Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Ensemble Economique – Crossing the Path by Torchlight (2011; Dekorder, Alemanha [EUA])

Ensemble Economique é um projeto de Brian Pyle, músico multiinstrumentista do norte da Califórnia (condado de Humboldt). Em 1998, fundou com Merrick McKinlay o projeto Starving Weirdos, que lançou diversos discos por selos como Collective Jyrk, Root Strata, Digitalis e Olde English Spelling Bee, e que acaba de lançar pelo Amish o álbum Land Lines. Pyle também faz parte do grupo RV Paintings, com seu irmão John Pyle, e Spencer Doran. Os primeiros lançamentos do Ensemble Economique datam de 2008, com o álbum At the Foot of Nameless Roads e o CD-R No GPS, ambos pela Digitalis. Psychical, lançado pela Not Not Fun, tornou seu projeto conhecido nos meios underground. Crossing the Path by Torchlight é o terceiro álbum do projeto. (RG)

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Se pensarmos no que primeiramente chamou a atenção a propósito de Psychical, o que se destaca é a intensidade e a pressão do disco, que destilava psicodelia dub em meio a camadas e mais camadas sonoras de grooves lentos e densos. Se nesse disco o equilíbrio era feito entre o poder de desorientação e a instalação de atmosferas próximas de trilhas sonoras, em Crossing the Path by Torchlight a balança claramente pendeu para o segundo. Comparado ao trabalho anterior, o álbum novo é sereno e bem dosado, dando todo tempo ao ouvinte para discernir todas as camadas de cada faixa e as relações entre elas. A única marca característica é a preferência por timbres misteriosos de sintetizadores e a incrível proficiência em desenvolver padrões percussivos que preenchem a música de personalidade tal qual marcos melódicos. A primeira sensação é que o Ensemble Economique reduz o pontecial psych de outrora para fixar-se num tipo mais brando de desorientação, talvez mais próximo das experiências mais anômalas de Leyland Kirby e seus Intrigue & Stuff ou do esquizoambient do Ekoplekz. Impacto há, mas dessa vez ele é mais lento e insidioso, construído ao longo das faixas (que são sensivelmente mais longas que as de Psychical).

“Heat Waves” abre Crossing… com o máximo de dissonância que o disco se permitirá, com synths tensos e onipresentes preenchendo o espaço sonoro enquanto esguichos de sons sintetizados, como se fossem colônias passageiras de insetos, aparecem constantemente remoduladas para dar dinamismo à composição. Mas basta a seguinte, “Vanishing Point”, para revelar com maior clareza o aspecto mais contemplativo e onírico do Ensemble Economique em fins de 2011. A faixa, emoldurada por batidas reverberadas, se movimenta através do equilíbrio entre um synth nervoso e outros sons eletrônicos amenos, eufônicos e reconfortantes, como a luz divina ao fim de uma caverna. As duas faixas abrem caminho para o verdadeiro destaque do álbum, “To Feel the Night as It Really Is”, com sua poderosa cascata de ton-tons e sua dócil passagem de acordes vaporosos de teclado. Há retoques de bongô, sininhos, outras camadas de synths, mas elas só servem para dar uma breve dinamizada naquilo que já é um padrão incrivelmente belo e evocativo de balada instrumental, fazendo surgir ressonâncias que vão desde Angelo Badalamenti a Fennesz,

O lado B do disco começa com a outra grande faixa de Crossing…, “Everything I Have, I Give To You”, uma composição que lembra o glitch por seu caráter fragmentário e econômico, dominada por incisivas marcações rítmicas que se ordenam sozinhas em meio a flutuantes vocais processados. E só depois daí, afinal, surge outra característica que já associávamos eo projeto de Brian Pyle, os samples vocais evocativos e enevoados.  No caso de “Sparks Exploding, Splintering Blackness” e de “Somewhere, Anywhere”, não o timbre grave e o sotaque carregado de um negro jamaicano, mas uma voz feminina que soa como um acalanto ligeiramente macabro enquanto as marcações imponentes de bateria e as camadas de synth e guitarra distilam um clima de suspense letárgico, como um pesadelo cinematográfico vivido em seu caráter mais abstrato.

No fim das contas, o novo álbum do Ensemble Economique reenquadra algumas das preocupações de Brian Pyle com sucesso. A música chega a alguns lugares que não tinha galgado antes, abandona outros e propõe novas opções de caminho futuro. O único senão diz respeito à singularidade: excetuadas as duas faixas do meio, Crossing the Path by Torchlight apresenta composições fortes mas que acabam soando mais genéricas do que deveriam. É muita gente flertando com ambient e redondezas, e fazendo isso com sintetizadores. Brian Pyle não se perde no fosso informe do synth-retrô contemporâneo, mas ele também deixa escapar a oportunidade de transformar-se com mais propriedade no senhor de seu terreno. Mas que o poderio climático de Crossing the Path by Torchlight dá pro gasto, ah, isso dá e ainda sobra muito… (Ruy Gardnier)

Confira o vídeo de “To Feel the Night As It Really Is” no vimeo.

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Publicado às 16 de fevereiro de 2012 por em álbum da semana e marcado , , .
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