Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2011: Discos – Arthur Tuoto

Meus dez discos fundamentais de 2011:

PJ Harvey – Let England Shake (Island)
O pecado mais fácil de se cometer ao criar um trabalho de arte político é soar panfletário, ou mesmo apelativo e melodramático. Let England Shake é de um equilíbrio tão poderoso que só alguém da maturidade musical de PJ Harvey para conceber tal prole. Suas imagens de guerra, suas narrativas íntimas, suas questões sobre uma certa identidade inglesa, e por aí vai, são mapeadas ao longo das faixas com um tino poético raro, sem nunca soar passivo e nem exatamente rebelde. Reflexivo em um sentido quase épico, pouco alçado por qualquer gênero de artista.

Shabazz Palaces – Black Up (Sub Pop)
Jazz, drum and bass, soul, hip-hop? O universo de Black Up é de um misticismo musical tão hermético quanto orgânico. Se o gênero em si, no caso o hip-hop, busca cada vez mais pela fórmula perfeita do hit easy listening, o duo formado por Ishmael Butler e Tendai Maraire caminha em direção oposta. Ainda que, por outro lado, esse mesmo gênero seja também conhecido por suas apropriações cada vez mais inusitadas, colagens experimentais e outras peripécias. Black Up é uma dessas pérolas. Mais do que isso, o disco parece que apenas parte de um gênero estabelecido (ou gêneros…) para nos levar a abismos cada vez mais distantes e sombrios, musicalmente inéditos e sempre arrebatadores.

Maria Minerva – Cabaret Cixous (Not Not Fun)
It’s Britney, bitch. Foi o que ela postou dia desses no facebook. Cabaret Cixous, mais do que um disco que desafia nossa noção de gênero, é a perfeita alquimia entre o imaginário pop da diva submissa passional (“it’s Britney”) e os flertes feministas que chegam para subverter essa mesma lógica. Um disco político não tanto em sua temática, que nada tem de explícita, mas em sua brincadeira de embaralhar referências  do pop de gancho mais cheesy a possibilidades atmosféricas, e de uma musicalidade precária que esconde pequenos universos em cada detrito particular.

Panda Bear – Tomboy (Paw Tracks)
Se Person Pitch foi o ápice da busca criativa de Noah Lennox, Tomboy é a feliz e aguardada continuação dessa estética. O arsenal melódico ainda continua vigoroso e seu talento, digamos, brianwilsoniano, para brincar, sobrepor e manejar todas as possibilidades psicodélicas e outros incidentes harmônicos em questão, é cada vez mais inspirador. A maneira com que Lennox pontua seus samples e looping, seu vocal carregado e aéreo, são marcas cada vez mais distintas em uma carreira que anda encontrando equilíbrio e maturidade de qualidades míticas.

Anne-James Chaton – Événements 09 (Raster-Noton)
Os procedimentos vocais de Anne-James Chaton em Événements 09 não lidam só com o que chamamos de música, mas nos apresentam todo um novo padrão sonoro, mediado por palavras cotidianas, manchetes simbólicas e outros dados informativos até banais. A meticulosidade com que Chaton trabalha sua voz, em uma espécie de recital mecânico, cria toda uma gramática da sobreposição e da repetição, altamente curiosa e de audição obrigatória para qualquer interessado no poder modificador e poético do som, seja a música ou demais possibilidades.

The Caretaker – An Empty Bliss Beyond This World (History Always Favours the Winners)
A apropriação é uma modalidade tão possibilitadora quanto arriscada, e me parece que os artistas que melhor sabem isolar seu material alvo, e com isso introduzir seus interesses e outras referências pessoais já muito bem resolvidas, são os mais felizes. An Empty Bliss Beyond This World é um desses casos, em que o escultor de detritos James Leyland Kirby parte de discos de 78rpm, das mais variadas gravações, para sentenciar sua sensorialidade material da memória. O resultado é um misto de tristeza enevoada e encantamento saudosista, uma sonoridade espectral de poder atmosférico e espacial que contagia tudo e todos ao seu redor.

Patten – GLAQJO XAACSSO (No Pain in Pop)
Difícil saber quando Patten é cerebral ou simplesmente emotivo. Um enigma à parte, GLAQJO XAACSSO é de uma variação de texturas e padrões tão misteriosos que fica difícil saber quando o produtor quer ser melódico ou conceitual. E isso é ótimo, porque a maneira com que Patten casa os dois conceitos, transformando uma simples variação de volumes em uma montanha russa sensorial, impressiona não só pelo seu caráter glitch-dance-estragadão, mas ainda dispõe de toda uma carga onírica que as faixas em sua totalidade nos apresentam, uma pequena dimensão com regras próprias e aventuras sonoras inusitadas, tocante em toda sua esquizofrenia ruidosa.

Peaking Lights – 936 (Not Not Fun)
Os subgraves melódicos, as linhas de baixo sedutoras, os vocais arrastados… e finalmente o shoegaze encontra um aliado contemporâneo à altura. Com elementos até bastante modestos, 936 faz tudo o que se tentou fazer na última década com a psicodelia lo-fi parecer retrocesso. O casal Aaron Coyes e Indra Dunis alia o melhor do pop chapado com projeções ruídosas e delays muito bem pontuais, fazendo com que uma faixa de sete minutos flua tranquilamente, ao mesmo tempo em que vislumbra possibilidades melódicas complexas e sempre inspiradoras.

Andy Stott – Passed Me By/We Stay Together (Modern Love)
Soterrado, residual, corrompido: a feliz hecatombe sombria do ano. Nesses dois lançamentos, o techno (ou o que quer que seja aquilo) de Andy Stott, parece ter atingido um nível pouco antes navegado. Em tempos de lançamentos cada vez mais desafiadores no cenário londrino, fica cada dia mais difícil apontar um destaque. Mas a maneira um tanto quanto particular com que Stott desdobra seus timbres soturnos, secos e enevoados, indo de referências que passeiam com traquilidade entre o dubstep, o house e o minimal techno, lhe garante um espaço mais que merecido no hall dos produtores do ano.

Machinedrum – Room(s) (Planet Mu)
Seria Room(s) um álbum de juke filtrado pela bass music? As batidas secas, a velocidade comovente, os vocais picotados… Travis Stewart não se preocupa em fazer uma mera releitura do gênero ou simplesmente em deixá-lo mais limpo, pois sabe que a força da sonoridade que nasceu nos guetos de Chicago vem justamente de seu tom áspero, frenético e cru. Ainda assim, muito da luminosidade e de uma certa melodia arrastada dos gêneros londrinos se faça igualmente presente. Mais do que se apropriar de gêneros, Stewart estuda suas operações parar criar uma sonoridade própria e de exímia regularidade em seu conceito de todo.

* # *

E outros dez indispensáveis, em ordem alfabética:

Black Pus – Primordial Pus (Load Records)
Um dos poucos discos do ano que compete com a anarquia musical de Exmilitary do Death Grips é essa pancada de Brian Chippendale. Se no disco do Death Grips ainda é possível reconhecer alguns timbres e mesmo synths um pouco mais definidos, aqui isso é praticamente impossível. A massa sonora de Primordial Pus, composta por resíduos, distorções e todo tipo de despejo sonoro, é tão homogênea em sua podridão agressiva que fica difícil apontar um ou outro elemento isolado. E o mais comovente aqui é perceber como todo esse caos ruidoso, querendo ou não, trabalha em prol de uma melodia, aterradora e hostil, mas ainda assim de qualidades extremas não menos sedutoras.

Death Grips – Exmilitary (Third Worlds)
I am the beast I worship. A descrença como temática e a anarquia como única possibilidade de fuga (ou mero mecanismo de linguagem?) parecem ser as principais bases do projeto Death Grips, liderado pelo prolífico Zach Hill. Com uma estética que alia o discurso agressivo do punk, a métrica marcante do hip-hop, a sonoridade violenta do industrial e do hardcore, além de outras referências igualmente extremas, Exmilitary abraça o gênero do hip-hop experimental sem exatamente se limitar apenas a uma temática polêmica, mas manejando de fato experiências sonoras complexas e definindo limites cada vez mais distantes e possibilitadores para o gênero.

FaltyDL – You Stand Uncertain (Planet Mu)
Quem consegue definir Drew Lustman? O carnaval piromaníaco que é You Stand Uncertain impossibilita ainda mais restringir o nova-iorquino a um único gênero, ou até  a uma certa sonoridade em particular. Esse passeio é tão intenso que até em uma única faixa é possível reconhecer flertes mais complexos, seja em sua variação de percussão, timbres ou frequências (algumas até bem estouradas e indigestas), como também vulnerabilidades melódicas e facinhas. É principalmente nessa mistura muito bem moldada que repousa a grande força propulsora do disco.

Girls – Father, Son, Holy Ghost (True Panther Sounds)
Christopher Owens e sua cultura afetiva-musical fazem desse trabalho do Girls um caleidoscópio pop dos mais sedutores. Assim como Tyler, o garoto Owens faz de seus recalques sua arte, como já denunciava “Lust for Life” em sua estreia. Porém, o que no rapper é quase uma vingança pessoal, no rockeiro é uma melancolia que fica entre o festivo e o legítimo, e utilizo ambos os termos no melhor sentido que essas palavras possam ter. Indo do pop careta a experimentações minimalistas e acústicas, Father, Son, Holy Ghost é todo um relicário frágil, que guarda não só os segredos afetivos de Owens, como também os devidos e propícios caminhos musicais para se chegar aos mesmos.

Nicolas Jaar – Space Is Only Noise (Circus Company)
Nicolas Jaar começou a compor Space Is Only Noise quando tinha 17 anos e terminou quando fez 20. Não exatamente um espasmo genial de um menino prodígio, apenas a maturidade de 3 anos que a obra pediu. Toda essa ‘gestação adolescente’ reflete na essência de um disco que ao mesmo tempo que é bastante detalhista em seu artesanato do sample, denuncia também a simples e legítima busca de um artista jovem por uma sonoridade própria. Ainda que partindo de estruturas reconhecíveis, em especial do techno, e mesmo pinceladas que remetem ao IDM, a economia suave de Jaar encontra uma potência particular em um disco de canções curtas de um ritmo que não é exatamente dançante e nem exatamente áspero, mas um meio-termo enigmático que só atiça mais nossos ouvidos.

Oneohtrix Point Never – Replica (Software)
A fantasia em destroços de Daniel Lopatin. Ou uma bricolagem tão melancólica quanto lúdica, um pesadelo em loops fragmentados e movimentos inesperados. Muito se disse sobre a qualidade “cinematográfica” desse disco, e é curioso como sempre recorremos a adjetivos cada vez mais visuais para definir o universo da música, prova de sua capacidade imaginativa e de outras incitações plásticas. Replica é mais uma constelação desse universo, sendo cada faixa um novo capítulo muito bem definido dessa outra dimensão, que não se constrói exatamente como cópia fiel, mas antes um espelho visual-sonoro subjetivo a cargo de cada ouvinte.

Pete Swanson – Man With Potential (Type)
Depois do término do Yellow Swans, Pete Swanson parece sedento por novas experimentações. Esse ano isso ficou mais do que claro com suas guitarras caóticas em I Don’t Rock At All, como também nesse seu techno putrefato de Man with Potential. O que mais chama a atenção nesses últimos trabalhos, especialmente em Man With Potential, é o caráter quase dançante, um movimento de força sub-melódico das faixas, e que já dava lá seus flertes em Going Places, último trabalho do Yellow Swans. Todo o crescente, o caos industrial, a anarquia ruidosa enfim, parecem levar a uma fagulha musical especial, um noise que nasce com cara de pista e nos preenche em toda sua vitalidade detalhista.

Pinch & Shackleton – Pinch & Shackleton (Honest Jon’s)
Dois mitos contemporâneos em uma viagem espectral do que poderia ter sido (ou é?) o ápice de um gênero já quase indistinguível. O antídoto de uma crise iminente? Tétrico, detalhista e até dançante, o casamento entre o dancehall viajadão de Rob Ellis e o artesanato lúgubre de Sam Shackleton é de uma sonoridade inédita e vigorosa, ainda que bebendo de fontes de um passado recente.

The Field – Looping State of Mind (Kompakt)
Axel Willner é um maneirista? É teoricamente fácil destrinchar seu modus operandi: pequenos samples e outras células sonoras muito bem orquestradas em um padrão crescente e estimulante, por vezes hipnótico em suas repetições e variações. O caso é que Willner encontra tantos atalhos e novas dimensões a partir de uma mesma operação que fica impossível chamar de artifício. As faixas de Looping State of Mind partem, outra vez, dessa mesma técnica, mas o embarque é tão intenso, o caminho é tão bem lapidado, que logo nos primeiros minutos de cada faixa a entrega por parte do ouvinte é iminente, basta relaxar e apreciar a paisagem, que aliás só tende a melhorar no decorrer da jornada.

Tyler, the Creator – Goblin (XL)
Se a viagem psicótica de Bastard não foi exatamente suficiente para colocar Tyler no pódio do hip-hop contemporâneo, bastou uma faixa e um clipe igualmente esquizofrênicos para fazê-lo. “Yonkers” refaz todo aquele caminho psicanalítico tão comum ao estilo do rapper em seu debut, mas de uma forma mais compacta, rápida e, claro, sempre impactante. Goblin, o disco em si, já é mais complexo. Assim com Bastard, o álbum é costurado por essa sessão terapêutica com o tal Dr. TC, e Tyler usa desse ensejo para vomitar de forma agressiva, ofensiva e violenta todos os demônios do garoto de 19 anos que ele é. Uma metralhadora que não faz concessões, aliada a bases muito bem construídas dentro de sua temática sombria ainda que fanfarrona. Puro vigor e muitos recalques nesse recheio todo.

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