Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

patten – GLAQJO XAACSSO (2011; No Pain in Pop, Reino Unido)

patten é o pseudônimo de um produtor londrino que prefere manter seu anonimato. Tudo que se sabe sobre ele é que lançou um CD-R em 2007 chamado There Were Horizons e que seu primeiro lançamento oficial é GLAQJO XAACSSO, pelo selo No Pain in Pop (Forest Swords, Grimes). No press release do álbum, Patten menciona entre suas influências Arthur Russell, My Bloody Valentine, Martin Hannett, Drexcyia, Steve Reich, Tricky e Broadcast, entre outros. Em setembro, junto ao lançamento de GLAQJO XAACSSO, fez também um mix para a FACT Magazine. (RG)

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“Eletrônica idiossincrática” é como podemos definir um dos veios de maior interesse desse ano de 2011. Veio, e não gênero, porque não é propriamente a circunscrição de um certo feeling ou de uma timbragem específica. O que une artistas tão diversos como Ekoplekz, Container e patten é a forma de trabalhar com timbres, batidas, ou algo que evoca música eletrônica de pista, mas terminar com um resultado muito mais abstrato, pessoal e caótico, em todo caso indançável nos termos mais convencionais. Tanto no Ekoplekz quanto no Container, o que mais chama a atenção é a abrasividade dos timbres e a utilização agressiva do som do sintetizador. Com patten, no entanto, a paisagem sonora é outra. É uma música onírica, ritmicamente mais instável, introspectiva nas sobreposições de camadas que promove, mas expansiva no modo de trabalhar as células rítmicas próximo do techno e da música de subgraves britânica. Mas, assim como o Ekoplekz e o Container, o patten já chega ao cenário com uma estética formada e um portentoso álbum que testemunha uma sensibilidade absolutamente singular.

GLAQJO XAACSSO é tão belo, novo e instigante quanto as primeiras aparições de um Oval ou um Prefuse 73, nada menos que isso. Com as devidas diferenças de proporção, claro. Oval trilhava caminhos absolutamente novos, Prefuse 73 adaptava certos procedimentos de IDM e glitch ao hip-hop, e patten, vindo anos e anos depois, trabalha fundindo procedimentos já pisados e repisados, mas encontrando neles um vigor que, no contexto de seu personalíssimo melting pot, revela ainda todo um potencial insuspeitado de surpreender e comover. Comover é uma palavra muito apropriada, porque apesar da glacialidade de algumas das influências, é uma música de alto teor emotivo, como os timbres enevoados de Fennesz ou as paredes de distorção do My Bloody Valentine. A profusão de influências listadas pelo próprio patten ‒ música concreta, IDM, shoegaze ‒, além do modo de juntá-las, dá a sugerir um compositor meticuloso e cerebral. Ouvindo GLAQJO XAACSSO percebe-se isso, sem dúvida,  porém mais forte que isso é o impulso intuitivo na forma de juntar elementos heterogêneos, de compor e de montar a ordem das faixas. Não é só a progressão das faixas que compõe uma narrativa, mas as próprias faixas possuem um senso narrativo, intimista ainda por cima, que pode nos remeter ao melhor de projetos como The Books e Boards of Canada. Junte a isso a força de colagem e disrupção de um Black Dice, a dialética glitch-textura melódica do Fennesz e uma entrega emocional entre witch house e shoegaze, e se começa a entrar no clima desse álbum que se vive de primeira mas que se descasca aos poucos.

“Plurals”, que já tem clipe no site do selo No Pain in Pop, é uma boa introdução à faceta de narrativo intimista de patten, mas é nas faixas que trazem mais à baila a música eletrônica e a composição em camadas que seu talento aparece com toda força, como em “Ice”, que abre o disco, em “Words Collided”, que mostra claramente como se funde o fuzz do My Bloody Valentine com dubstep, e ‘Blush Mosaic”, com sua programação de contratempo dobrado que dá uma sensação vertiginosa de fazer inveja ao Radiohead na junção de emotividade e desorientação eletrônica. Mas o destaque absoluto é mesmo o pacote inteiro, porque GLAQJO XAACSSO é tão misterioso e alienígena quanto seu título ou a capa de seu disco, uma reinterpretação auspiciosa e original de influências muito distantes entre si que no fim das contas consegue responder com um sim à indagação sobre a originalidade no turbilhão de referências do mundo de hoje. patten consegue fazer o que parecia impossível: desenhar um novo horizonte de possibilidades para um IDM versão 2.0, a ser desenvolvido para a década. Mesmo que isso não seja levado à frente por seguidores, GLAQJO XAACSSO já se basta como um monumento imponente de frescor, habilidade e visão artística. Um marco. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 10 de novembro de 2011 por em álbum da semana e marcado , , , .
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