Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Nate Young – Stay Asleep (Regression Vol. 2) (2011; NNA Tapes, EUA)

Nate Young é um músico de Detroit, Michigan, EUA, mais conhecido por ser membro fundador do grupo de noise Wolf Eyes. Além de seu projeto coletivo mais famoso, faz também parte dos grupos Hatred, Demons, Waste Ground e Stare Case, entre muitos outros. Em sua carreira solo, tem lançamentos com seu próprio nome e também com os pseudônimos Betrayor, Murder Dog, Jean Street e Regression. É dono do selo AA Records, pelo qual lança discos de seus projetos e de projetos de amigos (geralmente CD-Rs, compactos de 7” e cassetes). Stay Asleep (Regression Vol. 2) é o segundo álbum solo de Nate Young com seu próprio nome, e dá continuidade ao álbum Regression, lançado pelo selo sueco iDEAL em 2009. (RG)

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Quando brotam dos alto-falantes os primeiros sons sintetizados de “Comes Unbidden”, o primeiro pensamento é: mais uma figura de proa do noise sendo cooptada pelo mosquitinho dos sintetizadores, como Carlos Giffoni com seu No Fun Acid, como o Prurient com sua nova faceta anos 10. Mas demora muito pouco até o sentimento de déjà vu se esvair completamente. E, à medida que se sucedem as cinco faixas de Stay Asleep (Regression Vol. 2), temos a convicção que estamos diante de um trabalho que sabe articular sons e sentimentos de maneira singular e pulsante, mesmo com tantos (e tantos, e tantos…) discos de synth circulando por aí, a grande maioria não sendo mais que uma nota de pé de página nas carreiras do Tangerine Dream, do Cluster ou, pior ainda, de Vangelis. Nate Young funciona aqui em registro absolutamente distinto do trabalho de vandalismo noise/hardcore limite-de-decibeis que desenvolve no Wolf Eyes. É óbvio que o Wolf Eyes tem enorme cuidado com os sons que produz, mas na audição eles acabam sensorialmente soterrados no volume e na intensidade sonoras que o cérebro custa a processar. Stay Asleep, ao contrário, é um exercício sobre sutilezas e fixações de percepção. Em geral temos apenas um ou dois sons ao mesmo tempo, e a vagareza do andamento nos permite desfrutá-los até o momento em que eles decaem e somem. E a música produzida acaba soando como várias coisas diferentes. Os mesmos trechos, por exemplo, podem ser vistos como música ritualística, de êxtase (em seu significado etimológico, sair de si), ou como uma música francamente introspectiva, um mergulho em camadas escondidas do passado (o próprio título remete à hipnose, ao sono profundo e à regressão). Na dúvida, o melhor é não escolher e desfrutar do poder de plurissignificação dons sons de Nate Young e notar como a imersão nessa música altera nosso ritmo, nossas sensações e nosso processo de pensamento. Porque é evocativo nesse nível.

Stay Asleep (Regression Vol. 2) poderia ser sumariamente descrito como o disco que John Carpenter faria se decidisse compor uma suíte inspirada em “Black Sabbath”. Essa fórmula cabe perfeitamente para o primeiro lado do disco e suas três faixas, estruturadas a partir de notas longas e graves que evocam gongos sintetizados batendo, às quais se acrescem esguichos agudos de synth, barulhos percussivos ríspidos ou discretos uivos fantasmagóricos. O segundo lado do disco sugere duas variações ao modelo. “Stygian Faces” é mais solta, com marcações de andamento menos veementes e uma profusão maior de blips e esguichos de synth que se tornam pronunciadamente mais soltos e, uma hora ou outra, selvagens. “Collapse” fecha o álbum com seu momento mais melódico, guiada ritmicamente por notas repetitivas de piano choroso, sobre as quais flutuam simultaneamente notas melancólicas de saxofone, sons melancólicos processados de saxofone e camadas mais ásperas de synth.

Apesar de trabalhar com timbres e climas característicos de épocas passadas, não há o menor resquício de passadismo nesse álbum de Nate Young. O sintetizador não é para ele uma desculpa para reviver em modo celebratório ou reencenar autoironicamente, em modo hipster, um determinado tropo sonoro já partilhado pelo senso comum e, consequentemente, domesticado. Como Memowrekz, como os singles do No Fun Acid, como Disingenuity/Disingenuousness, Stay Asleep é música de sintetizador que não soa como se quisesse entrar num fã-clube. Ao contrário, ela tenta explorar sons não óbvios (inauditos seria exagero dizer) e articulá-los, aí sim, de maneira pessoal, rica em emoção (lúgubre, por certo, e intensa) e incomum no modo de utilização dos instrumentos. De fato, há um excesso de discos de sintetizador por aí, e a saturação só aumenta. Mas 2011 ao menos está presenciando um punhado de lançamentos de artistas que tentam fazer outra coisa com o legado desse tipo de composição entre kosmische e ambient. E Nate Young figura bem ali no topo, com Ekoplekz, com Container, e mais um ou dois… (Ruy Gardnier)

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Publicado às 7 de dezembro de 2011 por em álbum da semana e marcado , , , , , .
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