Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Asmus Tietchens – Soirée (2011; Line, EUA [Alemanha])

Asmus Tietchens é um compositor alemão de música eletrônica. Utilizando-se de sintetizadores, fitas magnéticas e outros instrumentos eletrônicos, Tietchens ficou conhecido pela busca do que chama de “música absoluta”, através de processos quase matemáticos e rígidos exercícios de forma. Com influência da música concreta e outros experimentos eletrônicos mais primitivos, sua sonoridade é muitas vezes descrita como fria e cerebral, ainda que, em certos trabalhos como Biotop (1982) e outros lançados pelo selo Sky Records, o compositor revelou experimentos que lidam com o synthpop e outras sonoridades melódicas, mas que segundo o próprio não mais o interessam. Soirée (2011) parte de um material de arquivo do próprio Tietchens, reciclado através de um processo minimalista e pontual. (AT)

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A imagem que ilustra a capa de Soirée é bastante reveladora: uma fresta de luz que entra por um porta entreaberta, uma fagulha pontual que invade um espaço escuro e silencioso. Apropriando-se de um material próprio, Asmus Tietchens faz questão de deixar claro que as faixas do presente trabalho não são remixagens, mas sim reciclagens. A questão não é exatamente remexer, remisturar composições anteriores mas, acima de tudo, criar uma outra sonoridade a partir daquela matéria, que aqui pode-se dizer que foi reconfigurada a uma categoria de “material bruto”. Quase um movimento criativo de espiral sobre a própria obra, até que ponto uma célula musical pode gerar outra? E outra? E outra? Ad infinitum… Até restarem centelhas sônicas daquilo que um dia foi uma música, e agora, simplesmente, funciona como uma faixa independente.

Apesar de seu exercício conceitual e formal, o resultado, se por um lado sugere uma sonoridade minimalista e pontual, sem exatamente estabelecer referências mais óbvias, caso de “p1b” ou “nox 1”, por outro, em  faixas como “l2rd”, “l2rc” e “nox 3”, temos uma atmosfera de suspensão um tanto quanto curiosa e enigmática, quase mística. Um poder quase espiritual mesmo, que remete, em certo sentido, ao imaginário científico-espiritual de Andrei Tarkovski, cineasta russo famoso por lidar com questões que ficam na tênue fronteira entre filosofia e espiritualidade, poesia e técnica. Como se nessa remontagem matemática e puramente formal, um resultado abstrato e desconhecido pelo homem viesse à tona, através de uma melodia única que só poderia ter sido alcançada por meio desse processo particular. Aí, talvez, enxerguemos um pouco do conceito da “música absoluta”, uma sonoridade sem referências externas e de origens puramente musicais, como também foi o “cinema puro” de Stan Brakhage, buscando uma imagem cinematográfica absoluta e sem outras possibilidades associativas. Se o trabalho de Tietchens, assim com o de Brakhage, pode soar formal demais para alguns, não é difícil, aos nos depararmos com tais obras sem qualquer tipo de referência anterior, nos sentirmos desarmados diante daquilo e, aí sim, nossa escolha é a absoluta entrega ou não. Uma poesia por vezes abstrata e obscura, mas não menos lírica, e, por isso mesmo, talvez, ainda mais arrebatadora. (Arthur Tuoto)

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Eu já estava para indicar Asmus Tietchens há um tempo, e eis que Arthur toma a dianteira e indica um novo disco desse alemão de trajetória fascinante. Soirée é um disco de silêncios e de movimentos quase imperceptíveis que soa paradoxalmente sereno dado o tour de force e o rigor do conceito que norteou a criação desse trabalho. Tietchens se perguntou: “O que acontecerá se eu reciclar (não remixar) algumas de minhas antigas composições e daí reciclar as reciclagens e daí reciclar as reciclagens recicladas… ad infinitum? Muito rapidamente as peças iniciais desapareceram rapidamente.” As oito peças de Soirée são a décima (!!!) geração de reciclagem das composições originais, e dada a distância em relação à matéria-prima de base, Tietchens se pergunta provocativamente: “É realmente necessário criar mais nova música eletrônica se apenas uma composição como núcleo é suficiente para derivar centenas e centenas de variantes distintas, diferentes e individuais?” Polêmicas à parte, Soirée é dono de uma beleza subterrânea que tem a ver com a discrição de suas texturas (que, como em Leyland Kirby mas de outra forma, também evocam uma espectralidade do passado, no caso o passado do próprio compositor, mas sem nostalgia) e a eleição de poucos sons para quebrar o eventual equilíbrio plácido inicialmente construído. Demanda paciência e um ambiente acústico com ruídos externos em níveis próximos ao zero (sim, é silencioso assim), mas Soirée não soa como nada sendo feito atualmente, e recompensa qualquer dedicação auditiva que se conceda a ele. Economia musical é isso. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 31 de janeiro de 2012 por em álbum da semana e marcado , .
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