Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Ferran Fages – Llavi vell (2011; L’Innomable, Eslovênia [Espanha])

Ferran Fages é um compositor espanhol que trabalho no campo da improvisação e da eletroacústica, além de se dedicar, musicalmente, a poesia e mesmo a dança contemporânea. Desde 1999 é membro do IBA col.lectiu d’ improvisació, através do qual o artista organiza o IMPROVISA – Festival Internacional de Música i Dansa Improvisades de Barcelona. A sonoridade de Fages é marcada por uma busca de timbres complexos e de uma estranheza quase sempre convidativa, seja a partir da manipulação da guitarra, da apropriação de sons de uma rádio AM ou qualquer outro experimento eletrônico. (AT)

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L’Innomable é um selo esloveno dedicado à improvisação, música eletroacústica e outras composições contemporâneas que ficam em um saboroso limbo entre a sound art e qualquer outro possível gênero musical inclassificável. O catálogo do selo parece formado por artistas que, na maioria dos casos, partem de instrumentos clássicos e comuns para encontrar uma subversão acústica por vezes minimalista através de uma abordagem que busca atingir certos extremos sonoros. Caso desse trabalho de Ferran Fages.

Llavi vell é uma espécie de oceano sonoro formado por uma massa musical constituída de várias camadas de guitarras, nas mais variadas afinações e atingindo notas tão dissonantes quanto harmoniosas. Lembra, em algum sentido, I Don’t Rock At All, um dos lançamentos de Pete Swanson de 2011. Mas enquanto Swanson buscava uma evolução mais explícita através de sua sobreposição de cordas, Fages parece construir um trabalho com uma qualidade muito mais ambiente, ainda que, mesmo em meio a esse oceano que em um primeiro momento pode parecer quase homogêneo, surjam, de tempos em tempos, movimentos de força bastante sutis. Algo como a natureza de um fenômeno climático, as coisas vão se formando aos poucos, adquirindo cada vez mais energia em suas calmas trajetórias, até irem rebentando em picos agudos e outros cumes auditivos ao longo dos 40 minutos de duração da obra. E lá pelo décimo minuto, o que no começo soava distante, desafinado, ou de uma qualidade contemplativa duvidosa, vai aos poucos seduzindo em um embarque sensorial metafísico, quase uma orquestra de cordas convulsionadas que se antes soava psicótica ou irracional, começa a tirar algum sentido místico e mesmo de uma ordem contemplativa plácida do que antes era simples barulho. Mesmo nesse movimento imperceptível, a obra ainda assim parece definida por alguns atos, a camada dissonante, depois do vigésimo minuto, fica mais violenta, para culminar nos dez minutos finais da obra, uma espécie de drone alienígena que se por um lado não conversa exatamente com o resto do trabalho, denuncia, até bastante explicitamente, as origens sônicas mais brutas do trabalho de Fages, especialmente no que diz respeito a essa melodia quase noise que acabamos de experimentar.

Curioso como esse e outros trabalhos que lidam com a, digamos, materialidade do som, seja por uma melodia cavernosa à la Leyland Kirby, seja através de experimentos acústicos extremos, andam ganhando um belo espaço, mesmo que, em boa parte dos casos, segregados a pequenos selos virtuais. Se atualmente existe de fato esse grande apelo pelas experimentações pioneiras com música eletrônica e manipulação de fita dos anos 50-60, como disse o Ruy em texto sobre o trabalho do F. C. Judd, parece existir também um certo fetiche contemporâneo pelo minimalismo, pela limitação pura e simplesmente. Quem sabe assim, com seu arsenal restrito, esses artistas não passam a explorar novas sensibilidades, novos extremos, quase como simulando um ambiente em que os aparatos são limitados e consequentemente, como bem nos mostra Fages, encontram novas dimensões sonoras, por mais simples ou complexos que seus procedimentos possam parecer. (Arthur Tuoto)

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Publicado às 29 de fevereiro de 2012 por em álbum da semana e marcado , , .
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