Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Oval – OvalDNA (2011; Shitkatapult, Alemanha)

Oval começou como um trio formado na Alemanha por Markus Popp, Sebastian Oschatz e Frank Metzger no começo dos anos 90. O projeto ficou rapidamente famoso  por seus métodos de composição, trabalhando a partir de defeitos de leitura de CDs e criando softwares para processar e criar a música, inaugurando aquilo que viria a ser chamado de música glitch. O primeiro disco éWohnton, de 1993, mas foi com os dois discos seguintes, Systemisch (1994) e 94diskont (1995), que o trio adquiriu reconhecimento. A partir do álbum Dok, de 1998, Oval passa a ser um projeto solo de Markus Popp. Em O, disco de 2010, o Oval reapareceu depois de sete anos sem atividade, com uma sonoridade radicalmente diferente, com sons acústicos processados eletronicamente. OvalDNA é um disco de material inédito gravado entre as duas décadas passadas e de material lançado em coletâneas ou edições especiais, em especial japonesas. O disco, que estava previsto originalmente para ser lançado antes de O, é uma edição dupla com um CD de 25 músicas e um DVD com o software OvalDNA e 2000 sons feitos pelo Oval livres para serem usados, sequenciados e manipulados por produtores, músicos e quem mais quiser, além de um documento em vídeo e dez faixas-bônus. (RG)

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Cada disco do Oval parece desconcertar não só por sua música, mas também por seu conceito. Antes o conceito abrangia tudo: o tipo de processo utilizado para conseguir os sons, para ordená-los, para apresentá-los. Agora que a música do Oval está mais, por assim dizer, composicional do que processual, seus discos seguem criando perturbação por seu modo de reunir as faixas. OvalDNA não é um disco de sobras, não é uma coletânea de material raro lançado em prensagens limitadas e tampouco uma compilação. É ao mesmo tempo os três e nenhum dos três. Ele captura horizontalmente e verticalmente o percurso de vinte anos de estrada e algumas radicais mudanças sonoras, embolando-as juntas na passagem de faixas para que se perceba a raiz comum a tudo (o tal “DNA” do título), mas ainda assim o faz a partir de material improvável, de faixas deixadas de lado e outras lançadas em títulos mais ou menos obscuros. Brota daí um estranho sentimento misto de familiaridade e estranhamento, e as delícias dessas 25 faixas são desfrutadas justamente pela partilha entre conhecido e desconhecido: nem tanto a partilha inédito/já lançado (que aliás bate na metade entre 12/13), e sim pela paleta de sons reconhecíveis, efeitos de assinatura (os glitches até hoje inigualados, o equilíbrio entre barulho e ambiência, os esguichos de cordas processadas de seu último trabalho), e pelas reorganizações insuspeitas a que eles são submetidos a cada faixa. OvalDNA é, pois, peça obrigatória para qualquer fã de Markus Popp ou de música eletrônica radical, mas também acaba sendo uma excelente porta de entrada curiosos sobre Oval ou sobre algumas das principais problemáticas e “solucionáticas” da música eletrônica dos últimos vinte anos.

Para aquele que segue com alguma fidelidade a carreira do Oval, esse novo disco é fundamental por duas razões, mas por uma maior entre todas: entender um pouco melhor o que se passou entre o começo dos anos 2000 e o lançamento de O. Em seu último disco, sons de cordas intensamente processados evoluíam sozinhos ou diante de sons de bateria acústica jazzy-intuitivas, dois tipos de registros até então anômalos ao Oval, para dizer o mínimo. Em OvalDNA, temos algumas faixas que funcionam como o elo perdido entre esse dois momentos, quando esses novos sons recentes ainda se conjugam com ruídos, batidas eletrônicas e camadas sonoras mais reconhecíveis como ovalianas. Em faixas como “Kasino”, “Australasia” ou “Alpen”, conseguimos vislumbrar retroativamente o processo de chegada dessas novas sonoridades e o processo de depuração que elas impeliram seu criador a realizar, à medida que pareciam pedir algo mais orgânico para soar mais vivas, urgentes. Não que nas faixas de OvalDNA em que velho e novo convivem algo pareça velho. Ao contrário, a conjugação de sons das faixas supracitadas é deslumbrante em termos de timbres, arranjos e singularidade de composição.

A outra grande razão para ouvir atentamente OvalDNA é sentir a coerência sonora desse tudo-ao-mesmo-tempo-agora incitado pela inclusão de material novo e material mais antigo. Há faixas que poderiam aparentemente estar em O (como “Heroic” ou “Mersey” ou a mais incisiva “Credit Line”), e outras que são típico Oval anos 90, em que uma sequenciação rítmica ultraveloz fornece cor musical à colagem sonora de ruídos e sons defeituosos (a quem interessar possa, a maioria das faixas já lançadas está em Pre/Commers ou Iso Fabric). O fato de elas serem organizadas em pequenos “bolsões” de faixas antigas ou novas mostra que as sonoridades são claramente distintas, mas ainda assim é possível sentir um mesmo ímpeto em pesquisar sons inauditos e utilizar estruturas excêntricas para organizar esses sons (um aspecto que o aproxima muito mais de um Faust do que de um Autechre ou Alva Noto). Entre a lixeira ultrarrobótica dos primeiros anos e o purista intuitivo revelado em O há, apesar de tudo, muitas semelhanças. Uma delas, fundamental (ainda que ocultada pela utilização do termo glitch como gênero), é o estilo único que parece agregar diversos registros mas jamais ser redutível a um sequer. Outra é a maneira como funciona a economia melodia/ruído, sem a dramaticidade de um Fennesz (embora eventualmente possa parecer, como em “Octaeder 2.0”) mas ainda assim com um amplo uso de contraste, fazendo certos timbres singelos  nunca soarem tão puros e ruídos incisivos, ritmados, preencherem o som, repelindo a audição frouxa. De ontem a hoje, persiste o mesmo espírito modernista que não se assenta sobre as honras passadas e permanece sempre investigando novas possibilidades sonoras de qualidade (timbre) e estrutura (organização). E, como último elogio, OvalDNA ainda vale por algumas preciosidades que não parecem sobras, mas simplesmente faixas que não cabiam muito bem nas propostas da época, como a já citada “Octaeder 2.0” ou “In + Love”, quase uma declaração de amor ao Autechre dos primeiros anos.

E para aqueles que ainda terão o DVD de bônus, OvalDNA ainda vale, pela generosidade de expor seu processo e permitir que novos artistas utilizem seu trabalho, como um tapa na cara desses ávidos detentores de extorsivos direitos autorais/de veiculação, essa SOPA insossa que deseja retirar do ouvinte seu poder criativo de interagir com ou divulgar suas obras de predileção. Além de gênio na arte, Markus Popp também é gênio na concepção de mundo… (Ruy Gardnier)

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OvalDNA é uma espécie de obra que se debruça não só sobre todo o universo musical que o projeto de Markus Popp vem criando, mas, acima de tudo, é quase um tratado sobre o gênero que o próprio Popp ajudou a fundar, no caso o glitch. Um possível “genoma musical” que além de servir como fonte para as faixas do disco (entre inéditas e material antigo), é também compartilhado com o público na forma de 2.000 arquivos AIFF sob domínio público. Um ato que quase atesta o gênero como um patrimônio histórico, bastante consciente de suas possibilidades contemporâneas no que diz respeito ao compartilhamento de dados e a liberdade autoral, e claro, ninguém melhor que um dos próprios idealizadores da sonoridade em questão para tal feito.

Se toda essa concepção musical hereditária denota tanto uma sonoridade mais cerebral e metódica, a exemplo dos primeiros lançamentos do projeto, como também flertes mais melódicos ainda que fragmentados, caso de O (2010), o disco que temos em mãos agora é uma feliz e arriscada viagem por todas essas constelações. E o que no começo de fato soa como uma bagunça ruidosa, acaba fluindo muito bem à medida que a sonoridade vai se mostrando familiar. O modo com que Popp mescla sons técnicos e outros timbres computacionais com samples acústicos e fagulhas do que reconhecemos mais facilmente como música, é de fato o grande mote do disco. Talvez o projeto tenha chegado no ponto em que o próprio glitch, no sentido de um erro informativo acidental ou não, possa ser moldado não só em formas quase melódicas, mas de fato musicalmente inéditas em suas cadências e inter-relações que não chegam a ser um ambient à Aphex Twin e nem um Merzbow extremo, ainda que as duas referências se façam presentes de alguma forma. Em “Tweakk”, por exemplo, um ruído grave e instável vai aos poucos sendo contaminado por uma percussãozinha tímida e quase infantil, além de outras variações de frequência e volume que acertam todo um tom melódico particular em um andamento que ameaça desmoronar a qualquer momento. Indo para um lado mais extremo, de flerte quase noise, “Savvy” é uma faixa áspera e confusa, como um rádio fora de sintonia que procura pela melodia mais estável.

Por fim, essa fronteira entre tecnologia e emoção, procedimento e intuição, concretismo e lirismo, sem exatamente criar um embate entre as duas coisas, mas misturando tais referências a ponto de gerar um terceiro e poderoso significado musical, é o que mais comove no trabalho do Oval. Um coleção de faixas que nos faz sentir prazer tanto por seu lado quase merzbowiano, como por suas sutilezas singelas muito bem plantadas; de fato um patrimônio cultural a ser celebrado tanto em sua originalidade, como em sua riqueza de referências e possíveis filiações, sejam passadas, presentes ou futuras. (Arthur Tuoto)

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Publicado às 19 de janeiro de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , .
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