Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Liturgy – Aesthethica (2011; Thrill Jockey, EUA)

Liturgy é uma banda de black metal formada em Nova York, EUA. Originalmente um projeto solo de seu vocalista, Hunter Hunt-Hendrix, o grupo conta agora com um total de 4 integrantes, sendo eles: Hunter Hunt Hendrix (vocal e guitarra), Bernard Gann (guitarra), Tyler Dusenbury (baixo) e Greg Fox (bateria). Depois de seu disco de estreia, Renihilation (2009), o grupou lançou Aesthethica (2011), pela Thrill Jockey. O Liturgy define seu som como “black metal transcendental”, mesmo nome de um manifesto escrito por Hunter Hunt-Hendrix, em que o cantor divaga sobre o futuro do gênero. (AT)

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Todo gênero tem sua crise. O metal extremo, por mais que exale seu teor conservador a qualquer sinal de um riff ultra virtuoso aliado muitas vezes a uma estética reacionária e um tanto quanto individualista, não deixa de ser diferente. Alguns chamam de post-metal, outros de progressive metal, da mesma forma que o post-rock e o rock progressivo se aliam a uma vertente do rock mais orquestral e de progressões crescentes e melodias complexas, o mesmo aconteceria com o metal. Pouco importa o termo, o caminho parecia natural. Basta pensar que ao mesmo tempo em que o headbanger clássico já nasça em um meio um tanto conservador, impossível negar que a música que o sujeito venera venha, ao longo dos anos, explorando facetas e métodos em certo sentido quase vanguardistas: acordes abrasivos, riffs complexos, sobreposições arriscadas, vocais guturais e outras particularidades extremas que muitas vezes encontramos no noise ou em qualquer música de flerte avant-garde. Obviamente que a grande maioria das bandas prefere transformar tudo isso em um padrão, não fugir do modelo trevoso de superfície para, justamente, não enfurecer seus fãs.

Pois eis que surge o headbanger contemporâneo. Além de um fraco por Steve Reich e construções minimalistas, o metaleiro pós-moderno identifica seu som com termos como: “transcendental”, “intuitivo” e “música de clímax”. Assumidamente odiado em seu meio (nenhuma surpresa até ai), esse possível subgênero vem mostrando o ar da sua graça com cada vez mais frequência, para amor de alguns e desgosto de outros. O Liturgy, no caso, vem se firmando como uma espécie de modelo-mor (para o bem e o para mal), dessa esfera que se por um lado sempre existiu (a vanguarda indireta, o paradoxo do conservador-experimental), por outro começa a mostrar faces de uma personalidade mais definida. Hunter Hunt-Hendrix, o líder e vocalista do Liturgy, faz questão de ser uma espécie de arauto dessa pequena revolução, com direito a um manifesto intitulado Transcendental Black Metal (em que ele divaga sobre seu olhar particular sobre o gênero, além do futuro do mesmo), como também com entrevistas polêmicas, em que quase sempre Hunt-Hendrix escolhe um caminho um tanto intelectual e ao mesmo tempo bastante intuitivo, às vezes vago, para definir o trabalho da banda.

No fim das contas, apesar de todo intelectualismo, flerte experimental e outras possíveis teorias pós-modernas, Aesthethica é um álbum quase sempre bastante melódico e, honestamente, extremamente agradável. Clássico, em certo sentido, as progressões em crescente, muito bem orquestradas, geram um andamento quase sempre harmonioso em meio aos elementos caóticos do metal, caso especialmente de “True Will” e “Red Crow”. O vocal gutural existe, mas ele é quase inofensivo ou, pelo menos, soa mais do que natural em meio a uma calma tormenta. Além disso, o disco tem momentos de uma busca harmoniosa realmente explícita, “Glass Earth” é uma sobreposição minimalista de vocais a cappella que aos poucos encontra seu ritmo natural e contagiante. Mesmo faixas mais extremas como a instrumental “Generation”, tem um senso de harmonia bastante inteligente ao mesclar fúria e delicadeza com precisão. Hunt-Hendrix parece ter consciência da conexão natural do black metal com o transcendentalismo e outros poderes sensoriais do ambient. Mais do que isso, em seu manifesto, o cantor afirma que sua banda representa nada mais do que o futuro natural do metal. O feliz paradoxo de Hunt-Hendrix talvez seja justamente esse, ao mesmo tempo em que a banda assume o gênero e seus virtuosismos caretas, o som do Liturgy subverte toda a radicalidade sonora do black metal em uma tempestade apocalíptica que pode soar agressiva em um primeiro momento (e de fato ela tem essa natureza), mas que, se admirada sem concessões, soa de uma beleza natural, selvagem e, acredite se quiser, altamente relaxante; humana, em todo caso. (Arthur Tuoto)

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Publicado às 24 de outubro de 2011 por em álbum da semana e marcado , , , .
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