Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Eli Keszler / Keith Fullerton Whitman – Split LP (2012; NNA Tapes, EUA)

Eli Keszler é um compositor e multiinstrumentista. Nascido em Providence, Rhode Island, estudou no conservatório de New England, em Boston, e toca geralmente com seu kit de percussão, crótalos, guitarra e motores especialmente criados. Seu primeiro disco é Livingston, de 2008. Lançou trabalhos pelos selos R.E.L. e ESP Disk. Ganhou proeminência em 2011 com o álbum Cold Pin, lançado pelo selo alemão Pan, e por Red Horse, segundo disco do duo homônimo formado por Keszler e Steve Pyne, lançado pela Type. Esse ano, já lançou um disco com Joe McPhee, Ithaca. Keith Fullerton Whitman é um compositor de música eletrônica e eletroacústica, conhecido por seu pseudônimo Hrvatski nos anos 90 e, mais recentemente, por seu trabalho com sintetizadores, destacando-se Playthroughs (2002), Lisbon (2006), Disingenuity/Disingenuousness (2010) e Generators (2012). Esse split foi pensado como um diálogo entre músicos que atuam em terrenos distintos, Keszler com instrumentos acústicos e Whitman com eletrônicos. A faixa de Whitman foi composta como uma resposta direta ao estilo percussivo de Keszler. (RG)

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Discos split geralmente são afirmações de mútua admiraçãa entre artistas/projetos envolvidos. Ou, pensando mercadologicamente, formas de divulgar uma banda ou artista para além de seu nicho de fãs, ou fãs de gênero, quando o split em questão envolve artistas bem distintos, como no recente caso Oval/Liturgy. No caso desse disco dividido entre Eli Keszler e Keith Fullerton Whitman, há bem mais que isso: há o reconhecimento de que ambos artistas partilham de uma predileção pelos detalhes microscópicos e por preenchimentos do espaço sonoro que evocam auditivamente um formigueiro em plena atividade ou uma colônia de células em intensa atividade de reprodução: uma uniformidade de preenchimento em intervalos rítmicos que é colorida e diversificada por uma vasta paleta de frequências e timbres que inevitavelmente suscita a sensação de exuberância e de um movimento frenético de todas as coisas. Subcutaneamente, mesmo a imobilidade é cheia de ação. E há outra coisa que esse split evoca, de forma manifesta no escrito que acompanha o disco, mas sem se alongar sobre isso: a relação homem X máquina, já que Keszler opera no terreno acústico, com instrumentos “reais”, e Whitman com sintetizadores, que geram e modulam sons. Um serve como contraponto ao outro, sem no entanto querer significar nenhuma falsa polêmica entre a opção por um ou por outro: simplesmente reconhecem a existência de modos diferentes, não mutuamente exclusivos, e a riqueza de significados que essa distância (carnalidade do instrumento físico vs. excentricidade do som sintético, p.ex.) provoca.

Na natureza desse disco está a admiração pela característica forma de Eli Keszler tocar bateria, como se fosse uma profusão frenética de tiquetaques de diferentes timbres tocados em volumes baixos e relativamente uniformes, criando uma percepção textural da percussão e um nivelamento homogêneo do ritmo que produz uma sensação arrítmica. Além do mais, Keszler é o único baterista ultraveloz que pode ser considerado sutil. Só ouvindo. E por uma estranha coincidência o trabalho que nosso herói KFW vem desenvolvendo há alguns anos, levado talvez à perfeição pela primeira vez em disco com Disingenuity/Disingenuousness, que poderíamos descrever como um carnaval granulado de blipzinhos em festa de pura fluidez e movimentos, relaciona-se patentemente com o estilo percussivo de Keszler. Ambos empenham-se em criar um estado imersivo não através de notas prolongadas e lentidão, mas através de um uso abusivo de elementos em staccato que, somados à ausência de estrutura e abdicando de clímaxes “narrativos”, nos instalam brutalmente no presente absoluto.

“Occlusion”, a peça de Whitman que toma todo o lado B, é uma composição livre para sintetizadores modulares analógicos e digitais, sem material gravado de antemão, com a precaução de evitar qualquer ritmo divisível (há um disco com mais duas versões por vir na eMego). Essa versão influenciada pela estética de Keszler potencializa o aspecto fragmentário e heraclítico (= tudo flui) de Whitman, com uma utilização formidável e quase maníaca da espacialidade, tanto efeitos de estéreo quanto reverberações para simular sensações acústicas de fundo. Já as contribuições do próprio Keszler são mais multifacetadas, quatro faixas que vão de 2min30 a quase 9min, uma absolutamente frenética estrelada pelos motorzinhos criados por Keszler, outra sem os motores mas com o kit de bateria em modo semelhante acompanhando intervenções intermitentes de guitarra, e outras duas mais em modo eletroacústico, trabalhando a ressonância e as microinconsistências dos crótalos tangidos (a faixa 2) , outra utilizando fabulosas frequências de subgrave vindas da ressonância do bumbo mas parecendo os sintetizadores do Eleh (a faixa 4), ironicamente simulando sons que frequentemente ouvimos no domínio da música eletrônica.

De cabo a rabo esse split é uma experiência fascinante, um caso raro em que o conceito e a prática estão univitelinamente ligados, e ambos derivam de um genuíno espírito de celebrar diferenças e similaridades flertando imaginativamente com a inspiração “inimiga”. Não só é um belíssimo disco, mas é também a oportunidade de renovar o contato e o maravilhamento diante de dois dos músicos mais singulares e geniais de nosso tempo. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 10 de maio de 2012 por em álbum da semana e marcado , .
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