Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Helmut Schäfer – Thought Provoking III (2012; 23five, EUA [Áustria])

Helmut Schäfer foi um compositor austríaco de música eletroacústica. Nascido na cidade de Graz, desde muito jovem começou a se interessar por engenharia sonora e ferramentas musicais das mais variadas, de sintetizadores à computadores primitivos, buscando compreender a natureza sonora de uma forma pura e direta, sempre radical. Seu projeto “IP Zentrum” (1997), que é descrito como a simulação de um terremoto, foi apresentado em eventos como o ARS electronica e o Documenta Kassel. Seu primeiro disco, Disruptor (1999), foi uma parceria com o polonês Zbigniew Karkowski. Depois disso, Schäfer focou-se em trabalhos solos, lançando três discos entre 2001 e 2008. Segundo o próprio, seu trabalho é caracterizado por um uso intenso e direto de uma linguagem musical que descreve intensamente sua experiência pessoal e reflexões sobre estruturas sociais, a cegueira da modernidade e o funcionalismo cotidiano nas civilazações. Thought Provoking III foi gravado em 2006, porém lançado apenas em 2012, cinco anos após a morte de Schäfer, que suicidou-se em 2007. (AT)

* # *

Thought Provoking III é formado por duas faixas, a primeira, que dá título ao álbum, é o fruto de três gravações diferentes: na primeira gravação, Schäfer sozinho introduziu seu orgão característico, na segunda, ele é acompanhado pela violinista Elisabeth Gmeiner, e na terceira, pelo percussionista Will Guthrie. Depois da morte de Schäfer, Will Guthrie remodelou as três gravações em uma só, se tornando, de alguma maneira, co-autor da obra. A segunda faixa do disco é uma espécie de remix experimental (e um tanto quanto duvidoso) de Zbigniew Karkowski, que transformou os 25 minutos de “Averaging Down 20xx” em uma faixa de apenas 07 minutos. Ou seja, difícil saber até que ponto o próprio Schäfer aprovaria toda essa ação sobre sua obra, que intenciona uma espécie de tributo conceitual.

“Thought Provoking III”, a faixa, difere dos trabalhos anteriores de Schäfer justamente por uma certa leveza, ainda que seja fácil reconhecer um ambiente bastante hostil que é criado no decorrer da música, mas nada tão agressivo como em algumas obras anteriores. A coisa soa até um pouco orgânica, já que o orgão de Schäfer tem um caráter levemente emocional, com notas longas que vão aos poucos ocupando grandes espaços no decorrer da faixa. O violino árido e alto de Elisabeth Gmeiner é outra fonte sentimental, quase um choro desesperançoso em um ambiente apocalíptico, em paralelo as batidas sacras de Will Guthrie. Uma sutileza melancólica, pontual, que ameaça alguns picos ruidoso mas acaba sempre se amansando em uma estrutura cíclica. Alguns pequenos efeitos eletrônicos surgem vez ou outra para enriquecer o mistério todo. Impossível não pensar em uma espécie de marcha fúnebre da eletroacústica (o orgão, o violino choroso, a percussão quase budista), pensando por esse lado é uma homenagem um tanto quanto especial, ainda que arriscada e, claro, sempre dolorosa. O remix de Zbigniew Karkowski tenta dar vazão ao lado noise e agressivo de Schäfer, sua versão é até interessante e tem ótimos momentos, mas é tão distante da original que no fim das contas passa uma ideia vaga e até um pouco aleatória, ainda que funcione bem de forma independente.

Tudo o que envolve a história de Helmut Schäfer soa bastante fascinante e, irremediavelmente, um tanto quanto mórbido. Desde seus primeiros interesses pela engenharia sonora, suas experimentações com o noise e seus statements profundos em relação ao próprio trabalho, sucumbindo em seu suicídio em 2007. O que fica é uma imagem embaçada e enigmática de uma espécie de poeta contemporâneo, um trovador da pós-modernidade que tinha no som e em todas suas possibilidades extremas uma ferramenta rica e sensorialmente das mais poderosas. Uma relação forte que, apesar de suas abstrações e enigmas, possui uma qualidade quase urgente, direta, uma poesia radical e iminente que atinge o ouvinte sempre em cheio. Ainda que recusando qualquer tipo de alegoria ou ferramenta que facilite a experiência de audição (ou a torne meramente reconhecível), a poesia de Schäfer em Thought Provoking III é sedutora por sua qualidade extremamente sutil e pontual, como um pintor expressionista econômico, que age com pouca tinta sobre a tela, porém com pinceladas sempre extremas e marcantes. (Arthur Tuoto)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 16 de maio de 2012 por em álbum da semana e marcado , .
%d blogueiros gostam disto: