Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Julia Holter – Ekstasis (2012; RVNG Intl., EUA)

Julia Shammas Holter é uma compositora, cantora e artista multimídia nascida e criada em Los Angeles, Califórnia. Formou-se na famosa escola Cal Arts. Seu primeiro lançamento foi o CD-R Cookbook, de 2008. Em 2010 lançou mais um CD-R, Celebration, e um cassete pela NNA Tapes, Live Recordings. Seu primeiro álbum é Tragedy, lançado no segundo semestre de 2011 e inspirado na peça grega Hipólito, de Eurípides. Ekstasis, seu segundo álbum, saiu em março de 2012 pela RVNG Intl., e, como o primeiro, foi quase inteiramente gravado sozinho em sua casa. Além de sua carreira solo, Holter trabalhou em colaborações com Nite Jewel e Linda Perhacs. (RG)

* # *

E com pouco mais de seis meses de diferença, uma das grandes revelações de 2011 reaparece com outro álbum imponente, misterioso, etéreo nos climas e poderoso nos resultados. Mas no fundo a ênfase composicional é absolutamente diferente. Julia Holter 2011 apontava para uma artista com um pé na canção mas fartamente antenada com as sonoridades líquidas do drone e dos field recordings, integrando-os numa viagem musical singular e única. Julia Holter 2012 permanece única e singular, mas agora está completamente entregue ao lado melódico, cancioneiro, e à exploração daquilo que todavia já era o mais marcante de seu disco anterior: o registro de sua voz, doce e elegantemente recortada, e o pendor composicional para inflexões de voz impessoais, duras, ou ao menos não embebidas de vulnerabilidade e carnalidade. Seu timbre imediatamente belo e delicado é a grande estrela de Ekstasis, mas ela é o oposto de uma Chan Marshall, para quem qualquer nota entoada é um registro confessional e emotivo. Holter é nesse aspecto uma cantora brechtiana, utilizando estrategicamente as aproximações e os distanciamentos entre voz e emoção pessoal.

Mas a musa de estatuário, a deusa grega em mármore ou a ciborgue entrevista em momentos de Tragedy aqui é muito mais terrena, humana, dócil, até frágil em momentos. Se “Marienbad” abre o álbum como uma chamada medieval pontuada por clarins, bateria marcial e múltiplas camadas vocais em equilíbrio complexo, avant-pop na plena acepção do termo, não tardará para as faixas seguintes revelarem também outra faceta da cantora/compositora, menos artista conceitual e mais artesã indie, notadamente com “In the Same Room” e com a segunda parte de “Our Sorrows”, curiosamente semelhantes em sonoridade ao pop melancólico/lo-fi do duo Beach House. Uma audição mais atenta, todavia, nos revela pequenos detalhes de arranjo que dificilmente estariam presentes em outro disco que não o de Holter: um assovio incidental e deslocado, codas extensas (mais de um minuto, p.ex.) em que a canção parece se esfacelar, restando apenas drones acústicos, voz e melodias desgarradas.

Julia Holter tem uma secura natural que casa perfeitamente com a mão cheia para melodias singelas e atmosferas celestiais. Um sem o outro seria o desastre: de um lado, a experimentadora asséptica; de outro, uma cantora indie como há tantas por aí. A fusão não cria um meio termo, e sim uma personalidade distinta. Apesar das frequentes comparações com Laurie Anderson ‒ mais pelo aspecto “artista multimídia com referências cultas que faz pop plácido-sofisticado” do que efetivamente por uma afinidade de inspiração ‒, Julia Holter está menos interessada no conceito do que nos aspectos materiais da música, o artesanato da melodia, as opções de orquestração, a minuciosa pesquisa de timbres. As passagens instrumentais são poucas, reduzidas ao começo ou ao fim das canções, mas mesmo nesses poucos momentos permanece evidente o cuidado com a instrumentação, que ocupa em Ekstasis um lugar de acompanhamento, mas sempre revelando detalhes preciosos ‒ mais evidentemente em “This Is Ekstasis”, onde há mais espaço para brilhar com sopros fugidios, mas na verdade ao longo do disco inteiro, mesmo quando ocupa apenas fundo.

Como com Tragedy, o estigma da pretensão em demasia é rapidamente descartado em Ekstasis. A imbricação de sonoridades não soa forçada, e os acréscimos “eruditos” (camadas vocais, momentos que lembram canto lírico, instrumentos incomuns no pop) surgem no disco com tanta naturalidade quanto uma melodia singela de caixinha de música. Julia Holter é uma compositora vivendo o dia de hoje, e vai se valer do que puder: vai negociar com os trends de pop contemporâneo utilizando presets e timbres de bateria lo-fi com o mesmo desprendimento com que vai pegar inspiração em melodias de folk ancestral ou criar passagens glaciais-introspectivas reminiscentes de uma Kate Bush. A comparação com Sufjan Stevens ‒ e dessa vez é possível até adicionar o Grizzly Bear ‒ continua valendo: são artistas produzindo música que negocia com os limites do pop (em duração, em acessibilidade) mas transita sem limites nas possibilidades de arranjo e de flertes ecléticos com tradições distintas. Julia Holter pode parecer, a princípio, um pouco mais haute couture, mas a impressão é falsa. A força das melodias fala mais alto, o porte seduz, a elegância e a economia desnorteiam. Mais uma vez, Julia Holter dá significativas provas de que é um dos artistas mais do time A da música sendo feita hoje. (RG)

Anúncios

Um comentário em “Julia Holter – Ekstasis (2012; RVNG Intl., EUA)

  1. Sheyla Fernandes
    11 de janeiro de 2013

    conheci o trabalho de julia holter esta semana. me encantei. boy in the moon é uma coisa…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 13 de abril de 2012 por em álbum da semana e marcado , .
%d blogueiros gostam disto: