Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2011: Músicas – Marcus Martins

As essenciais:

Burial – “Street Halo”
“Street Halo” não exatamente inova na sonoridade de Burial. Ali está a assinatura que se tornou inconfundível. O que a torna especial é o senso de estrutura que o trabalho de nosso produtor desconhecido favorito ganhou. Talvez isso seja uma pequena influência das várias colaborações com Kieran Hebden ou apenas o amadurecimento de um dos principais nomes dos últimos dez anos.

Gang Gang Dance – “Glass Jar”
À primeira audição, Eye Contact pode parecer um disco inferior aos dois últimos álbuns do Gang Gang Dance. Ele soa desequilibrado. Mas tendo a acreditar que o motivo principal é que eles resolveram começar o disco com sua melhor faixa, e ela dura mais de onze minutos. Assim, apesar da excelência do disco, tudo o que vem depois, inclusive a excelente “Mindkilla”, soa como diminishing return.

Girls – “My Ma”
Observando as faixas que escolhi, fica evidente que gostei de muito pouca coisa ligada ao rock em 2011. Verdade que a limitação de 20 terminou por negligenciar muita coisa que eu acredito significativa, mas se eu tivesse que escolher uma única faixa, ela seria “My Ma”, que mesmo nem sendo a melhor do disco (essa seria “Alex”), é daquelas criações que nos acompanham de uma forma tão impactante que não tem como fugir. Escrevi aqui sobre o disco.

Peaking Lights – “All the Sun That Shines”
Em setembro deste ano eu andava pela praia de uma cidade afastada, era um momento especialmente ruim, do qual eu só teria plena consciência posteriormente. Acontece que durante tal caminhada eu escutava o disco do Peaking Lights e hoje em dia só consigo lembrar daquele momento com “All the Sun That Shines” tocando. Era um dia especialmente bonito, mas muita coisa parecia deslocada, incongruente. E é essa a ideia que a música do Peaking Lights me deixa. A de que alguém está inescapavelmente errado, mas ainda assim é lindo e necessário. Os elementos da canção não limitam seu resultado, mas a detonam.

Pete Swanson – “Misery Beat”
Man With Potential não é um disco de singles, muito pelo contrário, é coeso como um rochedo, mas a verdade é que eu poderia selecionar qualquer uma de suas faixas e também algumas de seu disco bônus, o Man With Garbage. “Misery Beat” é a faixa mais divulgada e uma excelente representante desse monumento aos escombros de uma balada de techno. Longa vida a Pete Swanson.

PJ Harvey – “The Words That Maketh Murder”
Depois de um disco tão excêntrico quanto White Chalk, eu não esperava por uma obra tão franca, contundente e luminosa. Não chega a ser uma reinvenção, mas o potencial incendiário de uma faixa como “The Words That Maketh Murder” não encontrou paralelo em lugar algum em 2011.

Kode9 & the Spaceape, “Love Is the Drug (feat. Cha Cha)”
Talvez pelo fato do disco ter sido lançado no início do ano, não entendo muito bem como o trabalho de Kode9 foi posto de lado, nas listas de melhores de ano, em favor de discos que são, no máximo, “legais”. Batida, linha de baixo, vocais, o encaixe de cada pecinha. Tudo em “Love Is the Drug” é generoso e vibrante.

Mo Kolours – “Drum Talking”
Mo Kolours chutou a porta para mostrar que a necessidade de categorias é algo tão estúpido quanto cultivar gêneros. “Drum Talking” é dubstep e é a memória africana de moleques africanos, é a música urbana destes, mas também é Madlib, J Dilla e Erykah Badu. É celebração e parece apenas o cartão de visitas desse nome promissor.

Regis – “Blood Witness”
Eu poderia levantar a tese que 2011 foi um grande ano para o techno, mas a verdade é que em boa parte ele apareceu camuflado ou desconstruído. O veterano Regis talvez tenha cunhado a sua mais ressonante concepção para 2011, e sem fechar os olhos para o que ocorria na periferia, ele reiterou com personalidade o que nomes de Jeff Mills a Villalobos e Shackleton vêm construindo.

Panda Bear – “Alsatian Darn”
O grande problema de Tomboy é ter sido precedido por Person Pitch e uma coisa é construir uma carreira revelante e criativa, outra coisa é corresponder a expectativas depois de uma proeza artística. Mas, como ele se acostumou a fazer no Animal Collective, sua ambição se confunde com sua curiosidade, e “Alsatian Darn” é menos uma resposta à necessidade de superar o disco anterior que uma profunda lição de como construir e produzir uma faixa sem perder a espontaneidade.

Outros destaques:

Azealia Banks: “212”
Ouvi “212” há pouco tempo e posso dizer que é a melhor bobagem de 2011, pop grudento e infeccioso aliado ao absurdo carisma de Azealia Banks. Traz uma brisa tão fresca que podemos vislumbrar um 2012 com alguma alternativa às divas emotivas e ao euro-trash travestido de transgressão. A voz doce, o flow suave mas preciso, a produção ordinária mas esperta. Uma delícia.

Björk – “Crystalline (Omar Souleyman Version)”
Björk parece em um beco sem saída. A cada disco sua produção soa menos relevante e a atenção que ela ainda recebe parece mais fruto do circo midiático que se formou a sua volta, de sua habilidade com a própria promoção e, claro, com a sólida carreira que a sustenta. Seu último disco é repleto de boa ideias, requentadas ou mal cozidas, e essa releitura para “Crystalline” é extraordinariamente bem sucedida quase que por acaso. Observada friamente, a faixa está longe da precisão de produção dos grandes discos de Björk, mesmo se pensarmos em Médulla. De início poderíamos pensar em um mashup insólito, mas a cada segundo que passa o impacto da colisão desses dois enormes artistas supera qualquer expectativa e nos faz ignorar todo o contexto de aplicativos para produtos eletrônicos e ficarmos apenas com a beleza atemporal da música.

Death Grips – “Lord of the Game”
Em um ano de hip-hop publicitário, é bom que alguém faça barulho apenas pela música. E que barulho. Os caras do Death Grips gritam bem alto para que não exista dúvida de que você não ouviu bem. Talvez isso até prejudique o disco. Em dado momento perdemos muito por não conseguir acompanhar o volume, mas algumas faixas se sobressaem e “Lord of the Game” reúne diversas qualidades como a contundência, que é marca, aliada à capacidade de fazer dançar que dá um fôlego especial à audição.

Dro Carey – “Glitter Variables”
Dro Carey ainda padece de identidade. Cada um de seus EPs sugere um artista diferente. Até mesmo chamar sua música de dubstep ou “bass music” é arriscado. “Glitter Variables” não é a melhor música de Venus Knock; é provavelmente a mais estranha e me fez pensar nos cientistas das batidas que emergiram no selo Warp nos anos 90. Para mim o elogio não é pouco. Basta saber se Dro Carey vai investir no estranhamento ou vai ser mais um a dar uma guinada ao r&b ou ao pancadão e morrer no meio do caminho. Enquanto isso “Glitter Variables” é um susto.

Martyn – “Popgun”
Sobre esta eu escrevi aqui: Ouçamos “Popgun”, a precisão de suas batidas, o lindo uso do Roland TR-808, o groove, a inserção de cada loop vocal… Você precisa de muita força para não se deixar levar pela cadência envolvente.

FaltyDL – “Gospel Of Opal (ft. Anneka)”
FaltyDL talvez tenha sido um dos únicos produtores da cena londrina a conseguir transitar do r&b ao dubstep e voltar sem destruir ambos os elementos. Ah, e ele conta em “Gospel Of Opal” com Anneka oferecendo um dos melhores vocais femininos de 2011.

Africa Hitech – “Do U Really Wanna Fight”
Porque alguém tinha que domar os batidões em 2011. Ah, e lembrar que a Warp ainda existe.

Shabazz Palaces – “Swerve… The Reeping of All That Is Worthwhile (Noir Not Withstanding)”
Parece meio injusto que o Shabazz Palaces tenha esgotado em uma única música o que multimilionários que devem ter torrado fortunas em samples não conseguiram. Tá, o jogo do Shabazz Palaces é outro e apenas tentar seguir o raciocínio de Ishmael Butler já é um desafio. E o que importa é que a música consegue fechar um disco fabuloso com talvez seu ponto mais alto.

Terror Danjah “You Make Me Feel
O Destiny’s Child voltou? Timbaland reencontrou seu groove? Não suspeitava que o Terror Danjah tinha uma faixa dessas para nos presentear.

Wiley – “Numbers in Action
Haters gonna hate. E na verdade eu acho que o Wiley só melhorou em sua encarnação mais vagabunda, e quanto mais ordinária a música, ele soa melhor. Atenção para outra pepita que é “It’s Wiley” e seu excelente riddim.

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