Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Mika Vainio – Life (…It Eats You Up) (2011; Editions Mego, Áustria [Finlândia])

Mika Vainio é um músico finlandês nascido em 1963. É fundador do grupo Pan Sonic (anteriormente Panasonic) junto com Ilpo Väisänen e Sami Salo. Com a saída de Salo em 1996, o Pan Sonic ficou sendo um duo. Entre os lançamentos mais importantes do projeto estão Vakio (1995), Kulma (1996), Aaltopiri (2000) e Katodivaihe (2007). Além do trabalho no Pan Sonic, Mika Vainio lança trabalhos solo com seu próprio nome e com o projeto Ø, que existe desde 1993, além de ultimamente tocar em sessões de improvisação com artistas como Keiji Haino, Vladislav Delay e Sean Booth. Alguns de seus álbuns são Onko (1997), Kajo (2000), GRM Experience (2004, com Christian Fennesz e Christian Zanési) e Aíneen Musta Puhelin/Black Telephone of Matter (2009). Life é seu sexto álbum solo e seu segundo lançamento pelas Editions Mego (o primeiro foi Trahnie, de 2009, uma colaboração com Lucio Capece). (RG)

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Quem ouviu os últimos trabalhos de Mika Vainio, em especial Black Telephone of Matter, sabe a que ponto seu refinamento com timbres, texturas e durações chegou. Da inicial incandescência dos discos do Pan Sonic seu som rumou para terrenos mais próximos do noise, do drone e da música eletroacústica, atingindo sons de grande pureza mas jamais abandonando uma certa atmosfera sombria que é a matriz de sua inspiração. E quando, após o fim do Pan Sonic, previa-se Vainio reconstruindo sua carreira como uma espécie de Fennesz das profundezas, eis que ele vem com um álbum que reconfigura toda sua carreira e abre uma fresta insuspeita nas possibilidades de seu som, colocando em segundo plano as frequências preciosíssimas de seus computadores e power electronics, e levando à frente do palco sua guitarra para reencenar sua música como um artista de drone doom. Bom, não exatamente isso, ou não só isso; mas principalmente isso, porque o sentimento perdominante na maior parte de Life (…It Eats You Up) é o de um doom ultraelaborado e reflexivo, com muitas pausas e silêncios, mas também com os característicos arranques de acordes que têm todo tempo do mundo para se prolongar sozinhos em toda sua duração até esmorecer. Com a guitarra Vainio não consegue chegar à mesma singularidade surpreendente dos timbres que tira de seus eletrônicos, mas aqui o que ele quer é poder e fisicalidade, e nesse quesito ele faz exatamente o que quer com esse instrumento. E de quebra renova as potencialidades de sua música.

Mas Life (…It Eats You Up), como dito acima, está longe de ser o “disco de doom do Mika Vainio”. A intensidade do doom e alguns de seus trejeitos sonoros estão lá, mas as composições são mais diversas e os momentos bastante calmos – com vários instantes de silêncio ou de sons muito baixinhos – presentes demais para enquadrar o álbum numa categoria mais extrema. Para engrossar o caldo, há faixas que remetem mais ao passado de Vainio com o Pan Sonic do que a qualquer correlato do Earth ou do Sunn O)) – “Mining” sendo o caso mais flagrante, com sua bateria marcial-industrial, mas também “Open up and Bleed”, um inacreditável cover dos Stooges (!) com bateria seca e reverberante, além de uma voz indiscernível que soa como um vocoder soterrado. E mesmo quando a guitarra entra em domínio drone doom, com sua saturação de graves característica – “In Silence a Scream Takes a Heart” e “A Ravenous Edge”, não por coincidência as faixas que respectivamente começam e encerram o álbum –, os esguichos vaporosos ou as ríspidas frequências de computador vêm povoar o som e atribuir ao som uma incisiva particularidade, fazendo-o soar ainda mais ameaçador, além de original.

As duas últimas faixas citadas são inegavelmente os momentos mais intensos de Life, mas os highlights em termos de inovação são mesmo a curtinha “Throat” e “And Give Us Our Daily Humiliation”, que se constroem na completa imbricação entre sons sintetizados e orgânicos. A primeira é quase um workshop que ao mesmo tempo contrasta e une estridências de computador e de guitarra em modo fragmentário/puntilista, ao passo que a segunda trabalha entre riffs de ambos os registros e joga elementos de bateria acústica com pulsações de subgrave fazendo o bumbo, construindo a única manifestação possível de um metal-dub cubista.

Life (…It Eats You Up) é sem dúvida a guinada mais inesperada do ano. É também um disco que demanda um rearranjo perceptivo, ou de expectativas, do ouvinte, uma vez que parte daquilo que era especial em Mika Vainio dessa vez está de fora – a pureza dos timbres extremos de outrora, por exemplo. Mas que ninguém se engane: Vainio continua tão meticuloso e inspirado quanto de costume, apenas dando vazão a sua faceta de herói da guitarra e desferindo intensos golpes de carnalidade. Um senhor disco, tão admirável em seu (solto) conceito quanto eloquente em seus resultados. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 13 de outubro de 2011 por em álbum da semana e marcado , , , , , , , , , .
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