Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Throwing Snow – Too Polite (2011; Local Action, Reino Unido)

Throwing Snow é o pseudônimo de Ross Tones, produtor londrino, consultor do estúdio/produtora musical Hear No Evil e criador do selo A Future Without. Antes deste Too Polite, seus lançamentos foram esparsos: Footnotes, Part 1 em 2007, Un Vingt/Chronos em 2010 e Shadoweer/Sanctum em 2011, além de um EP em colaboração com Py, Wallow, também deste ano. Remixou faixas de Gold Panda, Eskmo e Kidkanevil, entre outros. (RG)

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De um homem que trabalha compondo por encomenda, espera-se correção, sensibilidade para reconhecer o que se quer atingir e talento moderado para surgir com ideias e melodias que cumpram a função desejada. E quando esse homem passa a fazer suas próprias composições, não existe o risco de que as faixas soem exatas e soberbamente produzidas porém sem alma? Essa dúvida, em todo caso, só surge na pós-audição, porque nos quinze minutos em que Too Polite dura, ninguém se preocupa com falta de inspiração ou oportunismo. Num ano que não revelou grandes nomes na área dubstep/bass/garage, e em que até os grandes tiveram certa dificuldade em se manter especiais – Burial à parte, Deadboy, Joy O e Four Tet, entre outros, não fizeram nada antológico -, uma faixa como “Pyre”, que abre esse EP, surge como um oásis. “Pyre” é escandalosamente moldada a partir de Deadboy, da voz de gás hélio até o timbre entre acordeon e órgão da principal camada melódica. Pouco importa: seu artesanato magnífico, misturando elegância e espaçamento rítmico com o poder sugestivos das vozes “fantasma agonizante” à Burial, já credenciam Tones a um lugar especial dentro da eletrônica sendo produzida atualmente, sobretudo em se tratando de alguém que entende a lógica de economia que faz o dubstep: batida em 2-step, subgraves de linha de baixo e força na espacialidade sonora. “Equuleus” é um downtempo com timbres percussivos vintage anos 80 até o momento em que um contratempo largo, à disco, sobe à frente do arranjo. As duas primeiras faixas são excelentes audições, mas criação by the book. É quando entra “Too Polite”, que dá nome ao EP, que Throwing Snow se revela como um real nome a seguir. Trata-se de uma faixa de andamento 2-step hiperacelerado em que uma voz de gás hélio repetindo infinitamente algo que termina com “too polite” duela (ou faz dueto?) com uma inserção de ruído glitchy que parece a chaminé de uma barcaça digital. Um segundo movimento chama breaks de jungle para o som, e em seguida a faixa evolui propondo novas camadas melódicas até que acaba sem qualquer resolução sonora, só um “do it” na voz. Pode-se pensar numa junção de breakcore, Metalheadz, Martyn e Deadboy, mas ainda é pouco. “Too Polite” é um desses híbridos fascinantes que parecem criar um outro gênero de tão bem ligados que estão os elementos de partida. Nesse momento Ross Tones mostra definitivamente que não é um artista imitativo, mas alguém que sabe articular a linguagem até encontrar dentro dela a invenção.

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Publicado às 16 de dezembro de 2011 por em EP da semana e marcado , .
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