Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Alva Noto – Univrs (2011; Raster-Noton, Alemanha)

Alva Noto é Carsten Nicolai, artista alemão que, sob este pseudônimo e outros como Aleph-1 e Noto, expõe sua música através de performances visuais e instalações, além de lançamentos em CD e outros formatos. É o fundador do noton. archiv für ton und nichtton, que em 1999 se juntou ao rastermusic de Olaf Bender e Frank Bretschneider para dar à luz o Raster-Noton, um dos selos mais importantes de música eletrônica experimental da atualidade. Univrs (2011) é uma espécie de segunda peça de Unitxt (2008), ambos trabalhos que, cada um à sua maneira, partem de dados técnicos e não musicais para, reconfigurados, produzir material sonoro. (TF, AT)

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O mais curioso do glitch (música produzida a partir de falhas, sonzinhos técnicos, erros informativos e outros detritos eletrônicos) é seu caráter musical um tanto quanto ambíguo, algo que fica quase sempre entre o ruído e a melodia, o técnico e o suave, o digerível e o indigesto. Partindo quase sempre de uma base nada orgânica e pouco subjetiva, o gênero é um dos que mais desafia o nosso senso de musicalidade. A simples posição de um sample ou a elementar duração de um ruído, o mais banal dos intervalos, podem fazer toda a diferença aqui; no caso de Carsten Nicolai não deixa de ser diferente. Univrs parte da “manipulação em tempo real de imagens testes geradas através de software por meio de sinais de áudio”, processo bastante similar ao já camarilhado Unitxt, em que Nicolai também parte de uma base de dados técnica e não-musical para produzir som e, em certa instância, música.

Para isso, Nicolai se apropria de uma meticulosidade quase orquestral, matemática e de extrema precisão, ainda que muito desse contexto tenha origem em performances ao vivo ou na manipulação de hardwares inventados, por isso não deixa de ser também uma matemática da intuição, de novo a ambiguidade. Apesar de toda essa base cerebral, e consequentemente de aparência um tanto quanto asséptica, talvez o grande desafio de Alva Noto (e em uma maior escala dos lançamentos do selo Raster-Noton) seja justamente encontrar uma fluidez especial, uma espécie de melodia industrial, naquilo que de menos musical – e humano – exista. “Uni Acronym”, que conta com a participação do poeta sonoro Anne-James Chaton (frequente colaborador de Nicolai), é de uma navegação que começa um tanto fria, mas aos poucos encontra um rumo até suave. Apesar dos detritos e da ordem operacional que rege suas camadas, a simples repetição e a cadência mais do que especial de seus sonzinhos (timbres técnicos crus mas que soam de outro mundo), seus intervalos muito bem calculados, além é claro da hipnótica voz de Chaton com seus padrões-mantras, a faixa vai lentamente forjando uma espécie de padrão musical subversivo em nossa mente. O que de fato é melodia? Um acorde, o motor de um carro, o barulho do processador do seu computador, o som de uma palavra? Dependendo do contexto (ou às vezes nem isso), tudo.

Seja Nicolai, seja Chaton, seja Frank Brestchneider (outro íntimo aqui da camarilha), é impossível não reconhecer uma espécie de poeta midiático contemporâneo que, como já divagava o Ruy nesse texto sobre o mais recente lançamento do Chaton, simplesmente recusa um eu-lírico, uma subjetividade emocional interior para, simplesmente, encontrar pequenos padrões, cantinhos concretos, sistemas operacionais não-humanos e, outra vez, extrair sensações que voltam a desafiar nosso padrão cognitivo. Da mesma maneira que Bill Viola ou Marcellvs L. tendem a subverter nosso padrão de olhar na videoarte e no cinema, os artistas do selo Raster-Noton parecem buscar isso no campo da audição. Mais do que uma outra forma de música, uma outra forma de ouvir. O que nos influencia para além da experiência dos discos, ou seja: da mesma forma que alguns artistas visuais nos ensinam a olhar, alguns nos ensinam a ouvir, inaugurando novas e sempre bem-vindas sensações. E quando o padrão se instala, além de música, escuta-se até fagulhas de uma potencial pista de dança. Faixas como “Uni Fac”, “Uni Dia” e tantas outras do disco, especialmente após a metade, quando a subversão já é o novo padrão, nos acometem de uma melodia quase óbvia, pesada e, não por acaso, que faz balançar a cabeça.  (Arthur Tuoto)

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Publicado às 27 de outubro de 2011 por em álbum da semana e marcado , , , .
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