Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Pinch & Shackleton – Pinch & Shackleton (2011; Honest Jon’s, Reino Unido)

Dj e produtor, Sam Shackleton é um dos nomes mais respeitados da música eletrônica na atualidade, mais precisamente por seu trabalho na música de graves (bass music), dubstep e techno. Desde 2004 vem lançando faixas por diversos selos como Mordant Music, Hotflush Recordings, ~scape e Perlon. Junto com o também dj Appleblim fundou o agora falecido selo Skull Disco, pelo qual lançou alguns de seus trabalhos mais reconhecidos. Rob Ellis, mais conhecido como Pinch, chamou atenção por uma sonoridade que mescla sons como Dancehall e Reggae ao dubstep, além de introduzir novas possibilidades vocais ao gênero. Em 2007 lançou seu debut, Underwater Dancehall, pela Tectonic, selo que ele mesmo criou. Pinch & Shackleton é um álbum colaborativo lançado pelos dois produtores. (AT, MM)

* # *

Estamos diante de um disco que soa não só como o ápice de um gênero – ou, na pior das hipóteses, do que esse gênero poderia ter sido – mas, ao mesmo tempo, funciona também como a resposta do dubstep à suas possíveis, e nada inesperadas, distrações um tanto quanto, digamos, ocidentais; além de certas infantilizações, especulações e outros juízos que evocam uma tão natural crise. Mais ou menos quando Jean-Luc Godard lança uma bricolagem jogando com as possibilidades políticas da imagem, sempre mítico e revelador, utilizando-se apenas de uma cartilha imagética já universal, redefinindo-a, no caso. Mesmo que, aqui, estejamos falando de “apenas” 10 anos de música, no fundo sabemos que é muito mais do que isso, seja pela posição dos gêneros primordiais que originaram o dubstep, seja pelo lugar da música eletrônica como geradora de possibilidades auditivas cada vez mais frescas.

Como não poderia deixar de ser, visto o feliz histórico de ambos os produtores, o resultado é um disco nebuloso e detalhista, não uma simples excentricidade obscura (como pipocam tantas hoje em dia), mas tétrica em um sentido mais agressivo, seco, tenso; enfim, como as coisas costumavam ser. O minimalismo cerebral de Shackleton, o qual, querendo ou não, fundou quase um padrão para muita gente, encontra no dance místico de Pinch um parceiro que, como ninguém, entende dos sabores do passado. Passado esse que pode soar recente, mas anda cada vez mais distante, já que o ultra hibridismo do gênero, se por lado tem inaugurado um subversivo e saboroso dance luminoso, por outro tem criado aberrações difíceis de se digerir (“brostep”?). A gramática sombria uma vez fundada por nomes como Burial e Kode9, tem ainda suas devidas heranças e, nesse sentido, o disco não deixa de nos remeter a uma sonoridade old school.

Os timbres percussivos e exóticos de Sam Shackleton, se antes causavam estranheza ou incômodo, aqui soam de uma familiaridade quase agradável, ainda que sempre tensa. O jogo de percussão de “Jellybones”, que começa submerso, de fundo quase aquático, encontra seu caminho em um ritual dançante e exótico, de cadência hipnótica com sytths que soam como sussuros e outros efeitos fantasmagóricos. “Rooms Within a Room” tem um nome mais do que sugestivo, de seu início épico e nevoento à outro joguinho tribal, a coisa parece definida por blocos, quartos que vão se abrindo um após o outro, com palminhas ritmadas e outros samples que evidenciam uma estrutura bastante rica em sua lógica interna. Pinch & Shackleton, o disco, é um convite ao desfrute do futuro sem esquecer do passado, a escuridão não está exatamente mais aterradora, mas é de uma infinidade de detalhes estruturais e outras equações auditivas das mais prazerosas de se tentar resolver. E, claro, simplesmente apreciar. (Arthur Tuoto)

Ouça aqui “Rooms Within a Room”
“Jellybones” fez parte do Camarilha Podcast #66

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Publicado às 22 de novembro de 2011 por em álbum da semana e marcado , , , .
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