Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Sun Araw & M. Geddes Gengras meet The Congos – FRKWYS Vol. 9; Icon Give Thank (2012; RVNG Intl., EUA [Jamaica])

Sun Araw é o pseudônimo de Cameron Stallones, músico americano nascido em Austin, morando em Los Angeles. O Sun Araw já conta com cinco LPs solo, além de diversas colaborações, cassetes e EPs/singles. M. Geddes Gengras nasceu em New England, mora em Los Angeles e, além de sua carreira solo, também participa de grupos afiliados ao selo Not Not Fun, como Robedoor, Pocahaunted e LA Vampires. The Congos é um grupo vocal jamaicano surgido no final dos anos 70, formado originalmente por Cedric Myton e Roydel Johnson, e logo em seguida por Watty Burnett. Com essa formação, gravaram o histórico disco Heart of the Congos (1977), produzido por Lee “Scratch” Perry em seu mítico estúdio Black Ark. O grupo separou-se nos anos 80, apenas Myton respondendo pelo nome The Congos. A reaproximação dos três ocorreu no final da década passada, assim como a adição de um quarto membro, Kenroy Fyffe. A união desses seis músicos aconteceu em St. Catherine, Jamaica, como parte do projeto FRKWYS, do selo RVNG Intl., que tem como proposta reunir artistas de gerações diferentes para criar discos colaborativos. (RG)

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Uma consideração preliminar sobre curadoria no seio da música pop/rock: é estranho como a aplicação de conceitos curatoriais no rock tende a parecer forçada, golpe ou coisa similar. Há uma ideologia encravada que nos força a encarar toda junção, digamos, não-natural como cooptação, marquetagem ou aproveitamento (no caso de junções em que um é legitimado [pelo tempo, pela tradição] e outro não). É uma égide de autenticidade que se justifica (afinal de contas quantas porcarias no estilo a indústria já não nos tentou fazer engolir goela abaixo, ou até os próprios artistas, como nos casos recentes de Maria Gadú e Thais Gulin?), mas ao mesmo tempo por conta desse insularismo muito laboratório potencialmente fascinante deixou de ser feito. Alguns foram feitos, de fato, e os resultados são formidáveis, como o dub eletrônico/germânico do Rhythm & Sound com vocalistas jamaicanos, ou a recente colaboração de Mark Ernestus com músicos do Senegal. Em todo caso, como sempre, a palavra final não cabe aos argumentos prévios, mas aos ouvidos: em última instância é o som que determina se um processo curatorial, “autêntico” ou “inautêntico”, foi bem sucedido ou não. O projeto FRKWYS, um trocadilho/pegadinha ultraconceitual com o mitológico selo Folkways, decide escancarar essa questão, juntando a velha e a novíssima guarda com a melhor energia herética que se viu nos últimos tempos. O volume 9 da FRKWYS, no entanto, leva a coisa outro nível, porque mexe num terreno suscetível a chiliques do tipo “raízes”: reggae, dub, Jamaica, e sua apropriação por jovens brancos de primeiro mundo, notadamente Sun Araw.

Mas logo na primeira audição de FRKWYS Vol. 9: Icon Give Thank toda suspeita cai por terra. Primeiro de tudo, porque em nenhum momento é tentada uma das três opções “óbvias”, repetir as deixas de Heart of the Congos, fazer um disco do Sun Araw com os Congos cantando ou atualizar a música dos Congos para um tipo de moeda sonora que esteja na moda hoje em dia. Nada disso se vislumbra no horizonte. Ao invés da guitarra, das batidas e dos ecos característicos das músicas de Cameron Stallones, temos aqui guitarra e violão limpos, ou mesmo inexistentes. Os acompanhamentos que mais chamam a atenção no arranjo são os barulhinhos cósmicos, os samples de natureza e as percussões orgânicas e eletrônicas, discerníveis mas ambas partilhando do mesmo clima, da mesma disposição. Sob qualquer aspecto que se olhe, é basicamente um disco dos Congos com uma trupe que entende o som do grupo, entra em sintonia com todas as suas vibrações e timings, e fornece material sônico inspirado e original para a criação de algo singular. É um disco realizado em modo ritualístico, com músicas ritualísticas. A dúvida era saber se Stallones iria adaptar bem seu autorritualismo a um regime colaborativo. A dúvida se foi.

Excetuando a introdução “New Binghi”, o disco é composto de faixas-mantras relativamente longas, entre 5min20 e 8min30, em que a principal estrela é o canto reluzente de Cedric Myton, de Ashanti Johnson, de Watty Burnett e de Ken Fyffe. O andamento lento das faixas e os espaçamento das notas vocais fornecem todo espaço necessário para Geddes Gengras e Sun Araw brilharem com inserções discretas mas que preenchem e pontuam com excelência a fluência das composições e a naturalidade extraterrena do canto dos Congos. Ecos, delays e demais efeitos comuns às produções de dub são utilizados, mas com moderação, e em geral para ressaltar o poder evocativo dos vocais, não como um “instrumento” autônomo. Quanto à participação de Sun Araw, ele nunca fez tão jus ao jogo de palavras que está na origem de seu pseudônimo – Sun Ra, naturalmente –, nem tanto pela “cosmicidade” dos barulhinhos que povoam o arranjo, mas por controlar melodicamente o arranjo e a mixagem (junto com Geddes Gengras) no sentido de uma congregação espiritual em que a música parece brotar como uma força da natureza. Cada faixa é uma pérola perfeita a seu modo, mas as finais “Invocation” e “Thanks and Praise” conseguem se destacar, a primeira pelo irresistível mantra “Get Together/Get Together/And Pray Rastafari” e a segunda pelo aspecto mais aberto e expansivo, que potencializa as inserções instrumentais (violão, synths cósmicos, escaleta filtrada), e em que as harmonias vocais flutuam por sobre nossas cabeças como as vozes de anjos.

É música para entrar em sintonia e vibrar, se emocionar, levitar. E foi a grande heresia de misturar novo e velho, de abdicar da pureza das raízes que rendeu aos Congos o segundo melhor álbum de suas carreiras e nos fez reviver a incrível beleza das majestosas vozes de Ashanti, Myton & Burnett e das luminosas harmonias vocais que eles realizam, ao mesmo tempo terrosas e celestiais. Escândalo não é juntar heterogêneos, escândalo é se privar de algo tão belo quanto esse FRKWYS Vol. 9. (Ruy Gardnier)

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