Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Mark Ernestus presents Jeri-Jeri with Mbene Diatta Seck – “Mbeuguel Dafa Nekh” (2012; Ndagga, Alemanha [Senegal])

Como antecipado no podcast alguns posts abaixo, “Mbeuguel Dafa Nekh” é tranquilamente uma das músicas mais fantásticas que terão sido lançadas em 2012, e seu dub não fica muito atrás, utilizando até convencionalmente a picotagem vocal comum ao padrão jamaicano, mas extraindo uma vitalidade rítmica diversa justamente porque o material de partida é absolutamente diverso (em termos de andamento, fluência e complexidade de padrões rítmicos, é o exato oposto, para falar a verdade). Mas como já destacamos o dub no programa, cabe aqui fazer a loa da original mesmo, em que Mark Ernestus utilizou gravações do grupo de percussionistas Jeri-Jeri para criar um dos padrões rítmicos mais complexos e hipnóticos de que se tem notícia nos últimos anos. Contratempo aberto e pulsante, uma fascinante levada de tambores pequenos cujo timbre evoca tamborins, zilhões de microscópicas porém incisivas variações rítmicas, e um baixo com groove profundo e lento potencializando diferentes leituras rítmicas. No meio da leitura, a diminuição da ênfase na marcação do contratempo faz parecer que o andamento caiu para a metade, mesmo que certos instrumentos permaneçam seguindo imutavelmente o mesmo padrão. Sem qualquer exagero, parece que Mark Ernestus aprendeu tudo que precisava de Konono No. 1, do pop africano elegante e polirrítmico de Oumou Sangaré, mas também da vibração lúdica e quase adolescente da turma do Shangaan Electro. O resultado é um desses petardos que, tão logo aparecem, chocam pela sua radical alteridade. Ernestus aqui associa o melhor dos mundos, aliando seu perfeccionismo de mago eletrônico com afluência e a energia telúrica dos músicos griot que compõem o grupo Jeri-Jeri, capitaneado pelo percussionista Bakane Seck. Mas também fundamental ao encantamento de “Mbeuguel Dafa Nekh” é a interpretação da cantora Mbene Diatta Seck, com um soberbo aproveitamento de espaço, distendendo ainda mais o ritmo em momentos, e intervenções sempre poderosas, precisas, em momentos lírica, pairando acima do baticum como se estivesse planando dois metros acima. Não é dança para os pés. Ouvindo “Mbeuguel Dafa Nekh”, dança a vesícula, o esôfago, cada órgão, cada célula respondendo diferentemente à profusão de camadas, bateria convencional, percussões, guitarra, baixo, voz etc. Surge o primeiro forte contendor para música do ano. E ainda coroa o lançamento de um selo, o Ndagga, que já tornou-se obrigatório seja pelo dono (Mark Ernestus), seja pelo primeiro 12” que trouxe ao mundo. (Ruy Gardnier)

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