Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Weasel Walter, Mary Halvorson, Peter Evans – Electric Fruit (2011; Thirsty Ear, EUA)

Weasel Walter, Mary Halvorson e Peter Evans são músicos americanos, estabelecidos na cidade de Nova Iorque e dedicados à improvisação. Walter é multi-instrumentista (no disco, ele toca bateria), compositor e um dos fundadores do grupo Flying Luttenbachers. Atualmente, participa do coletivo Zs. Mary Halvorson é guitarrista, professora e grava regularmente com seus grupos: um trio, um quinteto e o Thirteenth Assembly. Peter Evans é trompetista. Electric Fruit é o segundo álbum desse trio, mas o primeiro lançado oficialmente. (TF)

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Quando ouço um disco de free improv (ou improvisação livre), como Electric Fruit, somente uma coisa vem à minha cabeça: gostaria de ter estado lá. Pois é exatamente o que pede esse quase “subgênero” do jazz: uma experiência única e momentânea por parte tanto dos músicos que a executam quanto do interlocutor. Ou, pelo menos, era isso que pregava o falecido guitarrista Derek Bailey, um dos inventores e maiores expoentes dessa corrente musical. Qual seria, então, a relevância de falar de Electric Fruit? Ainda mais levando em consideração que, se o free improv tem pequeno alcance ao vivo (no máximo, lota pequenos espaços em lugares longínquos com pessoas que insistem em conversar durante as apresentações), imagine em um suporte físico datado, o qual sequer dá ao ouvinte o gostinho de experienciar aquilo ao vivo?

É necessário dizer, por sinal, que existe um mercado muito amplo de free improv na Europa e nos Estados Unidos. Thirsty Ear é apenas um exemplo dos muitos selos renomados (ou totalmente desconhecidos) que se encarregam de lançar, mensalmente, gravações em conjunto de músicos talentosíssimos e avessos a simplificações estruturais do jazz e da música, em um modo geral. Pessoalmente, os discos de free improv me dão certo fastio, pois a sensação que tenho é a mesma descrita no início do texto: um sentimento de falsa nostalgia, de querer ter estado em ambiente físico e ter testemunhado uma apresentação que já se deu. Dessa forma, compartilho com os pensamentos de Derek Bailey: o free improv é uma criação instantânea e cada nota, cada ritmo, cada acorde, cada ruído voluntário ou involuntário nunca mais serão repetidos. É uma música que não só dá margem ao erro como o acolhe em sua estética – os concertos clássicos baseados na notação musical seriam o extremo oposto disso.

Analisando Electric Fruit de perto e como um álbum, percebemos que este não se limita a uma mera gravação de free improv registrada e lançada em CD para um fanático do gênero – ou de algum dos músicos – que não pôde estar lá, (ou esteve e ficou querendo mais) ouvir. Primeiro porque parece haver um conceito embutido neste título e na própria arte da capa (tão atraente quanto seu nome e seus músicos): uma fruta eletrificada? Seria o objeto considerado natural passando por um processo de metamorfose? Ou a própria noção de música elétrica, na qual instrumentos acústicos são amplificados e passam a soar de outra maneira? Ou seria a junção inusitada de um instrumento elétrico como a guitarra a instrumentos essencialmente acústicos, como a bateria e o trompete e, não obstante, todos estes soando nada convencionais? E o que estariam buscando esses músicos em conjunto? Tendo em vista o calibre e o background de cada um, não era uma simples jam session que eles almejavam.

A busca por timbres e texturas diferenciadas e estruturas complexas são o que fazem o free improv se sobressair perante o jazz contemporâneo e guardar mais interesse e frescor que o último. Portanto, não é novidade que Electric Fruit seja um disco de sonoridade inusitada e desafiadora, no qual dois dos maiores destaques dessa corrente da atualidade (Halvorson e Evans) se juntam a um nome importante da cena experimental das duas últimas décadas para uma apresentação explosiva, surpreendente e impressionante. Mas o destaque, mesmo com performances brilhantes de Evans e Weasel, é Mary Halvorson, guitarrista nova-iorquina que vem despontando como um dos maiores talentos desse instrumento e tem lançado, através de seu trio, quinteto, do Thirteenth Assembly e de outras parcerias, alguns dos discos mais viçosos do jazz e da música contemporânea. Fugindo de todas as obviedades do fraseado guitarrístico e alternando com sabedoria magistral timbres limpos e sujos, ela tem se mostrado uma das guitarristas mais criativas da atualidade; alguém que pensa não só nas possibilidades de expansão de seu instrumento, mas do jazz e da própria música. Fiquemos atentos. (Thiago Filardi)

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Publicado às 17 de novembro de 2011 por em álbum da semana e marcado , , .
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