Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2011: Músicas – Ruy Gardnier

1. Peaking Lights, “All the Sun That Shines”
De todos os artistas que se embrenharam pelas frestas do avant-pop e da reciclagem lo-fi, o Peaking Lights foi aquele que venceu por muitas jardas de vantagem na confecção de um som absolutamente pessoal e inédito. “All the Sun That Shines” é a realização maior dessa aparentemente impossível junção de psicodelia flower power com dub, fornecendo uma lendária linha de baixo, um refrão-slogan de cantar junto e inúmeras intervenções jazzy/dub de teclado e guitarra que trabalham maravilhosamente a espacialidade do ritmo.

2. Pole, “Wipfel”
Antes o Pole era famoso por sua produção absurdamente econômica e pela junção de dub e glitch. O glitch foi indo embora aos poucos, o som foi ficando mais sensual e rítmico. Quando o tínhamos visto pela última vez, ele flertava com dubstep e bass music a ponto de já não ser mais tão singular. Aí aparece o EP Waldgeschichten e mostra que ele consegue reinventar seu som através de um maximalismo sincrético, trocando glitch por nuvens de chocalho, apostando num multiarranjo de microssonzinhos e fazendo um reggae cubista sem similares hoje ou ontem.

3. PJ Harvey, “The Glorious Land”
O sample de toque de chamada da cavalaria, bem fora do andamento, perturba muita gente a propósito de “The Glorious Land”, mas esse é justamente o propósito dessa faixa carregada e nervosa, que contém em termos sonoros a súmula de veemência e indignação de Polly Jean Harvey com essa maravilha que é Let England Shake. O meio minuto final de chamada e resposta é um momento magnetizante em que a cantora e compositora finalmente reencontra, agora em novos termos, a agressividade divina de seus dois primeiros álbuns.

Depois, em ordem alfabética, o time A:

Cults, “Abducted”
Um refrão ultraganchudo de power-pop numa estrutura estranhíssima que contém apenas uma estrofe, um prelúdio e um meta-bridge intrspectivo, “Abducted” mostra em menos de três minutos como o dueto ainda é uma forma interessante e inexplorada, e que a doçura de um girl group à Phil Spector ainda pode existir hoje sem parecer um parque temático de pop dos anos 60. Pena que o resto do primeiro disco da dupla não chegou perto do fôlego e da vitalidade mostrados nessa música de trabalho.

Domenico, “Cine Privê”
“E o coração a tocar e a tocar…” Belíssimo artesanato cancioneiro recheado de toques deliciosos de arranjo e de produção, “Cine Privê” exibe um Domenico Lancelotti encontrando o equilíbrio perfeito de seu vocal com o refinamento instrumental já habitual de sua arte. Da guitarra repetindo a melodia vocal ao clímax centrípeto do final da faixa, são inúmeras as belezas dessa preciosa canção.

Girls, “My Ma'”
A primeira grande notícia do Girls em sua versão 2011 é que o vocalista finalmente encontrou sua forma natural de cantar. “My Ma” é uma balada-folk regada a melodia de órgão, coro e slide guitar que parece a união perfeita entre Big Star e Neil Young, sem no entanto soar como um pastiche de qualquer um dos dois. O diferencial está na enorme habilidade de composição e na poderosa entrega do vocal de Christopher Owens.

Machinedrum “She Died There”
Num ambiente de total permissividade e fusão de estilos, rendendo por vezes em deliciosos híbridos mas também em indigestos resultados que remetem ao pior do fusion, o Machinedrum e sobretudo “She Died There” dão provas absolutas de que ainda se pode fazer o hardcore continuum seguir em frente com suas próprias bases, apropriando-se soberbamente dos usos abusivos de loop do juke, de um padrão percussivo complexo e do poder evocativo do uso de vocal pós-Burial.

Metá Metá, “Vias de Fato”
O trio formado por Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França foi uma das grandes surpresas do ano, e “Vias de Fato” é a canção mais segura e dramática do disco de estreia do grupo. Dinucci retoma uma composição que havia gravado com o Duo Moviola e aqui aproveita a força vocal de Juçara Marçal e de um arranjo mais incisivo, chegando a uma intensidade e a uma atmosfera grave que lembra alguns dos grandes momentos de Chico Buarque e Elis Regina. Metá Metá é a banda de um universo paralelo em que a MPB nunca esmoreceu.

Panda Bear, “Afterburner”
Inelegíveis – porque lançadas em single no ano passado – as faixas que compõem a primeira metade de Tomboy (minha preferida entre estas é a que dá nome ao disco), o destaque vai para “Afterburner”, faixa em que a marcação pulsante se mistura magicamente com as camadas que enchem o arranjo e fazem casa perfeita para o vocal onírico e cheio de nota alongadas de Noah Lennox. Se o álbum inteiro é música de levitação, “Afterburner” é o momento perfeito de flutuação numa pista de dança.

Romulo Fróes, “Um Labirinto em Cada Pé”
Quase chegando ao fim de Um Labirinto em Cada Pé, a faixa que dá nome ao disco exibe um Romulo Fróes fragmentado entre várias inserções sonoras ligeiramente conflitantes, potencializando a intensa sensação de alienação e serenidade dentro do absurdo que caracteriza o vocal e a natureza das letras de suas canções. Uma articulação formidável entre a ordem e o caos que parece ser o grande tema subterrâneo de seu último trabalho.

Tyler the Creator, “Sandwitches (feat. Hodgy Beats)”
Talvez “Yonkers” tenha um gancho melódico mais incisivo e contenha o “Tyler portátil” de modo mais sucinto, mas “Sandwitches” em contraposição tem uma batida mais insidiosa, com uma batida mais quebrada e uma lentidão soturna mais convidativa à fantasmagoria do líder do Odd Future. A participação de Hodgy Beats, como se diz em administrez, “agrega valor”. E quem viu “Sandwitches” sendo anarquicamente executada (é o termo) no programa de Jimmy Fallon no começo do ano certamente não há de esquecer.

Vivian Girls, “I Heard You Say”
A julgar pelas listas de melhores de ano de diversos veículos, ninguém mais se importa com as Vivian Girls. Certamente elas não têm mais a seu favor o charme e a inocência lo-fi de suas primeiras composições, mas isso é bastante secundário diante da exímia articulação entre pop de praia, girl group e bubblegum evocada em “I Heard You Say”.

E o time B:

Ensemble Economique, “To Feel the Night as It Really Is”
O Ensemble Economique em sua versão 2011, com Crossing the Path, by Torchlight, soa muito menos dub e hipnagógico, mas em compensação constrói atmosferas muito mais evocativas e ambient, situando-se estranhamente próximo de Fennesz e Leyland Kirby na construção de sons saturados que estão numa linha tênue entre doce pastoralidade e sutil desespero. Em “To Feel the Night as It Really Is”, viradas de bateria, lentos acordes aquosos de teclado, percussão e synths incidentais se abraçam para pagar um tributo dúbio aos poderes de encantamento do isolamento noturno.

FaltyDL, “Hip Love”
Um dos donos do ano de 2011 é FaltyDL, mas sua melhor faixa foi também a primeira coisa que ele lançou no ano, um singlezinho com um meta-R&B/trip hop de batida hiperquebrada e instável. A diva melancólica parece filtrada mais de Massive Attack do que de Burial, mas a composição aponta mais para o desconstrucionismo construtivo de um “Windowlicker” ou um “Trilingual Dance Sexperience” do que para uma volta à sacrossanta e idealizada pureza do UK garage.

Kate Bush, “Snowflake”
A balada de voz e piano que já há alguns anos se espera de Antony dessa vez veio de Kate Bush, sem o pathos característico do cantor andrógino, substituído aqui pela solidão serena da autora de “Wuthering Heights”. Mas tanto em um quanto na outra, a atenção vai para o incrível poder expressivo do vocal. No caso de “Snowflake”, a maneira como Bush conduz os dez minutos de faixa, entre paragens desdramatizadas/faladas e clímaxes com agudos pungentes, é fascinante e comovente.

Kode9 & the Spaceape, “Love Is the Drug (feat. Cha Cha)”
Dubstep sem hibridismos foi coisa difícil de achar esse ano, mas depois de flertar com o UK Funky em alguns singles, Kode9 deu sua versão para o dubstep acelerado com algumas faixas de Black Sun, e “Love Is the Drug” é o destaque, com uma sutil progressão de acordes e uma poderosa intervenção vocal da cantora Cha Cha que domina a faixa, inserindo-a no domínio carregado/infernal do Maxinquaye de Tricky, só que bem mais sacolejante.

Leyland Kirby, “No Longer Distance Than Death”
Leyland James Kirby teve um ano prolífico e prodigioso, com um álbum do Caretaker e quatro assinando com o próprio nome, três dos quais pela série Intrigue & Stuff. Diversas faixas poderiam encontrar seu lugar nessa lista de fim de ano, mas “No Longer Distance Than Death” conjuga de forma suprema o cuidado timbrístico, a obsessão com andamentos muito lentos e a atenção a melodias fugidias que parecem ser erodidas enquanto o tempo passa, deixando saturação e detrito.

Maria Minerva, “Laulan Paikse Kaes”
Quem chegou mais perto de igualar o poder reconstrutivo do lo-fi em 2011 foi Maria Minerva, que pegou algumas deixas da dona de sua gravadora, Amanda Brown (como LA Vampire), e levou sua lógica de cantora de cabaré underground à perfeição, com quatro deliciosos lançamentos, dos quais Cabaret Cixous sobressai, e dentro dele “Laulan Paikse Kaes”, com uma batida contagiante e abafada, e riffs de teclado que macaqueiam o italo-house dos anos 80, tudo isso envolvido numa densa nuvem de texturas de baixíssima fidelidade.

Ossie, “Set the Tone”
Num ano em que a Night Slugs não preencheu o espaço que dela se esperava, o grande destaque em termos de UKF exigente foi essa faixa absolutamente deliciosa de Ossie com uma levada afro-house, um vocal em vocoder que coloca na vala qualquer coisa já feita com autotune deformador, uma doce melodia de sintetizador e um inapelável coro de criancinhas fazendo “Ah-Ahhhhhhh”. Parece pouco, mas é o suficiente para criar uma das poucas faixas desse ano que pode ostentar o título de hino de pista nesse ano.

Thurston Moore, “Mina Loy”
O ano acabou com a péssima notícia do fim do Sonic Youth, mas durante o ano tivemos diversas provas do talento de seus integrantes, como a trilha sonora Simon Werner a disparu e o solo Demolished Thoughts de Thurston Moore. Com um arranjo formidável de cello e violão, e o inequívoco poder melódico de Moore com as cordas, eletrificadas ou não, “Mina Loy” é uma canção de maturidade em que o ex-líder da juventude sônica mostra que também funciona perfeitamente bem em registro acústico.

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