Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Carlos Giffonni – Evidence (2012; Mexican Summer/Software, EUA)

Carlos Giffoni é um músico e designer venezuelano (Barquisimeto, 1978) radicado no Brooklyn, em Nova York. Seus primeiros lançamentos datam da virada dos ’90 para os ’00. Além de músico, é dono da gravadora e produtora No Fun Productions, que organiza desde 2004 o No Fun Fest, um dos mais prestigiados festivais noise/drone do mundo, e desde 2005 lança discos de artistas como Prurient, Jim O’Rourke, John Wiese, Aaron Dillaway, Emeralds, Oneohtrix Point Never, entre outros. Giffoni já tocou ao vivo e gravou com artistas como Thurston Moore, Lee Ranaldo, Merzbow, Lasse Marhaug, Maja Ratkje e Keith Fullerton Whitman, além de suas próprias criações, usando seu nome e projetos como o recente No Fun Acid. Evidence foi lançado no selo Software de Daniel Lopatin. (RG/MM)
* # *

“Evidence” começa com uma linha de piano e com o até então inédito uso de vocais por Carlos Giffoni. Chegamos a desconfiar que Giffoni tenha enveredado pelas fáceis soluções de James Blake, mas bastam poucos segundos para percebermos que a estranheza vai predominar pelo restante da faixa e por todos os breve quatorze minutos de Evidence.

Uma discussão que tem aparecido com razoável frequência nos últimos tempos é sobre a guinada de muitos dos cultores do noise mais extremo/intenso para composições mais melódicas, brandas ou próximas do techno. Se de um lado temos Kevin Drumm desconstruindo suas faixas infernais e monolíticas, de outro temos Pete Swanson e Carlos Giffoni dinamitando as estruturas do techno para efeito de timbre e atmosfera, quase sempre resultando em isolamento e desolação.

Acredito que a discussão se mostra um tanto tola se pensarmos que, para citar apenas um nome, Mika Vainio faz isso desde os anos noventa, para não precisarmos voltar mais no tempo. Verdade, que estamos falando de músicos que fizeram fama por uma verdadeira busca de uma sonoridade bem próxima do inaudível. O passar da brutalidade de Sheer Helish Miasma para a sombria e quieta intensidade de Imperial Horizon é notável e representativa.

Ainda assim, acredito que na brevidade de Evidence, Giffoni mostra que o assunto muitas vezes é tratado por um ângulo inadequado e o movimento neste single é mais radical que os belos eps lançados sob a alcunha de No Fun Acid, uma vez que ali ficava muito mais evidente que se tratava de um escultor de barulho trabalhando com batidas e timbres próximos ao techno mais “ácido”.

Daí o interesse maior em Evidence, ao trabalhar com elementos mais distantes do noise, ele reafirma sem interesse maior na manipulação sonora, distante tanto da “música para pista” quanto do pop, ainda que use vocais. A faixa “Evidence” em sua distorção dos elementos é notável, a pálida voz de Giffoni é o único elemento que soa puro e tanto as poderosas linhas de sintetizadores analógicos e do piano tocados por Laurel Halo, Giffoni constrói uma faixa muito mais sufocante 4×4 que apenas ressalta a fragilidade da voz de Giffoni.

O lado B leva a técnica mais longe e o efeito é ainda mais rico. Com o acréscimo de intervenções industriais e inflexões de eletro com menor respeito a integridade dos vocais, a progressiva desestruturação da faixa, ele consegue ao final atingir um clímax e ressaltar uma sensação de ruína.

Giffoni se posiciona em um caminho peculiar, que se aproxima tanto de produtores oriundos do noise como o já mencionado Swanson quanto dj/produtores do techno que cada vez mais se aproximam do noise, como é o caso de Andy Stott, Container e Temporal Marauder. Assim, o trabalho de Giffoni em nada de assemelha ao revival de acid-house, ou ao mais amplo ‘movimento’ da retromania como classifica Simon Reynolds e pouco ajuda a entender a música de Evidence o inventariar de supostas influência de quem foi pioneiro dos gêneros. Por tais características, Evidence é um alienígena no catálogo do Software records de Daniel Lopatin, compartilhando quase nada do fetichismo característico do selo.

Em uma estrutura que soa próxima ao morto e enterrado EBM e aos timbres ácidos, Giffoni consegui ressaltar o isolamento dos vocais e o efeito belíssimo e deixa evidente que o interesse é menos em fazer música de gênero que explorar tais estruturas para alcançar novas possibilidades de exploração sonora. (Marcus Martins)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 7 de março de 2012 por em álbum da semana, electro, eletrônica, experimental, noise, Techno e marcado , , .
%d blogueiros gostam disto: