Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

The Caretaker – Patience (After Sebald) (2012; History Always Favours The Winners, Reino Unido)

The Caretaker é o nome de um dos inúmeros projetos do inglês James Leyland Kirby, compositor de música eletrônica especializado em noise, drone, ambient e experimentos diversos. Como The Caretaker, Kirby trabalha a partir de discos de 78rpm lançados nos anos 20 e 30. Em 2009 fundou o selo History Always Favours The Winners, responsável pelo lançamento da maioria de seus trabalhos de maneira independente, recusando, inclusive, qualquer sistema de distribuição mainstream como iTunes e outros. Para assim, segundo o próprio, manter total controle sobre sua obra. Patience (After Sebald) foi composto como trilha sonora para o documentário do mesmo nome, dirigido por Grant Gee. (AT, RG)

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Se em An Empty Bliss Beyond This World, o lançamento anterior do projeto The Caretaker, o que ouvimos são valsas assombrosas, quase ecos de uma salão espectral (que até dialoga mais explicitamente com a ideia original do projeto, partindo da mítica cena de O Iluminando, de Stanley Kubrick), nesse novo lançamento, originalmente uma trilha sonora para um filme sobre o escritor alemão WG Sebald, dirigido por Grant Gee (o mesmo de Meeting People Is Easy, famoso documentário sobre o Radiohead em sua era OK Computer), nos deparamos com uma sonoridade explicitamente mais crepitante e, consequentemente, de uma melancolia mais agressiva, ainda que de flerte com valsas similares e bastante terna em certos movimentos lúdicos e quase fantasiosos. Uma jornada de paisagens que podem soar calmas, mas possuem uma qualidade subterrânea e, sempre, escultural, tão comum ao nosso James Leyland  Kirby.

Boa parte das faixas seguem uma estratégia comum: duas camadas sobrepostas, uma com um piano melódico, partindo de gravações de Franz Schubert, e outra com os devidos estalos espectrais; quase como um receptor analógico fora de sintonia, uma massa sônica estragada, que viajou sabe-se lá por onde, sabe-se lá por quanto tempo, e que aqui compete por espaço com a melodia mais reconhecível de Schubert. Em alguns extremos como “Approaching the Outer Limits of Our Solar System” ou “Everything Is on the Point of Decline”, a camada ruidosa soa quase como uma chuva interplanetária, talvez o nome da primeira até sugira isso, uma constelação de timbres que até parecem suaves, mas nada tem de inofensivos, talvez como a própria natureza do espaço sideral, um vácuo indiferente que tenta dominar tudo à sua volta. Por outro lado, “When the Dog Days Were Drawing to an End” repete, incansavelmente, um trecho de uma valsa com um vocal irreconhecível ao seu término, em uma espécie de ciclo interminável, sempre hipnótico. “Now the Night is Over and the Dawn Is About to Break” fecha o disco com um outro tom: ao se apropriar do vocal da peça de Schubert, Kirby transforma um canto épico em um espectro isolado do restante do disco, concluindo sua obra com um impacto relativamente inesperado.

Ainda que produzido antes de An Empty Bliss Beyond This World, o presente trabalho parece, de alguma forma, tirar proveito do recente e relativo sucesso do projeto The Caretaker. Figurado em boa parte das listas de finais de ano em 2011, o projeto de James Leyland Kirby finalmente achou seu caminho, com uma legião de admiradores sempre fiéis e que só tende a crescer. Bom saber que Kirby anda fazendo valer nosso apego. (Arthur Tuoto)

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As doze peças dessa trilha sonora encomendada se integram perfeitamente, em termos sonoros, à estética de James Leyland Kirby sob o pseudônimo The Caretaker: sons de singeleza ímpar sendo recuperados de seu passado longínquo mas deixando visíveis os aspectos de detrito intimamente ligados à passagem do tempo, em especial chiados, deformações de tom, ecos espectrais… Mas do ponto de vista do processo criativo a mudança foi radical: ao invés de resgatar velhos discos de 78 rotações e trabalhados como field recordings de eras recônditas e esquecidas, aqui houve a incumbência de trabalhar a partir de uma peça específica, no caso um ciclo de 24 canções de Franz Schubert intitulado “Winterreise”, aplicando sobre esses lieder seus notórios processamentos sonoros. A matéria-prima tendo sido dada de antemão, a maior parte da atividade artística de Kirby aqui foi pinçar os trechos originais para criar os loops e passá-los sob seus filtros. Como de habitual, a matéria-prima é sempre preservada em suas características e amplificada pelas camadas de ruído e eco, criando ambiências entre a fantasmagoria e a nostalgia do não-vivido. Com os loops de piano, Kirby utiliza a já famosa dobradinha fraseados melancólicos/chiado escorchante, sempre com resultados formidáveis (sobretudo quando há discretos elementos para dar relevo, como a voz entoando eternamente algo como “ma shtoo” em “When the Dog Days Were Drawing To an End” ou os estalos de “I Have Become Almost Invisible, To Some Extent Like a Dead Man”). Nos loops de canto lírico, os ecos transformam as vozes em lamúrias de almas errantes. Patience (After Sebald) ratifica a excelência de um trabalho mais do que aponta novos caminhos, mas em se tratando de um sujeito com dezenas de nomes e meia-dúzia de lançamentos por ano, já bastante multifacetados, a manutenção do nível de excelência já é boa nova suficiente. (Ruy Gardnier)

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“Approaching the Outer Limits of Our Solar System” fez parte do Camarilha Podcast #71
Ouça “I Have Become Almost Invisible, To Some Extent Like a Dead Man

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Publicado às 31 de janeiro de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , , .
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