mais palatável, ele pode impressionar com muito mais propriedade. É a aposta de Schofield e as cinco faixas de LP provam eloquentemente seu ponto.

Uma maneira de descrever o Container seria chamá-lo de um Ekoplekz com um motorzinho de bateria eletrônica repetitiva por trás. Mas isso seria fugir daquilo em que o Container é mais intenso e singular, ou seja, a utilização do ritmo. “Application” abre o disco com o melhor exemplo possível, com uma faixa que já começa eufórica e ainda assim faz com que novas camadas rítmicas venham se sobrepor à medida que a faixa evolui. O efeito não é propriamente dançante nem exaustivo ou complexo. A sensação vai mais no sentido do transe labiríntico, em que a psicodelia surge dos ritmos com vértices afiados e da reiteração imersiva (mas sempre cambiante, dinâmica) da pulsação. Mas o transe não tem nada de new age ou de eletrônica de poltrona. Seja como ataque melódico – os “alarmes” da primeira faixa –, seja como drone grave neurotizante, o sintetizador mantém sempre um clima de permanente tensão, como se algo pudesse explodir e a ordem – a pulsação metronômica do techno – se estilhaçasse em mil pedacinhos. Só que nada explode, e a sutil sabedoria de LP é saber dosar os níveis sem soar jamais previsível, mantendo continuamente a ameaça de esfacelamento mas jamais abdicando dos pontos de coordenada dados pelas batidas. Pelo clima de discoteca onírica, o Container pode ser considerado como o The Field do mundo bizarro: o mesmo prazer pela repetição com variações de dinâmica, pela batida como elemento norteante e uma economia melódica que pode associá-los ao kosmische. Mas ali onde The Field é sinuoso e conforta nossos sentidos, Container é intencionalmente arestado e aguça nossos sentidos com seus bombardeios subversivos que inserem o disco em terreno fronteiriço. LP funde techno com noise, mas é antidançante para os fãs do primeiro e demasiadamente dócil para os fãs do segundo. Tanto melhor, porque cria um deleite todo próprio e sem manual de instruções. Longa vida ao Container. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 13 de outubro de 2011 por em álbum da semana e marcado , , , , , .
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