Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Mark Van Hoen – The Revenant Diary (2011; eMego, Áustria [Reino Unido])

Mark Van Hoen é um compositor londrino de música eletrônica. Membro fundador do Seefeel, influente grupo da década 90 e que em 2008 voltou à ativa (sem a presença de Van Hoen), lançou também trabalhos sob os nomes Locust e Autocreation. Depois de 6 anos sem gravar nada, em 2010 Van Hoen lançou Where Is The Truth. The Revenant Diary é seu lançamento mais recente e o sexto de sua carreira solo sob o próprio nome, utilizando-se de um gravador 4-track e um arsenal de equipamentos bastante limitado, o disco dá continuidade a busca de Van Hoen por uma sonoridade eletrônica mais densa e melancólica.

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O princípio ativo de The Revenant Diary é a memória. Não só a memória autoral do próprio Mark Van Hoen, que partiu de composições próprias de 1982 (quando ainda era um adolescente) como auto referência para o presente trabalho, como também de uma espécie de materialidade do tempo, quase em um sentido próximo do nosso querido James Leyland Kirby, mas aqui catalisado por um imaginário pop espectral e levemente lúdico em suas evocações. As vozes do disco são como aparições, fantasmas que assombram uma dimensão pessoal um tanto quanto crua e melancólica. Um universo quase primitivo em seu gesto agregador, que em um primeiro momento pode soar apenas como alguém tentando remontar pedaços de um passado musical perdido, saudosista, uma infância sonora que só se permite fazer presente por sombras e timbres distantes, mas que gera, ao mesmo tempo, uma sonoridade extremamente contemporânea em sua economia bruta e esculturas atmosféricas de uma tristeza comovente. É como se Van Hoen, ao se apropriar de um 4-track bastante limitado, não estivesse interessado em exatamente revistar aquele mundo, mas bagunçar suas referências, partir daquilo para tatear novas ideias, construir um outro sentimento, universal, complexo, e não um sentimentalismo fácil e auto referenciado.

O resultado, ainda que de aparente fácil comparação com muito do que surgiu no lo-fi e mesmo na música eletrônica nos últimos anos, é bastante inclassificável. Seria até injusto comparar esse trabalho com toda a psicodelia festiva da música de qualidade instável que pipocou nos últimos tempos e demais peripécias da baixa fidelidade, ainda que, em alguns casos como “Look Into My Eyes”, o vocal de ares feminino soterrado lembra uma Maria Minerva e a percussão mística quase um Andy Stott em seus timbres africanos. Mas o caso é que o disco parece não se render a um gênero padrão, ou melhor, é uma espécie de obra chave do gênero, ou gêneros, que o próprio Van Hoen faz questão de bagunçar. Seja com suas intervenções eletrônicas que flertam com o glitch ou o IDM, “Don’t Look Back” e “Where Were You” mesclam bem batidas levemente dinâmicas nesse sentido com um vocal oceânico e assombroso, fora de padrão com o resto da música e por isso mesmo criando um terceiro significado todo especial. Ou ainda o drone de ordem corrompida de “Garabndl x”, espécie de noise melancólico e crepitante, que junta muito bem um som mecânico e industrial com picos emotivos.

O disco todo parece se fundar nesse duplo entre um pesadelo industrial e um sonho doce; um diário sonoro sem palavras, as faixas geralmente não tem letras, sendo que o vocal quase sempre repete seu título simbólico ou algum outro sussurro incompreensível. Van Hoen pincela muito bem um tom abstrato com os devidos ganchinhos melódicos, vozes distantes que tentam fazer algum contato e outras sonoridades de origem misteriosa. Ao mesmo tempo em que o disco encanta por toda sua melancolia sedutora, instiga por sua linguagem ágil e de excelência ímpar ao produzir elementos tão instigantes partindo de um arsenal bastante limitado mas que, como se faz provar, de matéria tocante. (Arthur Tuoto)

“Garabndl x” fez parte do Camarilha Podcast #69
Ouça aqui “Where Were You”

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The Revenant Diary vem chancelado por dois dados de grande prestígio, um deles o lançamento por um dos selos fundamentais de música audaciosa de nosso tempo, e outro, melhor ainda, o fabuloso trabalho gráfico de Stephen O’Malley (do Sunn O))), Khanate, Aethenor etc.) que é a capa do disco, capturando perfeitamente dois conceitos centrais ao que aqui faz Van Hoen, colagem e embaçamento. As onze composições de The Revenant Diary se inscrevem com alguma propriedade no veio recente de artistas que trabalham melodias fugidias, que ressurgem espectralmente como se fossem espíritos vindos de outro mundo. Como diferencial, há uma predileção por batidas que remetem à eletrônica downtempo dos anos 90, e o tom sombrio, junto com os loops de voz cheios de eco, até permitem pensar que Van Hoen ocupa uma espécie de meio caminho entre Clams Casino e Burial. Mas o alto nível não é uniforme ao longo do disco, e para cada belo momento (“Garabndl x”, “37/3d” e a incrivelmente bela “Holy Me”) há faixas com timbres batidos ou com ideias composicionais sem maior vigor (“Don’t Look Back”, “I Remember”, “Why Hide From Me”). A metade muito boa compensa com facilidade a metade mediana. (Ruy Gardnier)

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Um comentário em “Mark Van Hoen – The Revenant Diary (2011; eMego, Áustria [Reino Unido])

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Publicado às 4 de janeiro de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , , .
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