Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Maria Minerva – Sacred & Profane Love (2011; 100% Silk, EUA)

Cabaret Cixous, recente álbum da estoniana Maria Minerva, não fez exatamente um grande estardalhaço. Pelo menos não da forma faraônica que uma Lana Del Rey contamina as estruturas do mundo hype. Aliás, curiosa essa lógica. Del Rey e Minerva, teoricamente, partem de uma estética semelhante: lo-fi de apelo sexy explorando, especialmente, certas particularidades do feminino e outras questões de gênero. Mas enquanto Lana Del Rey soa como o produto bizarro de uma linha de montagem um tanto quanto assustadora, Maria Minerva vem nos apresentando um imaginário cada vez mais particular e enigmático, musicalmente e, querendo ou não, intelectualmente falando. Se Cabaret Cixous pode ter sofrido um pouco por ser levado tão a sério (a própria presença do nome de Hélène Cixous já causou certa confusão em muitos ouvintes/críticos, que talvez esperavam algo mais óbvio nesse sentido) Sacred & Profane Love parece que finalmente anda firmando na cabeça de muita gente aquilo que já dizíamos por aqui. Não se trata exatamente de uma artista política no sentido direto e já digerível da coisa, mas de uma mente bastante inspiradora que sabe assimilar referências que vão da filosofia feminista e outros flertes acadêmicos aos bons e velhos pecados do pop. Mais engraçado ainda é perceber como Lana Del Rey pega o caminho oposto, tanto no sentido musical como no político, com o visual gangsta fajuta sexy (nada mais óbvio…) e letras que lidam com a submissão feminina de uma maneira tão rasa quanto toda sua aura lo-fi de boutique, a garota Del Rey acaba se tornando nada mais do que uma moralista chata e americanóide. Ignoremos.

Ao que importa. Sacred & Profane Love é uma clara continuação da profusão de synths abafados, linhas de graves imersivas e toda uma coleção sonora residual que remete ao dance, ao disco e por aí vai, que já estavam presentes em Cabaret Cixous. “Kyrie Eleison”, talvez o grande momento do disco, é o que já podemos chamar de um estilo Minerva: dance soterrado onírico, cheio de sussurros e outras esquisitices fofolóides de praxe. Além de uma sobreposição vocal labiríntica de difícil compreensão mas sempre cativante. Ou seja, um dance sujinho da melhor qualidade, sempre açucarado e com aquela veia pop dando o clima. O Ep ainda conta com grandes momentos como “Gloria”, outro hitzinho romântico travestido de statement submisso britiniano, e “Luv So Strong” (um díptico da faixa inicial “A Love So Strong?”) com uma estrutura percussiva das mais fascinantes, fechando um ciclo ambíguo em que o ep se debruça. Sagrado e profano, submissão e rebeldia, erudito e pop? Que Marina Minerva continue nos tratando com agrados dessa qualidade, o ouvido e o coração agradecem. (Arthur Tuoto)

“Kyrie Eleison” fez parte do Camarilha Podcast #66
Ouça aqui “Gloria”

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Um comentário em “Maria Minerva – Sacred & Profane Love (2011; 100% Silk, EUA)

  1. gabriel emo medeiros
    6 de dezembro de 2011

    porra ruy, arranje outros comparsas

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Publicado às 6 de dezembro de 2011 por em EP da semana e marcado , , , , , .
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