Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Keith Fullerton Whitman – Generators (2012; eMego, Áustria [EUA])

Keith Fullerton Whitman (n. 1974, Somerville, Massachussetts, EUA) é um compositor de música eletrônica e eletroacústica. Estudou no Berklee College of Music e durante os anos 90 participou de uma série de bandas e projetos, entre os quais o mais célebre foi o Hrvatski, um pseudônimo para seu trabalho solo mais voltado para drum’n’bass e IDM. A partir de 2001, passou a lançar discos assinando seu próprio nome, inicialmente com guitarra fortemente processada e posteriormente com sintetizadores. Entre seus lançamentos mais renomados estão Playthroughs (Kranky, 2002), Lisbon (Kranky, 2006) e Disingenuity/Disingenuousness (Pan, 2010). Whitman é também dono do estúdio Reckancomplex/Mimaroglu e da distribuidora de música de vanguarda Mimaroglu Music Sales. Generators segue um projeto de composições feitas para performances ao vivo de sintetizadores modulares (Live Generators (1), Live Generators (1.5), Generator) e é seu primeiro lançamento pelo selo de música experimental Editions Mego, com duas execuções da mesma composição em dias e locais diferentes. (RG)

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“Generator” é uma performance/composição de Keith Fullerton Whitman executada algumas vezes entre 2009 e 2010, e que aqui tem suas duas versões finais e definitivas, gravadas nos dias 26 e 27 de setembro de 2010. Duas versões finais e definitivas, e duas que não soam nada uma com a outra, essa é a concretização de mais um processo artístico desse que é possivelmente o mais fantástico e multifacetado músico eletroacústico dos tempos atuais. O conceito de “Generator” tem como base a utilização de sintetizadores modulares como instrumentos de execução em temo real contra a insuficiência dos sistemas eletrônicos de síntese em tempo real para funcionar ao vivo. É, portanto, uma espécie de libelo em favor da espontaneidade da música e de suas características específicas ao local e ao momento em que ela é executada (e também relativa à inspiração do músico/executor no momento), restituindo, de alguma forma, uma espécie de poder ritualístico e irreprodutível da experiência — um “Generator” só será aquele uma única vez. O que no jazz e na improvisação livre é vulgata pode ser uma afirmação e tanto num terreno relativamente cerrado e centrado em obras fechadas como o terreno da eletroacústica.

Generators é formidável pelo que representa, conceitual e sonoramente, mas é genial mesmo pela organização sonora criada e pelos incríveis timbres e cadeias melódicas que consegue propor. “Issue Generator (For Eliane Radigue)” começa como uma faixa do Eleh, apenas frequências robustas de subgraves oscilando pelo espaço sonoro até que lentamente as frequências enfatizam os médios e, um pouco depois, entram em registro agudo como se fossem verdadeiros arpejos de uma sinfonia de cristais, respeitando em todas as três instâncias uma busca por pureza sonora — o som como matéria bruta, não simbólica, o som surgindo como se tivesse aparecido pela primeira vez na face da terra — inebriante, que desarma a percepção. Arpejos de sintetizadores têm uma longa história de solenidade e um tanto de cafonice, mas aqui eles são mais labirínticos do que evocativos, mais inaugurais do que misteriosos. Lembram mais a profusão de notas e as polirritmias de um Terry Riley do que as escaladas futuristas (hoje retrofuturistas, alô Lopatin) dos anos 70. É facilmente uma das coisas mais bonitas a terem surgido em 2012. Do outro lado da bolacha, “High Zero Generator” tem uma primeira parte flagrantemente heterogênea em ataques e escolhas de sons, utilizando muito silêncio para sublinhar sons singulares e gratuitos (no sentido de “não integrados” a uma lógica melódica) que surgem como itens individuais discretos de um inventário noise por vir. À organização semiamorfa do começo, com ruídos e interferência surgindo e desaparecendo em plena liberdade, vai se substituindo a partir dos 9min um novo modelo que rearticula alguns dos sons que ouvimos no lado A, só que aqui reordenados de forma mais audaciosa e rápida nas variações, remodulando os arpejos de cristais para fazê-los soar menos eufônicos e hipnóticos, mais extraterrenos e dissonantes.

Sintetizador, como tudo não vida, não é um valor de essência, mas de uso. Um bando de gente usa para filiar-se tardiamente a um fluxo “cósmico” que presta reverência aos anos 70/80 sem parecer importar-se em reinterpretar essas sonoridades com os desafios e as opções de som e ideias do presente. Mas Keith Fullerton Whitman não. Em suas mãos, os sintetizadores modulares, analógicos ou digitais, soam como nunca soaram, são articulados como nunca haviam sido e mexem com a sensibilidade de forma ainda desconhecida. Ao contrário do carnaval de synths de Disingenuity/Disingenuousness, Generators prima pela economia e pelo desenvolvimento lento, mas em ambos os casos o compositor é de mão cheia e a emoção da jornada é garantida. Afinal quem gera é o homem. (Ruy Gardnier)

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2 comentários em “Keith Fullerton Whitman – Generators (2012; eMego, Áustria [EUA])

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Publicado às 16 de março de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , , , .
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