Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Chinese Cookie Poets – Worm Love (2012; Sinewave, Brasil)

Chinese Cookie Poets é um trio do Rio de Janeiro formado por Marcos Campello (guitarra), Felipe Zenícola (baix0) e Renato Godoy (bateria). A banda foi criada em 2010 e lançou dois EPs, Chinese Cookie Poets (2010) e Dragonfly Catchers and Yellow Dog (2011), com influências de power rock e free jazz. Worm Love é o primeiro álbum do grupo, e foi criado a partir de uma sessão improvisada de 40 minutos, posteriormente retrabalhada e editada em estúdio. (RG)

* # *

Rock ríspido, físico e lúdico tal como encontrável em Lightning Bolt ou Boredoms. Free jazz roqueiro tal como encontrável em experiências de Fred Frith e em geral no ambiente jazzcore novaiorquino dos anos 80. Uma estética stop-and-go com dinâmicas de tirar o fôlego em composições curtas, tal como encontrável nos projetos de Mike Watt. Um entusiasta de qualquer um desses sons dificilmente iria buscar algo do tipo no Brasil, muito menos no Rio de Janeiro. Mas eis que daí surge um grupo que não apenas se garante com folgas nos três modelos acima, mas também consegue criar um híbrido absolutamente singular dessas vertentes (nem tão distintas assim, é verdade) e soar como um dos mais urgentes e incandescentes grupos de rock instrumental da atualidade. Uma apresentação ao vivo do Chinese Cookie Poets é sempre um misto de intensidade brutal e intervenções meticulosas, com composições fixas mas que abrem espaço para terrenos de improviso, sem no entanto soar como duas áreas diversas (nada a ver com a separação tema/improviso do jazz tradicional). Ao contrário, uma das forças do CCP é fazer com que todas essas articulações funcionem num mesmo continuum, sem quebrar em pedaços o som do grupo.

Em Worm Love, como se já não estivesse contente com a excelência de suas composições, o Chinese Cookie Poets decide adicionar mais uma camada composicional que rearranja de maneira singular os lugares do composto e do improvisado. Como um Teo Macero ultravitaminado de guaraná em pó, o grupo-em-estúdio picota e reconstrói os sons do grupo-em-sessão-improvisada, criando loops e organizando estruturas a partir de um material semiformado, evocando em momentos o drill’n’bass frenético de um Squarepusher (“En la mano del payaso”), em outros uma dinâmica de avant-metal com retoques glitch/noise (“Chinatown Blues”). Toda a fascinação do grupo por andamentos velozes, angularidade e contrastes proibitivos pode ser observada na mini-suíte “Three Worms”, a melhor síntese em quatro minutos de tudo o que torna Worm Love singular: a opulência do peso da banda e a arrojada exploração do loop e incorporação na composição em “Jukai”, as dinâmicas em tempo real e o pontilismo de “Koan”, e por fim a violenta operação glitch realizada em “Ziran”.

As tônicas de Worm Love são energia e pressão minuciosamente trabalhadas. Somos bombardeados sistematicamente em 22 minutos por velocidades furiosas, alternâncias de andamentos, passagens do silêncio à balbúrdia e de lá de volta ao silêncio, grunhidos (cortesia de Arto Lindsay, que faz participação em “Discipline and Manners”) e três músicos senhores absolutos de seus instrumentos com as cabeças sintonizadas na criação de um som coletivo em que a fisicalidade e o contínuo movimento são as principais coordenadas. Há sons fixos, como aquele riff soberbo de “Plastic Love” que abre o disco, mas eles só existem para fazer todo o resto se mexer, como as dinâmicas tortuosas de um redemoinho necessitam de um centro vazio. Como águas furiosas, o som do Chinese Cookie Poets não perdoa nada, ataca e surpreende por uma vivacidade que integra improvisação e composição da mesma forma como também integra a fluência do momento presente com o retrabalho estudado nas picotagens da edição sonora. Paradoxalmente, o labor clínico dos cliques e dos corta-e-cola tornam o som ainda mais fluente, urgente e orgânico. Desobservantes conscientes de qualquer purismo ligado à fidelidade ao instante de execução, o Chinese Cookie Poets mostra que todas as vias são boas e que recortar também é criar, improvisar e compor. É o som que outrora esperávamos de Battles, de Boris, mas encontramos aqui mesmo, muito superior, firme e forte, no Brasil. Melhor assim. E longa vida. (Ruy Gardnier)

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4 comentários em “Chinese Cookie Poets – Worm Love (2012; Sinewave, Brasil)

  1. oBsSessed_Composed
    16 de abril de 2012

    Se eu falasse que um liquidificador batesse a insanidade dos primeiros rifles do living colour, com a energia do 311 e uma violencia meio alice cooper e saise Chinese Cookie Poets eu concertesa nao estaria errado :p

  2. Pingback: Um novo som. Um novo Jazz? |  Sax Pax

  3. Pingback: Chinese Cookie Poets - Worm Love | Canili d'Adda

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Publicado às 13 de abril de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , , .
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