Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2011: Músicas – Arthur Tuoto

Minhas cinco faixas fundamentais do ano:

Maria Minerva – “Laulan Paikse Kaes”
O pop estragado em sua essência. Ou, o lo-fi e todos seus mais felizes detritos, maravilhosamente bem apropriados pela magia dinâmica e abafada de Maria Minerva. Noise ou música pop? Muito além da nossa vã filosofia… Se o selo Not Not Fun serviu para alguma coisa esse ano, foi para nos livrar do trauma do chillwave. “Laulan Paikse Kaes” em especial, supera  a ideia do lo-fi apenas como uma emulação festiva, mas apropria-se criativamente dele e nos mostra uma canção contemporânea e cheia de possibilidades.

PJ Harvey – “The Glorious Land”
No combate entre um eu lírico subjetivo e a possível definição um tanto quanto, digamos, temática de seu tempo e de seu país, PJ Harvey é feliz ao encontrar um vigoroso e arriscado caminho. “The Glorious Land” alia muito bem a poesia política do disco com a sensibilidade característica da cantora, sua agressividade sutil que tanto nos intriga. Uma anatomia afetiva, madura e universal, como tende Let England Shake em seu todo.

Peaking Lights – Tiger Eyes (Laid Back)
O pop cavernoso de “Tiger Eyes (Laid Back)” tem as qualidades de um hino sombrio dos mais oníricos e prazerosos. Um vocal arrastado e hipnótico que nos leva junto, cada vez mais longe. Linha de baixo pungente e convidativa, padrões aéreos em um misto de dub e lo-fi que seduzem desde os primeiros segundos. Ainda que de digestão bastante fácil, as escolhas do Peaking Lights nesse universo da canção constroem uma dimensão toda à parte, fazendo da melodia uma ciência subversiva e altamente saborosa.

Panda Bear – “Alsatian Darn”
Os ganchos propulsores de “Alsatian Darn” talvez façam dela, ao lado das faixas de Maria Minerva e Peaking Lights, as pérolas do avant-pop de 2011. O casamento poderoso entre a melodia dinâmica e o arsenal de timbres excêntricos de Panda Bear, faz de Noah Lennox talvez o artista mais inventivo dos nosso tempos. “Say can I make a bad mistake / Say what it is I want to say to you / Say what?“. Fora a carga pessoal de suas letras, nunca óbvias e de uma sutileza inteligente, transformando cada estrofe em um pequeno hino revelador.

Machinedrum – “She Died There”
A célula vocal mais contagiosa do ano é de Travis Stewart, ainda que “She Died There” talvez reflita só parte do que é Room(s), outro dos discos  fundamentais de 2011. O sample picotado e crescente, a variação de frequências que invade nossos sentidos com uma força espacial pouco antes experimentada, é definitivamente um dos maiores momentos sensoriais do ano. Combinada com uma estrutura percussiva seca e complexa, a faixa crava o nome de Stewart como um dos produtores a se acompanhar cada vez mais de perto; em tempos de juke então, a festa só está começando.

* # *

E outras quinze indispensáveis, em ordem alfabética:

Alva Noto – “Uni Acronym”
“Uni Acronym” alia dois nomes fundamentais da arte sonora: Carsten Nicolai e Anne-James Chaton. Com batidas e detritos de origem operacional regidas por Nicolai, a faixa apresenta o poeta Anne-James Chaton recitando letras do alfabeto, e o que em um primeiro momento parece não fazer sentido, aos poucos formam acrônimos universais bastante familiares, como deixa até mais claro o incrível vídeo da faixa.

Beyoncé – “1 + 1”
“1 + 1” é uma economia de gestos. Beyoncé desarmada, sem os esquemas explosivos e outras afetações pops turbinadas que, ainda assim, ela lida tão bem. Uma linha de guitarra, simples e presente, combinada com sua voz sempre poderosa e bem dirigida, provam que, em tempos de Lady Gaga e outras aberrações auditivas, só isso basta para se construir uma boa canção. Seja o pop, seja a baladinha romântica arrastada, seja o R&B em sua mais pura, bruta e poderosa essência.

Death Grips – “Klink”
Além do coletivo Odd Future e do duo Shabazz Palaces, outra grande supresa tenebrosa do hip-hop foi o Death Grips. Ainda que o projeto Zach Hill e companhia não tenha alçado tanto estardalhaço quanto os acima citados, sua fusão agressiva entre punk, hip-hop e industrial revelou um arsenal explosivo de faixas bastante poderosas. “Klink” é um exemplar dos mais anárquicos, mas sempre equilibrado em sua proposta temática: descrença, desordem e pura inconsequência.

Domenico – “Cine Privê”
Domenico talvez seja a minha fração favorita do projeto +2. Sincerely Hot, aliás, permanece forte no meu coração como um dos maiores lançamentos da década passada. Se por um lado Cine Privê, o disco, não faz jus ao talento já mais do que estabelecido do cantor e compositor, a faixa em questão meio que faz quase todo esse trabalho sozinha. De melodia impecável, letra inspiradora e vocal em perfeita sintonia, a música título do trabalho de Domenico é um primor de menos de quatro minutos que destoa com beleza do restante do trabalho.

Gaby Amarantos – “Xirley”
Um dos grandes momentos da música brasileira esse ano foi o mashup no final do VMB entre Gaby Amarantos, Garotas Suecas e Banda Uó. Com uma sonoridade muito mais vigorosa do que a inofensiva nova mpb que a emissora tanto tenta vender, a simples e legítima confissão de Amarantos – Eu vou samplear / Eu vou te roubar – reflete uma tendência atual e inegável, quase um manifesto godardiano (o ‘socialismo’ das imagens roubadas do último filme de JL Godard e sua franqueza ao reconhecer a ilegalidade das mesmas), além de representar, ainda que de forma bastante polida, o ápice de toda uma cultura faça você mesmo tão comum ao tecnobrega, de importância vital para nossa cultura nacional.

Girls – “Alex”
Difícil escolher apenas uma música desse disco do Girls, já que a própria ideia central do trabalho parte de uma certa diversidade, ainda que bastante equilibrado em seu conceito de todo. As escolhas mais certas seriam “My Ma” e “Vomit”, definitivamente os dois grandes momentos do disco. Porém “Alex”, o shoegaze à Kevin Shields do disco, talvez seja minha pequena paixão adolescente. Despretensiosa em certo sentido, a melancolia 90’s que os riffs de guitarra e a voz serena de Christopher Owens exalam são de um poder sedutor quase infantil, sempre dolorido. O que me faz, quase que instintivamente, voltar a ela bem mais do que as outras.

James Blake – “The Wilhelm Scream”
O minimalismo soturno do dubstep dilui-se em uma canção chorosa. Um folk pós-moderno? Um resmungo tecnocrata? Ou somente um garoto e seu violão (no caso um sintetizador). O descompromisso de James Blake com as bases que o alçaram gera uma faixa intimista e que sabe aliar muito bem as fagulhas da cultura de graves com os prazeres despretensiosos de uma simples composição adolescente.

JAY-Z & Kanye West – “Niggas In Paris”
Mais do que atestar uma suposta supremacia, Watch The Throne é uma espécie de parque de diversões particular para Jay-Z e Kanye West. Na posição em que estão, eles basicamente podem ter de tudo: pagar pelo sample que for, chamar quem quer que seja, falar do que der na telha. Sendo assim, a dupla não perde tempo. Ágil, rápida, contagiosa e de rimas grudentes, “Niggas in Paris” é a perfeita combinação dessas forças, divertida e dinâmica, o exemplo mor do hip-hop mainstream easy listening que joga com todas as referências pops que tem direito sem medo de ser feliz.

Kassin – “Potássio”
Os sonhos infantilizados de Alexandre Kassin recorrem a uma estética lúdica toda particular nesse seu primeiro trabalho solo. E o que poderia cair em um joguinho fofo de fácil assimilação (como tende um Marcelo Jeneci da vida), envereda por um misticismo melódico convidativo e inteligente. “Potássio” é um poema excêntrico e sedutor, a devida carga onírica e o vocal viajadão em tom quase didático fazem da faixa uma das lembranças mais deliciosas do ano na música brasileira.

Leyland Kirby – “No Longer Distance Than Death”
Leyland James Kirby e seus saborosos detritos. Em um ano no mínimo prolífico, nosso excêntrico cabeludo foi da apropriação memorialística de discos 78rpm (pelo projeto The Caretaker), ao lo-fi cavernoso e escultural de Eager To Tear Apart the Stars, do qual “No Longer Distance Than Death” faz parte, além de trabalhos pela série Intrigue & Stuff. Mística e ruidosa, a faixa em questão traça uma das mais belas paisagens sonoras que Kirby já concebeu; sua utopia da memória, que esculpe e corrói timbres dos mais enigmáticos, em um belo exemplar.

Pete Swanson – “Misery Beat”
Os resíduos de um techno perdido no tempo tomando forma pelas mãos de Pete Swanson. Crescente, pesada, quase um clássico já reconhecível. Em seu segundo lançamento do ano (em 2011 também contamos com I Don’t Rock At All, recheado de saborosas guitarras distorcidas), o ex-Yellow Swans faz jus ao seu nome e nos presenteia com essa pancada ruidosa e complexa.

Shabazz Palaces – “Swerve… the reeping of all that is worthwhile (Noir not withstanding)”
De um jogo de percussão seco a synths enigmáticos e rimas simbólicas, essa faixa do Shabazz Palaces parece englobar um imaginário todo particular. Definitivamente é quase impossível dar conta de todas as influências do grupo em uma só música, ou ainda simplesmente definir tais influências, mas “Swerve…” parece diluir bem todo o jogo mísitco do duo, uma boa porta de entrada para o complexo e tenebroso universo de Black Up.

The Field – “Then It’s White”
Convidativa, suave, aérea. “Then It’s White” é a última curva, o final da intensa jornada de Looping State Of Mind. Quando o estado meditativo já está enraizado e os sentidos já são outros. A paisagem então, nem se fala, foram tantas. O que resta, aqui, é aquele sentimento de sucessão, prolongamento, atravessamento. Nesse momento, nada mais simples e poderoso do que um simples piano gradual, uma percussão tímida e um vocal baixo que anuncia o fim (ou seria o começo?) de outro corpo sonoro que se faz presente.

The Weeknd – “Lonely Star”
A sensualidade narcótica de Abel Tesfaye hipnotizou muitos em 2011, alguns talvez até demais. Impossível negar, porém, que a combinação de certos estados letárgicos, ambientes tétricos e safadezas um tanto quanto machistas não tenham lá seu apelo, ainda mais nesse tom confessional, quase choroso, que o canadense se debruça. Os falsetes arrastados de “Lonely Star” lembram aquele Justin Timberlake que não tinha medo de fazer voz de menina, muito menos de implorar sem pudor; quem sabe depois de uma ou duas pedras de crack, Timberlake também não seria capaz de uivar a mesma sentença da canção de Tesfaye: Baby I could fuck you right.

Tyler the Creator – “Sandwitches (feat. Hodgy Beats)”
Soturna e agressiva, “Sandwitches” talvez reflita, de maneira até mais forte que “Yonkers”, toda a estética tétrica e de flertes satanistas do coletivo Odd Future. Batidas sombrias devidamente arrastadas, pequenos efeitos isolados que lembram o melhor de um pesadelo 8bit e, claro, a voz pungente e subterrânea de Tyler, vociferando seus tão sedutores tormentos freudianos, que aqui ainda conta com a ajuda de seu parceiro de coletivo Hodgy Beats.

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Um comentário em “Melhores de 2011: Músicas – Arthur Tuoto

  1. caiocagliani
    27 de dezembro de 2011

    Quanto a Xirley, prefiro a original na voz de Ze Cafofinho, de 2008.

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