Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Anne-James Chaton With Alva Noto & Andy Moor – Décade (2012; Raster-Noton, Alemanha [França])

Anne-James Chaton é um poeta sonoro francês (Besançon, 1971). Foi editor de revistas e é diretor do festival de arte sonora Sonorités. Tem dois livros de ensaios, L’Effacé: Capitalisme et effacement dans les manuscripts de 44 de K. Marx e Notice de calcul de votre taux d’exploitation (ambos Sens & Tonka, 2005), além de projetos livro+CD com sua poesia sonora, tais como: Événements 99 (2000), Autoportraits (2003), In the Event (com o grupo holandês The Ex, 2005), Événements 09 (2011) e, mais recentemente, Décade (2012), em parceira com Alva Noto e Andy Moor, lançado pela Raster-Noton. (RG, AT)

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Depois de Événements 09, um dos mais impactantes lançamentos de 2011, o poeta sonoro Anne-James Chaton ressurge dessa vez acompanhado de seu companheiro de Raster-noton Alva Noto e do guitarrista Andy Moor em mais um projeto de livro CD, Décade. O resultado é uma exuberante sonoridade que mistura uma concepção instigante e curiosa de ritmo, melodia, loop e voz, seguindo um padrão mais cerebral e mecânico que quase sempre evolui para um lirismo caótico e sedutor, mesclando com sabedoria as três linhas de força do trabalho: os retratos sugeridos pelo texto de Chaton, as texturas dos timbres eletrônicos de Alva Noto e a atmosfera mais melódica da guitarra de Andy Moor. A temática, como em Événements 09, parte de ações cotidianas que mesclam banalidade e conceitos da atualidade e mesmo de globalização. No caso de Décade, Chaton partiu de uma coleção de vinte retratos escritos na última década, compostos pelo poeta através de objetos encontrados em seu dia a dia, como bilhetes de metrô, recibos de banco e restaurantes, entre outros.

“En Ville”, a célula central do álbum, começa com um tom mecânico tanto na fala de Chaton como na ação ilustrada de um certo “ele”, uma profusão de verbos em um tom didático e de métrica padronizada. A faixa, aos poucos, vai ganhando camadas sonoras que se iniciam muito tímidas mas sempre constantes e, logo, vão dando o tom atmosférico da música.  E o que mais encanta aqui é justamente a alquimia entre essas camadas, seja a fala mecânica de Chaton, as cordas pontuais de Moor e os timbres corrosivos de Alva Noto. No decorrer da obra, quando vamos colhendo cada vez mais informações sobre o tal personagem, através das palavras de Chaton, um retrato vai se formando em nossa cabeça, e junto disso a atmosfera musical vai ficando mais forte e mais presente, como em um tipo de entendimento intuitivo, construindo uma espécie de narrativa sentimental sobre alguém que não conhecemos mas que, justamente por esse tom de anonimato preserva uma certa sedução, um voyeurismo de sugestão meramente auditiva. Mais do que ilustrar os versos do poeta, toda a musicalidade das camadas tem um poder bastante imprevisível, especialmente no sentido de que elas não seguem exatamente um padrão particular ou meramente reconhecível. No final da faixa, a própria voz de Chaton repete um verso incessantemente, como também os sons das outras camadas entram em uma espécie de curto-circuito poético. A voz ainda volta em tempo, com seu tom restabelecido, enquanto a sinfonia só cresce ainda mais.

Outro conceito curioso é a variedade de idiomas com que a obra trabalha (alemão, inglês, francês e japonês) dando uma ideia de que o que vale também não é exatamente o entendimento completo das palavras, mas sua qualidade meramente musical, sua textura sonora, como um sonho ininteligível em que o que mais importa é justamente a sensação das palavras do que seu significado completo. Coisa que David Lynch, aliás, faz com maestria nas cenas faladas em polonês de Inland Empire. Além, é claro, de toda uma ideia de globalização iminente, a própria faixa “US border”, em que Chaton parece ler as opções de um formulário de imigração ou coisa do tipo, passa essa sensação de forma austera e concisa. Preocupação essa que parece ficar cada vez mais clara na obra de Chaton, uma espécie de paisagem total e universal de um modo anônimo e mecânico que se define por ações simples e pontuais, mas esconde todo um universo de desolação e outras obscuridades. “Nihon No Tabi” soa como aqueles avisos de um aeroporto internacional: um tom automático de uma voz em idiomas distantes e de característica aparentemente indiferente vai agravando, na medida em que as notas de Moor vão entrando e os sinais de Noto sendo plantados, essa espécie de assolação, ruína babilônica pós-moderna ou coisa do tipo. E não seria esse justamente o sentimento que perpassa boa parte dos trabalhos da Raster-Noton, essa utopia tecnicista que revela uma poesia ainda mais humana? Em tempos de uma arte eletrônica cada dia mais formalista (seja a arte sonora ou a disciplina das novas mídias em si), o poeta Chaton nos presenteia com uma obra precisa em sua linguagem, atual em sua temática e, sempre, altamente tocante em sua poética. (Arthur Tuoto)

Ouça “Nihon No Tabi

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Publicado às 2 de abril de 2012 por em álbum da semana e marcado , , .
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