Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Julia Holter – Tragedy (2011; Leaving, EUA)

Julia Shammas Holter é uma compositora, cantora e artista multimídia nascida e criada em Los Angeles, Califórnia. Formou-se na famosa escola Cal Arts. Seu primeiro lançamento foi o CD-R Cookbook, de 2008. Em 2010 lançou mais um CD-R, Celebration, e um cassete pela NNA Tapes, Live Recordings. Tragedy foi lançado pelo selo Leaving Records, de Matthewdavid, que também masterizou e fez parte do coro na faixa final. Além de sua carreira solo, já desenvolveu colaborações com Linda Perhacs e Nite Jewel. (RG)

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Tragedy é um desses discos cuja descrição prévia desencoraja qualquer um. Ele tem, intuitivamente ou de caso pensado, uma abrangência de atmosferas, fragmentos e sonoridades que evoca a grandiloquência proibitiva da arte total, e lida à sua maneira com uma série de registros sonoros que isoladamente representam algumas das linhagens do underground sonoro atual, incorporando-os a composições que lidam com seu avesso, ou seja, composições delicadas e melodias dóceis. As oito faixas de Tragedy (seis na versão em vinil, que cortam a introdução e o interlúdio) sugerem uma viagem por paragens musicais distintas, quase incompatíveis, embora soberbamente dosadas e ordenadas. Para aumentar a sensação de ambição excessiva, o álbum é estruturado à maneira de uma peça clássica, com introdução, partes, interlúdio e finale, e toma efetivamente por inspiração uma tragédia grega, Hipólito de Eurípides, da qual são tirados os trechos cantados do álbum. A questão principal, no entanto, não é se Julia Holter dá conta da aura de ambição latente em suas escolhas, mas de que maneira ela organiza, engloba e articula os elementos sonoros e conceituais que escolheu para compor suas músicas.

Porque Tragedy, sem tirar nem por, pode ser considerado como uma sinfonia de drones, field recordings, canções, ruídos de fita, vozes declamadas e sons orquestrais. De uma maneira nada esquemática, porém: as passagens entre um momento e outro (não só entre uma faixa e outra, mas via de regra dentro da própria faixa) soam mais intuitivas do que calculadas, e as sobreposições de camadas com diferentes valores adquiridos de “musicalidade” – um fragmento de canto lírico de um lado e barulhos cotidianos de pessoas falando do outro, por exemplo -, não parecem estar lá como um construto dialético, cerebral, e sim como um resultado de uma experiência, validado no fim das contas pelo feeling. Os sons de Tragedy parecem micronarrativas de um mundo vivido, com toda a carga de mundo íntimo e mundo objetivo que isso comporta, com os bolsões enevoados de tempo “vazio” e os momentos de atividade que um dia, uma semana, um mês proporcionam a nossas vivências. Mas, apesar da aparente austeridade do canto de Julia Holter e dos longos momentos instrumentais, que convidam a uma fruição mais distante, a voz de Julia Holter e a delicadeza de suas melodias nos transmitem uma emoção mais à flor da pele, e funcionam como verdadeiras paragens entre os momentos mais drone/ambient, entre áridos e flutuantes. Mas não é que os trechos cantados sejam a “recompensa” de uma audição com altos e baixos (ainda que os ouvintes mais convencionais possam fazer esse tipo de uso); os momentos-canção e os momentos-ambiência se intercalam, um fortalecendo o outro e colaborando para a fluidez da audição. E essa dinâmica, curiosamente, remete muito mais às colagens intrafaixas do cLOUDDEAD, intencionalmente fragmentadas, do que a lógica de progressão e de criação de climas dos formatos longos eruditos (ópera, sinfonia). Se Tragedy acaba soando como um disco “grandioso”, isso não acontece pelos marcadores de grandiosidade (obra conceitual, sons “nobres”), mas pela própria envergadura e dimensão do projeto. Porque os materiais ela cata em todos os lugares, desde chiados de cassete a um ensemble tocando. E uma lógica não é convertida à outra, nem as duas se alternam: há aí um real amálgama que cria uma sensibilidade singular.

Uma associação relativamente fácil é a obra de Sufjan Stevens, embebida igualmente de influências eruditas, folk, pop barroco e um apetite ávido por hibridizar formatos (pensar em Illinoise: vai-se do folk delicado de Simon & Garfunkel com “John Wayne Gacy Jr.” até Steve Reich com “Out of Egypt…”, passando por cheerleaders e soul em “They Are Night Zombies!!…”). Julia Holter, por sua vez, gosta de brincar com a “não-música”, com o poder evocativo de barulhos habituais (vento, burburinho, pássaros), com notas prolongadas à exaustão, com frequências e barulhos não eufônicos, da mesma forma que brinca com estruturas mais “musicais”, como a parte melódica de “Try To Make Yourself a Work of Art”, o coro de “Tragedy Finale” ou o dueto vocoder + voz limpa de “Goddess Eyes”. E por mais que o disco passeie por paisagens sonoras as mais disparatadas, há uma mesma coerência que pontua o disco, uma inacreditável aura que nos carrega ao longo da audição. Tragedy é um portentoso disco propositivo que esfrega na nossa cara a patente evidência de que nem tudo ainda foi experimentado, que ainda existe caminho para criar novas formas ou hibridizar as já existentes, e dentro disso criar algo de belo e pessoal. Julia Holter é desde já uma grande revelação de 2011 e Tragedy um dos grandes álbuns do ano, uma obra ao mesmo tempo fragmentária e inteiriça, difícil de juntar os pedaços mas surpreendentemente coesa e fluente quando se entra em sintonia. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 9 de dezembro de 2011 por em álbum da semana e marcado , .
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