Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2011: Discos – Thiago Filardi

Os dez primeiros em ordem de preferência:

1. Romulo Fróes – Um Labirinto em Cada Pé (YB)
Quando Dona Inah começa a cantar, a capella, em “Olhos da Cara”, faixa que abre Um Labirinto em Cada Pé, a primeira coisa que vem à minha memória é a participação de Clementina de Jesus em Milagre dos Peixes, disco de 1973 de Milton Nascimento. Uma lembrança sem resquício de nostalgia – sentimento esse que tem pontuado grande parte da produção musical contemporânea –, mas de pura referência. O passo dado por Romulo nesse álbum é praticamente o mesmo de Milton em Milagre: já atingida a maturidade e já comprovada a qualidade do artista, é o momento de experimentar e evoluir esteticamente. Cada faixa de Um Labirinto em Cada Pé é um olhar para o futuro (e muito para o presente também, deve-se notar) da música brasileira, assim como uma contraposição ao imperativo que se estabeleceu na sonoridade dos artistas contemporâneos da “MPB”. Aqui os registros do canto são graves, o cavaquinho é inserido pra criar dissonâncias e as letras falam do amor de forma escrachada. As canções, de melodias e harmonias simples – porém extremamente consistentes –, são incrementadas com uma produção que busca realçar cada mínimo ruído e que dá ao conjunto dos instrumentos uma sonoridade bastante particular. Ainda estamos em 2011, mas Um Labirinto em Cada Pé já soa como um clássico.

2. Ricardo Villalobos / Max Loderbauer – Re: ECM (ECM)
Em meio a tantas reprises e releituras na música dessa nova década, Ricardo Villalobos e Max Loderbauer foram um pouquinho além: garimparam o catálogo da gravadora ECM, conhecida por seus discos eruditos e cerebrais, selecionaram trechos de faixas desconhecidas e, praticamente, as recompuseram. A lógica é a mesma do remix, no entanto, o resultado de Re: ECM é único e espantoso, ainda mais para Ricardo Villalobos, DJ e produtor chileno de techno: tudo soa tão novo e tão orgânico que é como se eles tivessem, de fato, composto todo o material (o que, em parte, é verdadeiro). Pois como definir a melodia quase anciã de “Recat”? E como pudemos viver tanto tempo sem ela ou sem tantos dos momentos musicais descobertos, recobertos e re-contextualizados por Villalobos e Loderbauer? Re: ECM é belo, épico e absurdo (tanto em seu conceito quanto em sua magnitude).

3. Andy Stott – Passed Me By (Modern Love)
A sonoridade saturada, que tem caracterizado a música eletrônica produzida no Reino Unido, foi explorada ao limite por Andy Stott em Passed Me By. O baixo é tão grave e estourado que quase já não é um grave; a paisagem sonora é tão espessa que já deixa de ser pano de fundo e se torna uma camada de puro ruído; o dub, já não é soturno, mas cavernoso e apocalíptico; a batida ainda é o 4/4 do techno, mas, por momentos, está tão atrás de tudo que esquecemos de termos genéricos e rótulos. Neste álbum, Stott também utiliza padrões rítmicos e melódicos retirados de samples de vozes – outro coqueluche dos produtores atuais – e os utiliza magistralmente, dando, até, uma identificação pop às faixas. Com todas essas qualidades, Passed Me By pode ser visto como um trabalho de transição para Stott e para o próprio mundo, que está prestes a entrar no tão temido 2012.

4. Gal Costa – Recanto (Universal)
Poderíamos imaginar que algum dia teríamos um disco feito no Brasil em total sintonia ao que acontece de mais radical na música internacional e que, concomitantemente, ele teria suas raízes mais profundas fincadas em nossa cultura e sociedade? E que, além disso, ele ressuscitaria uma das maiores cantoras de nossa história? Em Recanto, Gal, depois de muitos anos (talvez décadas), reencontra com seu canto verdadeiro – aquele que ela nunca deveria ter abandonado ou deixado escapar –, proporcionado por seu “descobridor” e guru musical no início de carreira, Caetano Veloso. Com bases eletrônicas que se assemelham a de James Blake e participações de artistas inovadores de nossa música, como Kassin, Domenico, Duplexx e Rabotnik, Recanto é uma transformação estética impressionante tanto para Gal quanto para Veloso, que deixa sua impressão digital em todas as canções – belas e atualíssimas, como sempre.

5. Oneohtrix Point Never – Replica (Software)
Em um ano marcado pela retromania e pelas recriações musicais de todos os tipos, nada mais natural que três dos discos mais representativos de 2011 comecem com “re”. O título deste álbum, porém, pode nos dar uma idéia sub-reptícia do que é, na verdade, seu conteúdo; pois, de réplica, há somente os trechos sonoros que Daniel Lopatin selecionou para transformar em loops. Desse modo, houve uma grande evolução em sua obra, haja vista que seus discos anteriores possuíam uma sonoridade de formas e timbres demasiadamente calcados no passado e na estrutura da canção. O material bruto de Replica ainda dialoga com o passado (Lopatin usou sons de comerciais de anos 80 e 90) e seu resultado não escapa do viés nostálgico, mas a maneira como ele justapõe os samples e os repete, alternadamente, à exaustão, criando choques timbrísticos e uma estrutura esquemática de pausas, é algo sem precedentes e que leva a música ocidental ao seu extremo. Lopatin também é dotado de um senso harmônico e ambientador que poucos músicos têm. Nesse momento, em que o futuro do mundo é tão certo quanto incerto e o passado tão vivo, Replica soa, simultaneamente, como o som de todos os tempos.

6. Anne-James Chaton – Évenements 09 (Raster-noton)
O conceito de Évenements 09 é fascinante e estapafúrdio: Anne-James Chaton narra alguns dos acontecimentos mais importantes do ano de 2009, como a posse de Barack Obama e as mortes de Michael Jackson e Pina Bausch, e os transforma em loops, de modo que a organização destes produza batidas em decorrência da pronúncia de consoantes fortes das palavras, como o “p”, o “b”, o “d” e o “t”. O resultado musical, que vira uma confusão de loops, batidas e palavras, é impressionante e nos deixa em completo estado de transe. Por mais que sua fonte sonora advenha do passado, Évenements 09 é um projeto inovador e único.

7. Meredith Monk – Songs of Ascension (ECM)
Baseado em quinze salmos cantados por peregrinos que rumam ao topo de Jerusalém, Songs of Ascension também pode ser considerada uma obra de recriação, já que suas músicas foram desenvolvidas a partir de temas religiosos. No entanto, há pouco de réplica e muito de originalidade neste álbum da cantora peruana Meredith Monk, que detém uma das vozes mais distintas de todos os tempos. Trata-se de um trabalho de música erudita, cujas canções, de beleza ímpar, soam atemporais.

8. Machinedrum – Room(s) (Planet Mu)
2011 foi um ano assinalado pela presença massiva do R&B em quase todos os gêneros musicais (especialmente o pop, hip hop e a eletrônica). A tentativa em modernizá-lo e hibridizá-lo a outros gêneros, através de samples, apropriações, inserções e mutações, não me pareceu muito convincente, mas se houve um produtor que soube conjugar ritmos com perfeição – incluindo o próprio R&B – este foi Travis Stewart, detentor dos projetos Machinedrum e Sepalcure. Há um pouco de tudo aqui: dubstep, garage, drum ‘n’ bass, techno, funky, R&B etc. De ritmo frenético e incansável, Room(s) também consegue a proeza de ter várias faixas marcantes num álbum de coesão absurda.

9. Chris Watson – El tren fantasma (Touch)
Em mais um exemplo de como a música pode beber do passado sem soar anacrônica ou retrógrada, o ex-membro do Cabaret Voltaire e atual gravador de sons concretos, Chris Watson, fez referência a Pierre Schaeffer e utilizou sons capturados há mais de dez anos em um trem e em uma linha ferroviária que deixaram de existir, para nos levar a uma jornada fantasmagórica e cinematográfica. Inusitado como Anne-James Chaton – porém em outro registro –, ele cria batidas através de colagens ou do próprio som natural da locomotiva, em um universo textural denso e hipnotizante.

10. Cut Hands – Afro Noise I (Susan Lawly)
Se o tempo é capaz de amaciar a proposta de muitos artistas, esse não é o caso de William Bennett, que, em seu novo projeto, o Cut Hands, se mostra tão visceral e afrontador quanto no mítico Whitehouse. Cada vez mais embrenhado em músicas advindas do Haiti e do oeste africano, a sonoridade do Cut Hands é dominada por barulhos (na maior parte das vezes, drones) e percussões selvagens, as quais não somos capazes sequer de definir o compasso. Nesse ponto, Bennett faz algo completamente radical em relação à produção ocidental contemporânea, ainda muito dominada pelo compasso quaternário. O pop, ou qualquer forma de estrutura aprisionadora da música, passou longe de Afro Noise I.

O restante, em ordem alfabética:

2562 – Fever (When in Doubt)
Dave Huismans, o produtor holandês por trás do 2562, foi o responsável por dois dos discos mais consistentes e criativos do dubstep: Aerial, de 2008, e Unbalance, de 2009. Em Fever, ele nos presenteia com algumas das batidas mais inventivas da música eletrônica contemporânea, que foram realizadas por meio de um processo interessante e inédito para o produtor: os samples de faixas retiradas de gravações da disco music e a criação de grooves a partir das mesmas. O resultado, que peca somente pela falta coesão, destoa de quase tudo o que tem sido feito no dubstep e suas adjajências, e, por isso mesmo, encanta, com seu frescor e inventividade.

The Caretaker – An Empty Bliss Beyond This World (History Always Favours the Winners)
Ao criar o moniker The Caretaker, no final dos anos 90, o inglês Jim Kirby nunca poderia imaginar que seria um dos pioneiros de toda a onda retrô que vem tomando conta da música desde o início da década passada. An Empty Bliss é mais uma saga do haunted ballroom do Caretaker, que utiliza samples de discos do período entreguerras, os aplica loops e reforça o chiado natural das antigas gravações. O procedimento, embora já conhecido, continua a enlevar por sua atmosfera única e melodias belíssimas.

Kassin – Sonhando Devagar (Coqueiro Verde)
Após o fim (ou hiato) do +2, todos os seus três membros nos agraciaram com trabalhos louváveis em 2011: Domenico e seu Cine Privê, Moreno Veloso e sua produção, ao lado de Caetano, no disco de Gal, e Sonhando Devagar, de Kassin. O carioca, um dos produtores mais requisitados dos últimos tempos, no Brasil, alcançou uma síntese musical perfeita em sua estreia solo. Partindo da concepção de que todas as letras deveriam ser baseadas em sonhos do próprio autor, ele descreveu cenas bizarras e delirantes, respaldadas por canções fortes e um instrumental afinadíssimo.

Lou Reed & Metallica – Lulu (Warner)
A exemplo de Metal Machine Music e The Raven, discos que sofreram críticas virulentas às suas épocas – o primeiro, no entanto, reconhecido por Lester Bangs, foi tido, posteriormente, como um dos precursores do noise e uma obra de alta qualidade textural –, Lulu já nasceu como um projeto amaldiçoado e foi duramente rechaçado por críticos de todo o mundo. Levando em conta que Lou Reed já havia colaborado com o Kiss no projeto Music from the Elder, no início dos anos 80, a parceria com o Metallica não chega a ser essa tamanha surpresa. Embora ambos tenham tido papeis antagônicos na evolução linguística do rock, a junção se mostrou efetiva e realçou o que há de melhor em cada um dos lados: a força poética de Reed e a intensidade sônica do Metallica. Como há muito tempo não ouvíamos, Lulu é uma obra de força lírica, com letras belíssimas, baseadas em peças de Frank Wedekind, e peso sonoro. O fato de ser mal compreendido e refutado cegamente apenas confirma a impotência do rock nos dias de hoje, que, quando feito com qualidade e o vigor que lhe é característico, não recebe a consideração devida daqueles que se dizem seus especialistas.

PJ Harvey – Let England Shake (Island)
Depois de White Chalk, lançado em 2007, já era esperado que PJ Harvey continuasse a enveredar por caminhos estranhos e altamente introspectivos, tamanho foi o pulo dado entre este e o disco antecessor, Uh Huh Her, de 2004. Portanto, Let England Shake foi uma evolução natural em sua carreira. O álbum contou com o ex-Bad Seed, Mick Harvey, com quem ela não trabalhava desde Stories from the City, Stories from the Sea, de 2000, e que, certamente, teve papel fundamental no acabamento das canções e dos arranjos. Neste LP, ela também faz uso inédito em sua obra de samples. O tema principal é a Inglaterra – um dos pólos maiores de crise financeira e revolta juvenil m 2011 – e sua relação agridoce com o país. Nenhum disco soou tão coerente e necessário este ano como Let England Shake.

Radiohead – The King of Limbs (XL)
Kid A e Amnesiac foram os álbuns que trouxeram uma renovação estética brutal à sonoridade do Radiohead e os puseram no centro tanto da música pop quanto da experimental. Ao assimilar a sonoridade warpiana de década de 90, de Aphex Twin, Squarepusher e Autechre, eles moviam para direções radicais e que equacionavam o rock e a eletrônica de uma maneira nunca vista antes. O álbuns seguintes, Hail to the Thief, de 2003, e In Rainbows, 2007, serviram para consolidar essa sonoridade, assim como experimentar com novos ritmos e texturas. Pois esta experimentação é o fio condutor de The King of Limbs, no qual se mostra evidente a influência sentida por Thom Yorke após colaborações com algumas das mentes mais criativas e inovadoras da música contemporânea, como Burial, Four Tet e Flying Lotus. A segunda metade do LP pode não manter o mesmo nível da primeira – completamente arrebatadora –, contudo The King of Limbs se legitima como (mais) um trabalho ousado e transgressor desta que é a maior banda de nossos tempos.

Rustie – Glass Swords (Warp)
A saturação de sintetizadores e a megalomania de produtores de música eletrônica atingiram seu ápice em 2011. Exemplo maior é Rustie, que, desde 2008, despontava como uma das grandes revelações do pós-dubstep, com uma sonoridade que misturava os elementos principais do dubstep e do grime ao hip hop. Em Glass Swords, seu esperado LP de estreia, o jovem produtor escocês, deu um passo gigantesco e fez uma obra épica, composta por faixas que passam por constantes modificações melódicas e rítmicas, a ponto de serem chamadas de prog-step. O R&B também está manifesto nos samples de voz, que sofrem intervenções de pitch e são postos a uma altura infantil de tão aguda.

Tim Hecker – Ravedeath, 1972 (Kranky)
Apesar de, a cada novo trabalho, Tim Hecker aparente estar fazendo mais do mesmo, sua sonoridade se mantém como uma das mais identificáveis na música eletrônica: profunda, bela (sem soar emocional) e na qual mal podemos distinguir o que é melodia e o que é ruído, tamanha é a destreza com a qual ele manipula seus sons. Ravedeath, 1972 é mais um disco de paisagens infinitas para nos dissiparmos até o próximo lançamento deste grande artista.

Vladislav Delay – Vantaa (Raster-noton)
Sasu Ripatti permanence como uma das figuras mais prolíficas da cena experimental e eletrônica. Apenas em 2011 (me apoiando na memória), ele lançou quatro discos: este, um pelo Vladislav Delay Quartet, outro pelo projeto Luomo e o último com o Moritz Von Oswald Trio. Embora todos sejam interessantíssimos e dignos de nota, destaco Vantaa pelas batidas, texturas, atmosfera peculiar tão característica dos discos do Vladislav Delay e a indefinibilidade de sua sonoridade, que remonta ao seu antigo selo Mille Plateaux, e, mesmo assim, somente por afinidades estéticas. O que pretende Sasu Ripatti com lançamentos tão diferentes e especiais, não podemos definir, mas ele é, certamente, um dos grandes nomes da música contemporânea, cujos passos futuros são, deliciosamente, uma incógnita.

Zomby – Dedication (4AD)
Diferentemente de seu LP de estreia, Where Were U in ’92?, de 2008, calcado na sonoridade jungle e hardcore do início dos anos 90, Dedication é um disco que dialoga com o presente e o futuro da música eletrônica. Aqui, o enigmático e polivalente produtor britânico, Zomby, nos oferece um caleidoscópio de batidas e barulhinhos 8-bit, que fazem de Dedication um álbum altamente eclético e surpreendente – com direito até a uma participação de Panda Bear.

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