Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2011: Músicas – Thiago Filardi

1. Tyler the Creator – “Yonkers”
Se o hiphop, a exemplo do rock, tornou-se um gênero moribundo e, grande parte de seus protagonistas, zumbis, há sempre aqueles artistas capazes de transformar ou, até mesmo, reverter a situação. Há meia década, ou mais, não tínhamos um rap tão forte, tão incisivo e tão visceral como este, no qual elementos díspares (piano jazzístico e sintetizador de filme de terror cômico) e um rap confessional (neste ponto, Tyler se assemelha ao nosso Emicida) criam uma atmosfera única, à qual somos relocados desde os primeiros segundos da música, quando se inicia um chiado esquisito com uma batida abafada. Além disso, Tyler é também uma figura representativa da juventude contemporânea: tão desorientada e paralisada pelo excesso de signos e informações quanto aflitiva em causar mudanças. Mas são esses jovens que podem fazer a revolução (como fizeram no Oriente Médio) ou, simplesmente, conceber um instante musical antológico.

2. Jay-Z & Kanye West – “Niggas in Paris”
No interlúdio de “Niggas in Paris”, é inserido um sample de um diálogo, no qual um dos personagens diz: “No one knows what it means, but it’s provocative, gets the people going!” Se o sentimento em relação à produção musical contemporânea, por vezes, esbarra no desnorteio e na falta de compreensão, devido à abundância de estilos e manifestações, uma música como “Niggas in Paris” põe toda essa confusão para trás com seu teor altamente provocativo – seja no riff imediatista, na letra cheia de arrogância, no grave explosivo ou no próprio título, que revela as traquinagens de Jay-Z  e Kanye West em terras europeias. Desde já uma das faixas mais marcantes na carreira desses dois rappers, que sabem, como ninguém, o quão importante é a existência de músicas instigantes, que tratam do agora. “It gets the people going”.

3. Burial – “Street Halo”
Depois de três anos e meio sem lançar material solo novo, Burial finalmente reapareceu, no início do ano, com o EP Street Halo. As três faixas constituintes do EP provam que – mesmo as colaborações com Four Tet e Thom Yorke ou as transformações velozes e radicais pelas quais passou a música desde Untrue – William Bevan permanece fidedigno à sua estética tão marcante e influente. Mais que isso: ele mergulhou profundamente dentro de sua própria arte e fez de “Street Halo” uma das faixas mais fascinantes, belas e bem acabadas de toda sua carreira. Percebe-se uma notável evolução no trabalho de texturas, de climatização, uso de vozes e de estrutura (linhas de baixo e melodia principal são habilmente inseridas; e até mesmo um fade out/fade in para finzalizar com chave de ouro). Monumental.

4. Battles – “Ice Cream (Feat. Matia Aguayo)”
Mesmo com a saída de Tyondai Braxton, o Battles não arrefeceu e continuou firme nas suas pesquisas de timbre e dinâmica musical. A verdade é que não há grupo nenhum no mundo que faça algo próximo ao Battles (ao vivo, então, nem se fala…). Em “Ice Cream”, eles convidaram o produtor chileno de techno, Matias Aguayo, conhecido por seus experimentos com vozes. As guitarras, que já produzem choques timbrísticos entre si, agora vão de encontro também à voz de Aguayo, que entoa uma melodia tão grudenta e pop quanto a destes instrumentos – no entanto, tudo soa muito esquisito. Para ficar totalmente boquiaberto, como se estivesse, de fato, pronto para tomar um sorvete.

5. Addison Groove – “It’s Got Me”
Utilizando o já manjado sample de “Nautilus” de Bob James, “It’s Got Me” é mais uma apropriação do footwork por parte do produtor Antony Williams, na linha de “Footcrab”, lançada ano passado. Aqui, no entanto, ele parece adentrar em um novo território: ao contrário de grande parte das faixas de footwork ou do próprio dubstep, “It’s Got Me” nunca permanece no mesmo lugar – as mudanças são muitas e constantes. E não se trata somente de inserção e reinserção de elementos rítmicos ou melódicos. O que, no início, era uma música, no final, vira outra música, com ritmos e dinâmicas completamente metamorfoseados. Tudo isso feito com muita coesão e esmero na mixagem.

6. PJ Harvey – “The Glorious Land”
Ainda que deva ser fruído em sua integridade, Let England Shake possui alguma das canções mais marcantes deste ano, a exemplo de “The Glorious Land”. Como num passe de mágica, Polly Jean consegue nos deixar completamente absortos já nos primeiros segundos, com a bateria, o chocalho e a linha de baixo (simples, mas pulsante e grave em uma altura esquisita). Quando entra a guitarra, são apenas dois acordes, mas a magia apenas aumenta. Daí pra frente, a canção se torna ainda mais envolvente, com um sample desorientador, a melodia em registro extremamente agudo e o coro masculino reforçado por Mick Harvey. Afora suas conotações política, “The Glorious Land” é, sobretudo, uma grande e perturbadora canção.

7. Timbaland – “Pass at Me (Feat. Pitbull & David Guetta)”
Embora seja agraciada com a participação de duas das figuras mais diluidoras da música pop contemporânea, “Pass at Me” é mais um atestado do talento e do poder vanguardista subliminar de Timbaland. Aqui, ele vai fundo nos seus experimentos com diferentes camadas de vozes e registros de altura das mesmas. Com um ritmo altamente contagiante e uma produção vigorosa e muscular (como é característico de Timbaland), trata-se de uma das músicas mais irresistíveis do ano.

8. Domenico – “Cine Privê”
Se pegarmos a harmonia e a levada da guitarra de “Cine Privê”, perceberemos que esta é uma canção punk. Mas a produção segue uma lógica inversa, amaciando e enchendo de reverb os timbres da guitarra de Pedro Sá (da mesma maneira que a voz de Domenico); fazendo, assim, com que a música assuma uma forma etérea, a exemplo do teor de sua letra. Talvez seja este o paradoxo que tanto fascine em “Cine Privê”, haja vista sua simplicidade. Mas Domenico vai além: ao escutar a faixa-título de seu álbum, temos a impressão de realmente estar entrando na cabeça do próprio cantor e experimentando as mesmas sensações descritas na letra; é como se ele nos desse a dimensão exata de sua subjetividade. E isso é raro.

9. Maria Minerva – “Ruff Trade”
Outro exemplo de canção etérea e singular, “Ruff Trade”, faixa derradeira do álbum Cabaret Cixous, possui uma das melodias mais bonitas e um dos refrões mais pegajosos deste ano. Impossível não lembrar Cocteau Twins ou outras bandas dos anos 80 que navegavam por um território similar, chamado por muitos de dream pop. De atmosfera ímpar, “Ruff Trade” foi um dos pontos mais altos de Maria Minerva, que desponta como o grande novo talento de 2011.

10. Machinedrum – “Now U Know the Deal 4 Real”
Room(s) é o disco que mais apresentou faixas individuais de destaque, em 2011. Mas há algo em “Now U Know…” que a difere das demais. Como fez Tricky e Anthony “Shake” Shakir no final dos anos 90, ou o Radiohead no início dos anos 2000, ou Dorian Concept no final dos 2000, esta faixa parece definir um momento específico da humanidade. Talvez seja muita responsabilidade para entregar a Travis Stewart, mas há algo de urgente na batida, de assertivo nas frases entoadas e de melancólico e grandioso no sintetizador. É como se Machinedrum nos desse o tom e o estado de espírito de 2011. E foi assim que eu o senti.

11. Funkystepz – “Fuller”
Com um riff irritantemente insistente e grudante, “Fuller” é uma música que pode causar repúdios e julgamentos precipitados a muitos (ouvi barbaridades de quase todo mundo a quem mostrei a faixa), mas ela deixa marcas profundas no subconsciente. O que parece ser insuportável às primeiras audições, se revela um hino sem precedentes. O ritmo é o UK Funky e o trabalho de percussão por parte desses jovens produtores londrinos é magistral.

12. Martyn – “Ghost People”
Um dos queridinhos desse blog desde sua criação, Martyn move para novas direções com seu LP Ghost People e tem cada vez se aproximado mais da house. Talvez não haja mais em sua música o grau de inovação de “Vancouver”, “Natural Selection” ou “Suburbia”, mas o brilho e a habilidade incrível em criar atmosferas absorventes continuam os mesmos. De ritmo frenético e harmonia notável, a faixa, que dá nome ao álbum, é um tech-house-step com todo o esplendor e singularidade que somente esse produtor holandês poderia nos oferecer.

13. The Field – “Is This Power”
Um amante incansável da estética göttschingiana, Alex Willner nos presenteou este ano com um novo disco, ainda mais ousado e épico que os anteriores. Audições repetidas tiraram um pouco o fulgor do álbum, mas “Is This Power”, carro-chefe de Looping State of Mind, permaneceu como uma das forças musicais maiores de 2011: loop incessante, lógica estrutural do crescendo e linha de baixo imponente. Quanto mais parece Manuel Göttsching (me refiro à segunda parte, quando ela acalma e, em seguida, o sintetizador volta a crescer), melhor fica.

14. Pinch & Shackleton – “Torn and Submerged”
A ideia era não colocar nenhuma faixa deste álbum colaborativo e homônimo, porque ele certamente entrará na lista de discos, mas “Torn and Submerged” foi uma das músicas que mais me encantou neste ano de 2011. Com sintetizador soturno e assustador, ela começa bem devagar, experimenta com ritmos e timbres de batida diferentes até se tornar, de fato, um dubstep, numa junção que distingue o que há de melhor em cada um dos produtores. No final, “Torn and Submerged” retorna ao seu princípio, como se nada tivesse acontecido. Mas o sentimento que fica ao ouvinte é o de uma revolução, que desestruturou todos os seus paradigmas.

15. Panda Bear – “Afterburner”
Uma das poucas canções inéditas de Tomboy, “Afterburner” reafirma todo o talento de Panda Bear para compor, arranjar e criar ritmos únicos. Como em suas melhores músicas, a melodia de “Afterburner” segue caminhos improváveis e tem desdobramentos complexos e inesperados, sendo acompanhada com o mesmo rigor pelas batidas, arranjos e harmonia. Mais uma para a coleção de pequenas obras-primas deste jovem compositor.

16. Peaking Lights – “All the Sun that Shines”
Uma verdadeira música de verão, “All the Sun…” é hipnotizante e possui raízes profundas no dub (o baixo, a guitarra abafada, a percussão, os efeitos etc). Lembrando o melhor do selo On-U Sound nos anos 80, “All the Sun…” busca elementos que vão além dessa estética, como o teclado psicodélico e as vozes e os solos de guitarra sessentistas (estes, por vezes, até krautrockianos). Uma música divertida e deleitosa, acima de tudo.

17. Pursuit Grooves – “Revolutionaries”
Com um dos riffs mais interessantes e alarmantes que se ouviu esse ano, “Revolutionaries” é marcante também por outras características suas: a batida, que parece desmembrada de todo o resto da música, o sintetizador que toca notas econômicas ao fundo e a performance sempre espetacular de Vanese Smith como cantora. Pursuit Grooves se confirma como um dos projetos mais singulares da música eletrônica contemporânea.

18. CoH – “War End War”
Sample de música soviética da época do regime comunista, guitarras processadas por cliques e batidas eletrônicas e um andamento que vai do mais lento possível ao mais rápido imaginável. Precisa dizer algo mais? Essa é “War End War”.

19. Metronomy – “The Look”
Para os amantes da música pop – e tão carentes de música pop de qualidade nos dias de hoje -, “The Look” surge como um objeto precioso. Relevando-se o vocal lugar-comum e a melodia, igualmente ordinária, resta a sequência harmônica do teclado, repetida à exaustão ao longo de toda a canção; cativante e encantadora, basta uma única audição para que fiquemos a assoviá-la pelo resto do dia. A produção, de extrema diligência, é cristalina e tem o cuidado de inserir, aos poucos, cada instrumento, de modo a nos envolver gradativamente com a sonoridade de “The Look”. Uma joia rara.

20. Hudson Mohawke – “Cbat”
Hudon Mohawke continua sua encruzilhada na desconstrução do hiphop e na busca por hibridismos musicais entre este e os muitos ritmos e estilos advindos da cena musical eletrônica de Londres. Com uma introdução épica e grandiosa, à sua altura, “Cbat” apresenta uma das melodias mais memoráveis do ano, que segue seu percurso em uma levada contagiante. Mais uma das inúmeras provas de contundência e consistência musicais de uma parcela considerável dos produtores contemporâneos de música eletrônica.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: