Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

São Paulo Underground – Três Cabeças Loucuras (2011; Cuneiform, EUA [Brasil])

O São Paulo Underground começou a partir do encontro de Rob Mazurek, cornetista e manipulador de eletrônicos de Chicago (EUA) com Maurício Takara, baterista e percussionista paulista conhecido pelo M. Takara 3 e pelo Hurtmold, além de integrar outros projetos e colaborar com músicos (Joe Lally, Damo Suzuki, Naná Vasconcelos) em outros projetos. A estréia em disco aconteceu em 2006 com Sauna: Um, Dois, Três. Em Principle of Intrusive Relationships, lançado em 2008, eles adicionaram Guilherme Granado (percussão, eletrônicos) e Richard Ribeiro (bateria), parceiros de longa data de Takara, ao duo-base do grupo. O terceiro disco, Três Cabeças Loucuras, foi lançado nos EUA em dezembro de 2011 e repete a formação do disco anterior. Kiko Dinucci toca em oito das faixas, e em duas delas há participação de Matt Lux (baixo), Jason Adasiewicz (vibrafone) e John Herndon (bateria). (RG)

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A extrema versatilidade e a curiosidade musical sem fronteiras de Rob Mazurek, Maurício Takara e companhia nos acostumou a esperar sempre o inesperado, a variações imprevistas nos focos exploratórios. E aqui, mais uma vez, a ênfase é diferente, ela é… o jazz aliado aos ritmos folclóricos brasileiros, faixas com estruturas sólidas de temas, sensualidade doce das melodias e tudo o mais que estamos acostumados a esperar do antigo jazz. Mas a questão principal passa longe da ideia de reviver ou atualizar um certo nicho de composição instrumental brasileira, em especial a de Hermeto Pascoal e do núcleo de músicos que beberam de seu estilo. A tintura melódica e rítmica em Três Cabeças Loucuras tem Brasil pintado de cima a baixo, mas seria necessário um automatismo mental muito preguiçoso para atribuir tons nostálgicos a essa guinada do grupo. Primeiro, porque nada do que está lá soa inventariado, já visto/já testado, o que é a primeira característica da música museificada. Segundo, e talvez mais importante, convém notar que a grande maioria dos timbres que aparecem nesse terceiro disco já estava presente nos discos anteriores do grupo, apenas em modo mais solto em termos de estrutura. O que leva à óbvia conclusão de que trabalhar com estruturas mais regulares e com a sensualidade melódica e rítmica do instrumental brasileiro, que aqui substituem outros materiais “hot” (no sentido do hot jazz e em contraposição ao cool) já utilizados pelos instrumentistas (do rock ao jazz à batucada), é apenas uma nova forma de reancorar os sons que o grupo vem trabalhando há algum tempo. O resultado é vivo, urgente e pulsante de uma forma que nos desacostumamos a esperar seja na música instrumental brasileira, seja na americana.

No começo, são as melodias que dominam a atenção. E vê-se que o grupo estava absurdamente inspirado, porque há um bom punhado de faixas que ouvimos como se fossem standards instantâneos, em especial as ímpares do disco, “Jagoda’s Dream”, “Carambola”, “Just Lovin'” e “Six Six Eight”. São faixas de andamentos rápidos, dançantes, em que as melodias evoluem de forma graciosa e suingada, ganchuda porém não-impositiva (o que é fundamental para que as faixas entrem à deriva da improvisação e depois voltem sem prejuízo da atenção). Associe a essas melodias um trabalho percussivo que enche cada faixa de incrível pressão e detalhismo, terreno em que Takara, aqui com Richard Ribeiro, vem se especializando mais a cada trabalho. Guilherme Granado responde pelos sons eletrônicos menos convencionais, mas que mesmo dentro de um arranjo praticamente todo orgânico, não soam em nada laboratoriais nem forçadamente modernistas. Aliam-se, ao contrário, perfeitamente ao que as faixas pedem em variação e complementaridade. Se as ímpares são o aspecto mais festivo, exuberante e estruturado, as pares são mais introspectivas e fluidas, em que a força percussiva é substituída por divagações de instrumentos melódicos. Essa estruturação “ondulada” de Três Cabeças Loucuras fornece uma soberba fluência de audição e ajuda cada faixa a respirar com seu próprio fôlego.

“Carambola” talvez seja a faixa que sintetize as maiores preocupações e que melhor mostra o talento para resolver sonoramente os objetivos. Começa com um violão suingado e ligeiramente processado, até que a corneta de Mazurek soe as primeiras notas da melodia principal, radiante e lúdicas. Com um 1min20, Mazurek some e começa uma profusão de sons eletrônicos que se montam como uma improvisação coletiva em que o som enche, enche, enche até que a corneta volta cheia de eco, também parte da improvisação e longe da melodia. Segue um interlúdio lento até que, no meio minuto final, a melodia inicial volta com um sorriso de boca a boca. “Six Six Eight” é o outro grande destaque, com arranjo de corneta, vibrafone, contrabaixo e percussão. Aqui, a sempre presente sensualidade melódica convive com atmosferas ligeiramente tensas ‒ é de longe a faixa menos “brasileira” ‒, mas o que dá a grandeza da faixa é a energia e a coesão entre corneta, vibrafone e percussão, com todo o fogo que se espera de uma interação entre grandes músicos (cabe notar aqui a participação especial de Jason Adasiewicz no vibrafone e Matt Lux no baixo).

Em algum momento, justificadamente, o termo fusion significava tudo o que era evitável em jazz. Excesso de abusos entre pop e jazz, entre sons exóticos e groove aguado, e uma partilha malfeita entre ousadia e limpidez mauricinha. Três Cabeças Loucuras aparece como uma das melhores boas novas do jazz atual: é possível ainda fazer fusão em alto nível sem recair em qualquer das brochantes características listadas acima, criando sons marcantes e plenos de singularidade, juntando o velho e o novo sem nostalgia pelo ontem ou deslumbre pelo amanhã, simplesmente sendo honesto com sua história pregressa e visionário quanto à maneira de conduzi-la ao futuro. Não só a música brasileira, mas o jazz em geral precisava de um disco como esse. (Ruy Gardnier)

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Um comentário em “São Paulo Underground – Três Cabeças Loucuras (2011; Cuneiform, EUA [Brasil])

  1. Tay Nascimento
    24 de janeiro de 2012

    Finalmente!

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