Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

F.C. Judd – Electronics Without Tears (2012; Public Information, Reino Unido)

F.C. Judd, ou Fred Judd, como é mais conhecido, é um pioneiro compositor de música eletrônica da Inglaterra. Nascido em Londres em 1914, Judd trabalhou na 2ª Guerra Mundial como operador de um radar ultrassecreto e, a partir de meados dos anos 50, se interessou pelas potencialidades musicais da manipulação da fita magnética, da música concreta e dos geradores de tom da nascente música eletrônica. Dedicou diversos livros ao assunto, construiu seus próprios aparelhos, entre os quais um sintetizador que se antecipou aos similares de Moog, Buchla e Synket. Foi responsável pela primeira trilha sonora de televisão unicamente feita de sons eletrônicos, Space Patrol, em abril de 1963, tomando a dianteira da mais renomada e famosa Dr. Who. Judd produziu música geralmente sob comanda e seu período de maior atividade foi ao longo dos anos 60. Na década seguinte, seu entusiasmo esmoreceu com o pouco reconhecimento e Judd acabou vendendo seu equipamento. Morreu em 1992. Electronics Without Tears é uma compilação organizada por Ian Helliwell e nela Judd mostra suas composições e explica seus processos de trabalho. (RG)

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Existe um claro apelo hoje pelas mais pioneiras experimentações com música eletrônica e manipulação de fita dos anos 50-60. Como toda época que vive seu apogeu e vê seu terreno ser aos poucos organizado e sedimentado, com um número cada vez menor de inovações significativas, o período anterior passa automaticamente a soar como algo selvagem e desbravador, cheio de heroicos laboratoristas que espantavam o mundo com novas sonoridades que de tão extraterrenas fatalmente serviriam como metáforas para mundos inexplorados, como as maravilhas do espaço sideral ou os microscópicos segredos da química em nível molecular. Parte dessas experimentações  é inclusive hoje objeto de um culto um tanto fetichista praticado pelos signatários do selo Ghost Box, que ainda se deixam seduzir pela ainda presente atmosfera evocativa, mesmo que hoje reconvertida em retrofuturista, desses sons eletrônicos, em especial os do BBC Radiophonic Workshop.

Com o lançamento de Electronics Without Tears, Fred Judd vem se juntar ao rol de pioneiros britânicos tardiamente reconhecidos, como Delia Derbyshire, Daphne Oram e Tristram Cary.  Mais do que um compositor com anseios de grandiosidade, essa coletânea mostra um divulgador entusiasmado e um experimentador curioso. Não é apenas questão da estrutura do disco, com várias faixas em que Judd explica as transmutações de matéria que opera e as distinções que faz, por exemplo entre electronics (apenas sons sintetizados) e radiophonics (sons sintetizados misturados com instrumentos convencionais). As próprias composições parecem obedecer a uma lógica particular do experimento, como se fossem verdadeiros testes da potencialidade de utilização e deformação de determinados sons e timbres de partida. Ao contrário de certos desbravadores que queriam compor a odisseia de sua era (ou do futuro, como assim se via), a poética de Judd é extremamente pragmática, lidando de forma discreta mas minuciosa com a materialidade dos sons que utiliza. Suas composições não se chamam “Big Bang”, mas “Molecules in Space” ou “Steel Particles”. A metáfora espacial/científica é o de menos, a verdadeira referência escondida é a que importa, e no caso é sempre a mínima parte, o átomo, a molécula, a partícula. Não à toa, engenhosamente essa coletânea é emoldurada no fim e no começo pelo som de uma tigela de porcelana (“China Bowl” e “Musique Concrete Is Fascinating”), inicialmente como material de partida e em seguida como uma exemplificação de todas as potencialidades da manipulação via modulação por sintetizadores ou deformação magnética (variações de altura de nota via alteração de velocidade). Judd é menos o gênio futurista do que o experimentador compenetrado.

Ouvir Electronics Without Tears provoca três tipos de registros muito diversos. Primeiro, é a abstração mental de tentar localizar seus sons entre os outros sons eletrônicos da época e ao pano de fundo cultural e comportamental do período. Outro modo de vivenciar o som é comparativamente, notando como esses sons se articulam (favoravelmente na comparação) com aqueles que tentam retomar hoje esse tipo de sonoridade, incapazes de restituir a vivacidade da experiência. Outra é como uma verdadeira aula de música eletrônica assim como ela era vista aos olhos dos anos 60, com teorias, definições e exemplos práticos, expostos com clareza e graça. “Clareza e graça” também combinam com a música praticada, das radiophonics que antecipam as delícias sintetizadas de “Popcorn” e do Kraftwerk mais singelo (“Automation”, “Tempo Tune”) às composições eletrônicas mais abstratas e atmosféricas (“Space Links”, “Steel Particles”). Em todos os registros, o tempo é soberbamente compensado por uma música que ajuda a reconstruir o panorama da eletrônica pioneira dos anos 60, aguça a sensibilidade auditiva e a imaginação, e ainda por cima ordena o conhecimento daqueles que ainda se embananam um pouco com os conceitos (música concreta, eletrônica e por aí vai). Electronics Without Tears não é o lançamento que vai reconfigurar aquilo que já se sabe sobre o campo e o período, mas é um valioso acréscimo à crescente mediateca dos desbravadores eletrônicos fora do eixo erudito. (Ruy Gardnier)

Ouça um mix de Electronics Without Tears no soundcloud do selo Public Information.

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Publicado às 16 de fevereiro de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , , .
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