Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Martyn – Ghost People (2011; Brainfeeder, EUA)

Martijn Deykers, vulgo Martyn, nasceu em Eindhoven, na Holanda, onde, ainda na década de 90, atuou como DJ na festa de drum ‘n’ bass Red Zone, criada por ele e por amigos, mas foi apenas em 2005 que Martyn começou o trabalho como produtor, inicialmente mais próximo ao drum’n’bass e à partir de 2007 se juntando à nascente cena do dubstep. Em seu currículo, Martyn conta com mais de 20 singles ou Eps, duas coletâneas e dois álbuns, sendo que o mais recente, Ghost People, foi lançado pelo selo Brainfeeder do Flying Lotus e marca sua mudança para Washington nos Estados Unidos. (T.F./M.M.)

* # *

Martijn Deykers é dos grandes produtores surgidos na década passada, a transição de seus trabalhos ligados ao drum’n’bass para as sonoridades graves do dubstep é um dos pontos altos da música eletrônica do período. Assim, seu primeiro disco foi cercado de expectativa e para algumas pessoas, resultou frustrante. Não por ser ruim, mas por não conter a mesma vibração e urgência dos eps e singles que lhe fizeram fama – para não dizer que os pontos altos do disco são versões de faixas já lançadas.

O próprio caráter mutante da música eletrônica que cerca o dubstep e todo tipo de bass music, associado à crescente infantilização do gênero por parte de alguns produtores parece ter deixado Martyn um tanto de lado. Sua produção esmerilhada, sua atenção ao detalhe muitas vezes em detrimento do volume e do alcance dos graves é uma anomalia, pois ainda assim sua música é extremamente luminosa e convidativa, mesmo nos momentos mais melancólicos de Great Lengths, o que o afasta da maior parte dos melhores produtores atuais que valorizam os climas soturnos e as atmosferas densas e sufocantes.

Já se disse que sua mudança para a capital e sua maior proximidade com os DJs de house ajudaram a aprofundar essa característica que desabrocha em Ghost People, onde house, Techno e dubstep se entrelaçam de forma natural, virando aquilo que se poderia denominar “Martyn music”. Aliás, ao lançar seu disco pelo selo Brainfeeder, Martyn traz para o grupo americano a destreza e a precisam que acentuam defeitos de ‘promessas’ como Lorn e The Gaslamp Killer.

Mesmo quase sempre gravitando por bpm sensivelmente mais lentos que seus contemporâneos, é inegável que Ghost People é uma experiência empolgante, a solidez com que Martyn amarra as seqüências de cada música. Ouçamos “Popgun”, a precisão de suas batidas, o lindo uso do Roland TR-808, o groove, a inserção de cada loop vocal… Você precisa de muita força para não se deixar levar pela cadência envolvente.

O disco é tão rico que mesmo faixas que se poderia denominar de interlúdio como “I saw you at Tule lake” possui idéias mais interessante que quase a totalidade do último disco de Joker. Isso para não falar da excessivamente curta “Love and Machines”, que talvez contenha os mais leves vocais de Spaceape e nos introduz ao disco por uma insuspeita inversão sonora das distopias que celebrizaram o vocalista, “Love and Machines” funciona quase como uma negação de Memories of the Future.

Ghost People equilibra a nostalgia da tradição do techno e da house clássicas sem se render ao fetiche old-school e sem fraquejar ao engessamento que caracterizou boa parte das misturar entre o dubstep e o Techno germânico. Uma faixa como “Twice As” inicia com o insubstituível clima de euforia dos anos 80 e prossegue para sonoridades dominadas pelo holandês como se fosse uma progressão lógica. Martyn é o nosso Larry Levan e não há qualquer blasfêmia nisso.

Ghost People é excelente não apenas por suas faixas, ou pela fluidez alcançada, mas também por sedimentar a libertação criativa de Martyn, não é mais admissível que sua música seja associada a um gênero, nem sua genealogia musical seja traçada com simplicidade. Talvez ainda não seja o que de melhor podemos esperar dele, os primeiros singles apontavam uma capacidade de alcançar o sublime (vide uma obra-prima como “All I have is memories”) apenas com a força de suas produções. “We are you in the future”, não coincidentemente a faixa mais longa do disco, se aproxima ou reencontra tal capacidade. Enfim, continuaremos a ouvir com júbilo. (Marcus Martins)

Anúncios

Um comentário em “Martyn – Ghost People (2011; Brainfeeder, EUA)

  1. Pingback: Melhores de 2011: Músicas – Marcus Martins « a camarilha dos quatro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 4 de novembro de 2011 por em álbum da semana, dubstep, house, Techno e marcado , , .
%d blogueiros gostam disto: