Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Coki – Don’t Get It Twisted (2011; DMZ, Reino Unido)

Esse começo de ano não está exatamente generoso em matéria de ótimos EPs para indicar. Na ausência de um grande destaque (Machinedrum entregou um disquinho bastante aquém do esperado e o lançamento de Gonjasufi é um mini-LP, seja lá o que isso queira dizer), pinçamos um lançamento de Coki que está longe da excelência de tempos atrás como 50% ou 33% do Digital Mystikz, mas em todo caso serve para ressaltar algumas opções artísticas desse produtor e, em parte, alguns dos dilemas dos militantes de primeira hora do dubstep. Nas duas primeiras faixas de Don’t Get It Twisted, há uma clara opção por fugir do suingue e das síncopes do dubstep em prol de um andamento lento e profundo, mas sem maior relevo. Em “Tree Trunk” e “Lower Octave”, os elementos de maior destaque não são rítmicos, mas os barulhos sintetizados em frequência média que parecem, com alguma imaginação, arranques de motocicleta manipulados. Toda a espacialidade das faixas e a força da sempre criativa utilização de pratos acaba sendo estufada pelo poder dessas frequências de médio que não têm singularidade maior como “melodia” nem convencem especialmente como ruído. Se hoje existe um dubstep technicizado no pior sentido, é aquele que se apoia em riffs que acabam com a espacialidade e a sutileza da construção rítmica. Coki fica no meio do caminho, porque suas faixas soam mais como incursões no darkside do que como hinos de pista de dança, mas a linha tênue da maior riqueza rítmica se desfaz num e noutro de maneira semelhante. “Celestial Dub”, em todo caso, salva o EP com sobras. Nela, volta o ritmo pulsante, a fluência espacial e rítmica dos sons de prato e os efeitos de eco e de reverberação, que fornecem um rico tecido para um sample de órgão (provavelmente a fonte inspiradora do título da faixa) e deliciosos licks de piano flutuarem por entre as células rítmicas sem dominar totalmente o campo auditivo. “Think Your Gone” termina Don’t Get It Twisted como um meio-termo, recuperando os pseudo-riffs meio irritantes das duas primeiras, mas deixando um pouco mais de espaço para os outros elementos da composição também brilhar, com especial atençao, novamente, para a limpidez e o suingue na utilização dos pratos. O fato desses pseudo-riffs soarem pronunciadamente mais acid que os outros também não atrapalha em nada. No fim das contas, uma faixa realmente boa e três outras que ao menos prendem a atenção acabam sendo uma boa contribuição para um gênero que vive crise de identidade e síndrome de já ultrapassado. Acompanhemos ao longo do ano. (Ruy Gardnier)

Ouça aqui “Celestial Dub” (com boa leitura de subgraves, fazendo o favor)

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Publicado às 26 de janeiro de 2012 por em EP da semana e marcado , , .
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