Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Nate Wooley, Chris Corsano, C. Spencer Yeh – Seven Storey Mountain (2011; Important, EUA)

Nate Wooley é um trompetista americano (n. 1974, Clatskanie, Oregon). Começou a tocar profissionalmente aos 13 anos, com seu pai, saxofonista numa big band. Em 2001, mudou-se para a Costa Leste e passou a ser um dos mais respeitados improvisadores da cena novaiorquina, tocando com Fred Frith, John Zorn, Anthony Braxton e Evan Parker, entre outros. Chris Corsano é um baterista americano (n. 1975, Englewood, Nova Jérsei), famoso por sua longa parceria com o saxofonista Paul Flaherty e sua participação em grupos com artistas como Thurston Moore, Evan Parker, Sir Richard Bishop, Jandek e Jim O’Rourke, entre outros. C. Spencer Yeh é um violinista e músico de noise taiwanês criado nos EUA (Taipei, 1975), mais famoso por seu projeto Burning Star Core. A parceria Wooley/Corsano/Yeh é a segunda edição do projeto Seven Storey Mountain, de Wooley, em que um conjunto improvisa a partir de uma base gravada em fita magnética (o trio da primeira edição era Wooley com Paul Lytton e David Grubbs), e foi tirada de uma apresentação ao vivo feita em 2009. (RG)

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Que belo momento para a música de improvisação livre. Não só ela tem um tipo de divulgação sem precedentes ‒ cortesia tanto da acessibilidade de informações via internet quanto da visibilidade dada quando artistas como Thurston Moore, Jim O’Rourke, Fennesz ou Stephen O’Malley entram no circuito ‒, como também ela vive hoje longe de qualquer ortodoxia quanto a métodos ou procedimentos. E hoje em dia ela consegue tirar gás novo de experimentações de diversas naturezas, seja trazendo artistas de áreas inusitadas (o doom metal, por exemplo, caso do Aethenor), seja flertando com estruturas e filosofias de gêneros afins em termos de radicalidade, como o noise e a música eletroacústica. Está longe a época em que a improvisação livre precisava limpar o campo e apenas validar o que era “absolutamente free”; hoje todo tipo de prática que realmente alimente o instrumentista é considerada como um ganho, mesmo que envolva elementos de composição, de estrutura ou de bases pré-gravadas que organizem a execução. Dependendo do grau de ordenação prévia, o elemento de surpresa e fisicalidade frequente na experiência improvisada diminui, mas em compensação a sessão pode ganhar em singularidade de proposta e de som.

E aí entra esse artista formidável chamado Nate Wooley. Ele não só tenta reinventar a sonoridade do trompete dentro da improvisação, mas também aparece com novas formas de organização sonora e propostas de improvisação coletiva. No caso em questão, trata-se de Seven Storey Mountain, um tipo de performance que tira seu nome do livro autobiográfico de Thomas Merton e busca se relacionar com a ideia de êxtase místico. Na série Seven Storey Moutain, drones eletroacústicos tocam em fita magnética enquanto um grupo ‒ um trio nas duas versões (das sete inicialmente propostas) que o projeto já teve até agora ‒ improvisa em cima, com informações sobre a progressão climática da faixa, mas livres para interpretar as “notações” da forma que quiserem. O resultado é impressionante, porque não soa nada como uma composição eletroacústica com improvisadores fornecendo cores pontuais, e sim como uma nova interpretação das possibilidades da improvisação contemporânea.

No caso específico da segunda versão de Seven Storey Mountain que veio à luz, com Chris Corsano e C. Spencer Yeh, surpreende o clima criado e a dinâmica entre os sons longos e os curtos. Para o clima, ajuda o fato de Wooley utilizar seu instrumento de forma nada convencional, utilizando o trompete sobretudo para extrair feedbacks e amplificar os sons de sopro puro circulando pelo instrumento. Spencer Yeh mantém notas longas ou fraseados repetitivos, e ambos acabam funcionando como drones que se acoplam aos drones da base magnética, enquanto Corsano ora engrossa as texturas, raspando com a baqueta nos pratos da bateria, ora fornece sons mais pontuais com pratos, contratempo e tontons preferencialmente. Particularmente, Corsano mais uma vez mostra-se um monstro de seu instrumento, tocando sempre em volume moderado e sem tomar a frente da atenção, mas ainda assim parecendo um polvo utilizando todos seus tentáculos. Mas o que há de absolutamente invulgar em Seven Storey Mountain é a atmosfera sombria e a manutenção de tensão que povoa todos os 43min da performance, sobretudo a partir do minuto 15, quando um drone de subgrave se instala e a pressão entre os instrumentistas começa a pegar fogo. O que se consegue em termos de timbre, interação entre instrumentistas e criação de clímax é algo de extraordinário, criando um turbilhão vertiginoso que soa como a síntese absoluta entre improv, noise e eletroacústica, e, o melhor, sem qualquer autoconsciência de sê-lo. Wooley concebeu e realizou, com o auxílio de Corsano e Yeh, uma das mais intensas audições dos últimos tempos, e uma audição obrigatória para qualquer um interessado em free improv ou em música experimental de qualquer espécie. (Ruy Gardnier)

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