Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Pole – Waldgeschichten (2011; Pole, Alemanha)

Rod Modell, Moritz von Oswald e Mark Ernestus que me desculpem, mas em termos de dub eletrônico minimalista, Stefan Betke vence de lavada. Com o pseudônimo Pole, ele criou quatro álbuns (1, 2, 3, R) de absoluto brilhantismo, renovando-se sutilmente de disco a disco e caminhando do glitch quadrado a estruturas mais sincopadas. O que veio depois foi uma evolução natural de seu percurso, mas a singularidade de sua música sofreu ligeiramente no abraço ao dubstep e a um som mais amigável para pistas de dança. Três anos depois de seu último single (Alles Gute/Alles Klar 12”) e quatro do último álbum (Steingarten), o Pole reaparece com um novo selo (também intitulado apenas Pole) e com um EP de fazer cair o queixo até dos mais céticos. Apenas com duas faixas grandes – uma de 8min30 e outra de 7min10 – e um dub curto da primeira, ele consegue se reinventar maravilhosamente, sintetizando cada etapa de sua carreira e achando um formidável meio termo em que se reúnem molejo e precisão, sensualidade e economia, estranheza e dançabilidade (não nos padrões de qualquer pista e qualquer público, naturalmente).

As duas músicas longas de Waldgeschichten (“histórias de floresta”, em tradução literal) revelam um Pole atento às cadências e ao andamento do reggae, reduzindo-o um pouco à maneira das bases do Rhythm & Sound. Só que o destaque das faixas está em outros locais. Em “Wipfel” (“copa de árvore”), é a riqueza sinfônica de barulhos de música concreta (pedrinhas batendo, p.ex.), licks de teclado cheios de eco, sons mais aleatórios e contratempo marcando tempo dobrado. Já “Wurzel” (“raiz”) é menos povoada de elementos, deixando a base respirar mais e abrindo terreno para o ouvinte se deleitar com a delícia insinuante dos timbres conseguidos. Alguns acordes vaporosos de teclado constroem uma cama melódica esquelética enquanto um sutil subgrave pontua o ritmo. O subgrave e os reverbs & ecos, discretos nos primeiros 15min das duas primeiras faixas somadas, tratam de se fazer presentes em “Wipfel Dub”, quatro minutos de excesso milimetricamente calculado para reinterpretar uma faixa já relativamente cheia de elementos e ainda assim criar um senso de movimento e evitar a dispersão pelo bombardeio perceptivo. O trabalho de laboratorista microscópico de Stefan Betke aparece em Waldgeschichten com toda sua genialidade, meticulosamente orquestrando timbre e tempo, usando a metáfora da floresta – como o imaginário das capas de outro mago alemão, Wolfgang Voigt, com seu Gas – para criar um imaginário sonoro rico e extremamente associativo sem jamais remeter a nada mimético. Grande candidato a EP do ano, e uma das voltas mais celebráveis de 2011. (Ruy Gardnier)

 

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Publicado às 21 de outubro de 2011 por em EP da semana e marcado , , , .
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