Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Stephen O’Malley & Steve Noble – St. Francis Duo (2012; Bo’Weavil, Reino Unido)

Stephen O’Malley (Seattle, EUA, 1974) é guitarrista e membro das bandas Sunn 0))), Aethenor, KTL e Khanate, entre outras, circulando simultaneamente nos meios de doom metal, drone doom e música improvisada. É também fundador do selo Southern Lord, que já lançou Boris, Earth e Oren Ambarchi, entre outros, e é curador do subselo Ideologic Organ, das Editions Mego. Steve Noble (n. 1960) é um dos mais renomados bateristas ingleses de música improvisada, tendo feito parte do grupo Rip Rig & Panic nos anos 80 e posteriormente tocado com Derek Bailey, Lee Konitz, Alex Ward, entre outros. É membro do grupo N.E.W., com Alan Wilkinson e John Edwards, e mais recentemente é membro do Aethenor. St. Francis Duo é a primeira colaboração entre O’Malley e Noble como duo, resultado de duas noites de apresentação no Cafe Oto, em Londres, em agosto de 2010. (RG)

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O duo entre guitarra e bateria tem um lugar particular na história da livre improvisação. Pura carnalidade, música intensa e enérgica, ataques curtos ou alongáveis, equilíbrio preciso entre melodia e ruído, esses dois instrumentos tocando entre si já parecem oferecer todas as opções de preenchimento de camadas, de ritmo, de permanência e de ruptura, necessitando apenas de alguém interessado para intuir essas exigências e fazer uso criativo delas. É claro que quando se pensa em guitarra e bateria no free improv, as verdadeiras lutas de boxe entre Derek Bailey e Han Bennink aparecem com autoridade como os grandes exemplos da formação (muitos diriam, com alguma razão, como verdadeiros exemplos do free improv em geral, todas as formações incluídas), mas é possível pensar em adaptações entre guitarra e bateria que sejam menos confrontativas. Um bom exemplo é esse St. Francis Duo, fruto de duas noites na casa da improvisação livre em Londres, o Cafe Oto. Stephen O’Malley se ouvem, se comunicam, respeitam os clímaxes e os andamentos um do outro, mas parece haver uma constante tensão em jogo que faz com que a performance seja mais, muito mais, do que um jogo de indulgência recíproca. É destilada uma energia física, partilhada entre as articulações de doom metal, de pós-punk e de imprevisibilidade e ruptura do improv, que torna esse disco um grande objeto de destaque dentro do panorama.

Aí se articula mais uma vez a tensão entre improvisação e repertório (improvisar dentro de um gênero ou fugir de todos) e, talvez aqui de forma mais forte, a dinâmica entre movimento e permanência tão apropriada a um duo como esses. Como a grande maioria de bateristas improvisadores, Steve Noble adora alternar dinâmicas, variando com fluência entre muito preenchimento/pouco preenchimento, sons de manutenção longa (pratos, por exemplo)/ataques fulminantes e andamentos rápidos/andamentos lentos/nenhum andamento. Stephen O’Malley, ao contrário, mantém-se fiel ao modo de tocar já memorável, extraindo drones graves e insistentes de sua guitarra, que impregnam o som com uma atmosfera sombria e intensa, uma arte da textura e da duração. Como o Aethenor, mas aqui menos brilhante e mais intenso, o sotaque de metal dá uma originalidade evidente ao som produzido, não porque ele reproduza fórmulas de metal ou mesmo drone doom, mas justamente porque negocia o clima dessa família musical nos termos da urgência e da fisicalidade que a improvisação quase sempre demanda. E essa negociação não se dá em termos de contrato, de algo preestabelecido e anteriormente acordado, mas em ato, entre a profusão de energia frenética de Steve Noble e da serenidade mórbida de O’Malley. Dos vibrantes momentos de freak out dignos do power acid rock do Acid Mothers Temple às estases de lento estudo e quase silêncios, St. Francis Duo desenha um lugar próprio para si na história da improvisação atual, e o faz por simples força de expressão, e por níveis de franqueza e abandono absolutamente incomuns que produzem uma música despreocupadamente incendiária, e por isso mesmo ainda mais efetiva. É música para se deliciar, um banquete de opulência e eletricidade. (Ruy Gardnier)

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