Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Burial – Kindred EP (2012; Hyperdub, Reino Unido)

Quando o Burial surgiu em 2005-6, foi como um fenômeno sem precedente e sem pares na música sendo produzida naquele momento.  Com o tempo, e especialmente com a proporcionalmente maior projeção dada ao dubstep nos últimos anos, Burial assumiu uma espécie de posto único como “dubstepper introspectivo”, e serviu de influência para incontáveis novos projetos, dos sobretons sombrios-melancólicos às paisagens chuvosas, passando naturalmente pelo estilo de vocal empregado, como se fosse um fantasma de diva R&B enclausurado por séculos e emotivamente chorando sua condição. A verdade é que, a despeito de seu estilo e da excelência de suas criações, Burial na década de 10 tem similares. Mas, como frequentemente acontece com os artistas genuínos, à medida que sua obra começa a ficar identificável demais, ele faz sua própria estética balançar, adquirir novos contornos e surgir com novas propostas que continuam testemunhando uma continuação de caminho, mas trazendo novas variáveis ao jogo. O EP anterior, Street Halo, deixava entrever que havia um passo além no porvir. A colaboração com o Massive Attack atiçou as curiosidades. E agora chega Kindred, que em três faixas e quase meia hora permite vislumbrar um artista experimentando em novos territórios.

A primeira coisa que se faz notar nas faixas de Kindred é a duração. Se a faixa regular do Burial dos dois primeiros álbuns era cronometrada entre 3 e 6 minutos, aqui a menorzinha tem 7min30 e as outras contam 11min cada. As estruturas também ficam mais complexas, com movimentos distintos e quebras de atmosfera. Nas duas faixas mais longas, por volta de 6min30 há uma parada brutal e a construção de ambiências econômicas e lentas. “Kindred” é de longe a que mais parece o Burial clássico, com a batida em 2-step, os cortantes sons de pratos e a utilização habitual do vocal. Independente do território familiar, é uma composição de forte teor emotivo, com vocais processados para baixo e para cima do pitch, pinceladas de synth graves-melodramáticos e uma inserção de bumbo/estrondo que não ficaria fora de esquadro num esquema de doom metal experimental. Mas é com as duas faixas seguintes que Burial mostra novas facetas, com a batida house frontal e o andamento rápido de “Loner” e com a também houseificada “Ashtray Wrap”, toda reta excetuando um grave de apenas três marcações que paira por cima da batida, que é sumariamente bumbo e prato. As produções de Burial, com as batidas relativamente opacas e sem a limpidez incisiva característica das pistas de dança, já justificam denominações de “ambient dance” ou “headphone dubstep”, mas a batida mais direta do house torna isso exponencialmente claro, sobretudo em “Ashtray Wrap”, uma das faixas mais abstratas e soltas já produzidas por Burial, em que o andamento aparece como um suplemento para vagares impressionistas e intuitivos. A maneira como esta faixa se reconstrói a partir do oitavo minuto a partir de ruídos comuns microfonados, um bumbo sumário, um piano de duas ou três notas e uma sutil melodia metálica (imagina-se um vibrafone de objetos de cozinha), é algo encantador e profundamente comovente. Os climas instalados permanecem os mesmos: solidão urbana, chuva existencial, amor desamparado, alienação sensorial. Mas Kindred soa como uma sutil reviravolta no seio de uma estética já absolutamente pessoal e definidora na corrente da música feita atualmente. “Loner” dá o tom: quanto mais parece efusivo e festivo, mais afunda no pântano da embriaguez emocional. Um primor de disco curto. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 23 de fevereiro de 2012 por em EP da semana e marcado , , .
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