Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Melhores de 2011: Discos – Marcus Martins

1. Andy Stott – Passed Me By/We Stay Together (Modern Love)
Os imprecisos registros do Last.fm me informam que as músicas de Passed Me By e We Stay Together foram as que mais ouvi em 2011. Dentro de toda a riqueza musical calcada no sentimento de falência e desgraça iminente que assola o planeta, a versão de Andy Stott é peculiarmente bela porque, ainda que tudo pareça se encontrar em escombros, ainda é possível dançar. Mesmo que sua música aprofunde a sensação de alienação do que é exterior provocada pela maior parte da música eletrônica, existe um calor, uma política de afetos que consegue perpassar ambos os discos, seja pelo prazer em produzir música dessa magnitude, seja pela reinvenção do artista que aconteceu com Andy Stott, seja pelo fato de apesar de tudo desabar, a música ajuda a nos mantermos inteiros.

2. PJ Harvey – Let England Shake (Island)
Eu posso dizer que comecei a me interessar seriamente por música se forma tardia. Lembro de fugir de aulas para ficar com uma amiga que trabalhava em uma notável e pequena loja de discos “alternativos”. Foi ali e através dela que conheci muito artistas. Dessa época, dos nomes que ali conheci, Polly Jean Harvey talvez seja uma das únicas que continua em plena forma. E depois da quase reinvenção com White Chalk, a contundência de Let England Shake nos garante que acima de tudo, sua música é feita de sangue pulsante.

3. Peaking Lights – 936 (Not Not Fun)
Os últimos anos trouxeram um tipo de fetichização do lo-fi que deixa o mesmo movimento nos anos 90 parecer ingênuo. Da mesma forma a afetação dita hauntology, a obsessão por um estética que emula em música a (falta de) qualidade das fitas VHS, fizeram muito sucesso no circuito dos blogueiros indies. E o que o Peaking Lights tem com isso? Eles conseguiram usar elementos caros a tais ‘movimentos” e fazer uma música que parece antes de mais nada o fruto do desejo de expressar um sentimento específico e não de fazer um dub-dream-pop ou um lo-fi-reggae-jazzy… A doçura das canções nunca é fácil e, mesmo com faixam que ultrapassam os cinco minutos, diferentemente de outros bons grupos que surgiram nos últimos anos, eles não se deixam levar pela punheta instrumental.

4. Anne-James Chaton – Événements 09 (Raster-Noton)
Em 2011 tivemos belos discos que empregam com mestria a estética do clicks and cuts, que tem na edição dos sons um papel de protagonista. Nomes como Alva Noto, Vladislav Delay, AtomTM, Wolfgang Voigt, Cyclo e vários outros continuam a usar o procedimento de forma peculiar e enriquecedora, mas nenhum outro disco em 2011 conseguiu fazer o mesmo e soar tão novo e revelador. Se alguém me indicasse a audição de um disco de spoken poetry, provavelmente eu reagiria com uma gargalhada ou desviasse a conversa. Mas é isso mesmo que temos em Événements 09, a voz de límpida de Chaton usada em diversos canais, com pequenos trechos editados e manipulados para criar um hipnótico efeito percussivo. Événements 09 ainda pode ser tido como o único disco político relevante lançado em 2011. Tanto pela poesia de Chaton quanto pelo martelar de termos chaves como o sobrenome do presidente dos Estados Unidos da América quanto ‘Taliban’, ‘(The king of) Pop Is Dead’. O resultado é inquietante e único. Um disco que não se pode repetir. Ainda assim, a julgar por suas colaborações com Andy Moor, ainda veremos bastante da revelação maior de 2011.

5. Tim Hecker – Ravedeath, 1972 (Kranky)
Não há muito o que dizer de Ravedeath, 1972. Se você não admira o trabalho de Tim Hecker, não será este disco que mudará sua opinião. Dificilmente ele superará o monumento que ele construiu em Harmony In Ultraviolet, mas este disco certamente entra para o panteão de suas melhores investigações para encontrar o lirismo na destruição.

6. Leyland Kirby – Intrigue & Stuff Volumes 1, 2 & 3 (History Always Favours the Winners)
Intrigue & Stuff traz o que acredito ser a música mais rica da farta produção de Leyland Kirby em 2011. Pode ser menos coeso que Eager To Tear Apart The Stars e não tão belo quanto An Empty Bliss Beyond This World, mas é o conjunto onde ele mostra que não está completamente confortável no lugar que já alcançou e pretende continuar a nos assombrar com sua capacidade de tirar beleza da lenta dissolução da própria música.

7. Black Pus – Primordial Pus (Load)
Em 2011, nada foi mais agressivo, rico e inventivo que Primordial Pus, que parece uma virada da trajetória de Brian Chippendale ao criar um disco solo que soa muito mais interessante que Lightning Bolt , o seu projeto mais famoso. Da limitação espacial de um kit de bateria com todo tipo de parafernália acoplada, Chippendale nos mostrou que menos é demais e esse mais não tem limites. Meu texto sobre o disco está aqui.

8. Ekoplekz – Memowrekz (Mordant Music)
Ekoplekz é talvez o mais representativo alienígena de 2011. Isso talvez ajude a explicar a sua presença em poucas listas e balanços do ano. Da redução a atualizadores do Cabaret Voltaire (que ele soube anular ao vestir a influência e chamar o Richard H. Kirk para fazer uma remix em seu último EP) e do BBC Radiophonic Workshop, à necessidade de categorizar a música como noise ou qualquer outra coisa. Basta a música, o desafio e a riqueza da audição.

9. Pete Swanson – Man With Potential (Type)
No mundo em que Andy Stott foi rei, Pete Swanson tratou de pegar o mesmo techno e implodir. No mesmo universo em que o Black Dice tudo inventou, Pete Swanson tratou de fingir que fazia techno. Não é nem uma coisa nem outra, mas é o mais brilhante testamento do que vem sendo o trabalho deste produtor inquieto desde o fim do Yellow Swans.

10. Panda Bear – Tomboy (Paw Tracks)
Na impossibilidade (e também desinteresse) de repetir a proeza de Person Pitch, Noah Lennox resolveu expandir sua paleta sonora, jogou luz e abriu espaço em suas melodias. Mais uma vez ele comprova por que, tanto solo quanto em conjunto com o Animal Collective, ele domina um léxico musical que poucos ousam arriscar e, quanto mais próximo ele fica das estruturas tradicionais da canção, mais seus experimentos tendem a se destacar.

11. Kode9 and the Spaceape – Black Sun (Hyperdub)
Como foi dito no comentário das faixas do ano, o disco do Kode9 com Spaceape foi negligenciado de forma leviana, talvez por não render notícia, pela personalidade belicosa do Kode9, pela mistura do ataque sonoro de Kode9, o flow angustiante de Spaceape com seu discurso distópico e as melhores frequências de grave lançadas em 2011. A pressão é mantida do início ao fim do disco, tanto pela música densa, quanto pela inescapável voz de Spaceape que se encontra em sua melhor forma.

12. Alberich – Psychology of Love (Hospital Productions)
Psychology Of Love tem alguma semelhança com a sonoridade de Man With Potential, mas o primeiro pode ser considerado o melhor disco que Ian Dominick Fernow não fez em 2011, e olha que, se contados todos os discos que ele lançou sob o nome do Prurient, Vatican Shadow e outras alcunhas, a proeza não é pequena. Com este disco, Kris Lapke sai da condição de colaborador de Fernow, Kevin Drumm e outros, para tornar-se um nome relevante e que merece grande interesse por seus lançamentos. Escrevi sobre o disco aqui.

13. Maria Minerva – Cabaret Cixous (Not Not Fun)
Maria Minerva é a diva do pop lo-fi que não precisa parecer retardada para afetar doçura. No lugar de camuflar fórmulas desgastadas, um conhecimento invulgar daquilo que de melhor se produziu nas últimas décadas.

14. Container – LP (Spectrum Spools)
Nesse mesmo mundo de 2011 em que Andy Stott é rei, o Container é a versão alienada/alienante do príncipe bastardo. É o equivalente musical de descobrir algum prazer no confinamento e na privação de ar. A levada é rígida e o espectro é denso, mas ainda assim existe espaço para a vertigem da repetição que quase convida a dançar. O Container prescinde da diferença entre minimalismo e maximalismo.

15.The Field – Looping State Of Mind (Kompakt)
O disco pode ser ouvido como uma conciliação entre as sonoridades de From Here We Go Sublime e Yesterday and Today, ou melhor, ele corrigiu os erros do segundo disco e reencontrou a clarividência do primeiro.

16. Shabazz Palaces – Black Up (Sub Pop)
Acho que o maior mérito do disco é conseguir equilibrar a insularidade de suas escolhas com uma audição extremamente prazerosa. Se ficam longe da festividade dos hits, também não incorrem nos erros que derrubaram toda uma geração de experimentadores do hip-hop no início da década passada. A capacidade de distinguir o que é idiossincrático do que é obtuso marca Black Up como uma daquelas obras abrem possibilidades, que arejam o cenário.

17. Vladislav Delay Quartet – Vladislav Delay Quartet (Honest Jon’s)
É um disco de improviso que ouvimos como se fosse uma programação eletrônica. A fórmula encontrada após o surgimento do lindo Moritz Von Oswald Trio encontra aqui a fluidez que o Moritz tentou em sua última colaboração e ficou apenas próximo do anódino. Quando começávamos a acreditar que Delay partia para o declínio da repetição, este quarteto e o lançamento do solo Vantaa apenas nos garantem que este pioneiro continua na vanguarda.

18. Cut Hands – Afro Noise I (Susan Lawly)
Para conseguir ouvir todo o volume de música que acompanhamos durante o ano, muitas vezes precisamos lançar mão do expediente de usar os lançamentos como trilha sonora para todo tipo de atividade. Daí podemos decidir dar maior atenção ou reouvir o que nos chama atenção. Quando ouvi o disco do Cut Hands pela primeira vez, tive que parar o que estava fazendo e tentar fazer algum sentido daquilo (ou seja, tentar associar a coisas ouvidas anteriormente). Eu até conseguia desconstruir os elementos, fossem os ruídos ou a percussão “tribal”, mas a forma como aquele tecido musical foi construído era completamente inusitada e intrigante. Que o disco seja da lavra de William Bennett, do cultuado Whitehouse, e que o Cut Hands tenha nos proporcionado uma forma nova e particular de admirar seu trabalho é motivo de júbilo.

19. Bill Orcutt – How The Thing Sings (eMego)
Quem ainda tolera o bando de viúvas de John Fahey? Depois da morte de Derek Bailey e do beco-sem-saída criado por Jandek, como criar algo particular e relevante apenas acompanhado pela guitarra? A resposta eu não sei, mas lhe aconselho a ouvir Bill Orcutt. How The Thing Sings é de chorar.

20. Girls – Father, Son, Holy Ghost (True Panther Sounds)
Um dos poucos discos de 2011 para cantar junto, assoviar melodias, lembrar explicitamente de suas influências e ainda assim soar rico, fresco e vital.

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