Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Actress – R.I.P. (2012; Honest Jon’s, Reino Unido)

Actress é o codinome de Darren J. Cunningham, produtor inglês que começou sua carreira em 2004 ao lado de Kode 9. Nesse mesmo ano, Cunningham monta a Werk Discs (o nome Werk orignou-se de um clube do mesmo nome liderado pelo próprio), gravadora que já trabalhou com artistas como Zomby, Lukid e Lone. Em 2008 o Actress lança seu primeiro LP, Hazyville, seguido de Splazsh (2010) e este R.I.P (2012), sendo os dois últimos lançados pela Honest Jon’s. Ainda que partindo de bases que possam remeter à bass music inglesa, o som do Actress é difícil de se rotular, flertando com gêneros que vão do techno ao glitch em poucos movimentos, além de uma aura lo-fi quase sempre característica. (AT)

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Ecletismo é um negócio sempre arriscado. Se por um lado a completa liberdade de criação pode gerar possibilidades cada vez mais variadas a qualquer artista que seja, por outro existe sempre o risco de um desvio de curso, uma fuga fatal de uma rota que já seguia certa. Mas qual é a rota de Darren Cunningham? Justamente pelo fato do produtor inglês nunca ter nos dado indícios exatos de um gênero ou uma característica sonora mais reconhecível, fica sempre difícil saber para onde ele está nos levando. Não que a coisa toda não siga uma estética já mais ou menos estabelecida: os timbres corrompidos inusitados, o dub lo-fi casado com o drone atmosférico, os flertes com a estrutura básica do techno e do house, sucumbindo em toda uma poética do low bitrate que o Sr. Cunningham tem a maestria de transformar em uma espécie de dub-glitch-dance ou coisa que o valha, um entulho melódico de força sem precedentes.

Com RIP não é diferente. A questão é que, além de ambíguo, o último lançamento de Cunningham é uma das mais belas experiências de frustração que se tem registro. Uma frustração, diga-se de passagem, em prol de paisagens muito mais longínquas e sempre complexas. Porque ao mesmo tempo em que temos essa mesma musicalidade particular já mais ou menos definida em obras anteriores, o álbum vislumbra caminhos ainda mais profundos, de referências quase mitológicas. É curioso como Cunningham faz escolhas que ficam entre uma seara mais dançante que remete diretamente a alguns trabalhos anteriores, como no techno subcutâneo de “Shadow From Tartarus”, em paralelo a um universo novo de uma qualidade ambient toda especial, que tem um de seus ápices mais fascinantes na sinfonia glitch de inspiração quase épica “Jardin”. Mas o mais interessante, e consequentemente o que talha a regularidade do trabalho, é uma certa evolução linear e extremamente engenhosa das faixas, ao mesmo tempo em que boa parte das músicas ameaçam engrenar por um caminho mais fácil, atrativo e talvez até apelativo, Cunningham é extremamente certeiro e nunca se deixa abater, mantendo quase sempre uma estruturada equilibrada – ainda que, muitas vezes, de qualidades caóticas – com um esmero detalhista invejável. O que faz de boa parte das faixas de R.I.P. uma variada experiência de um ambient único e de rumos imprevisíveis, que vai desde o bass amórfico e ultra artesanal de “Tree Of Knowledge” à jornada noventista de qualidades soterradas de “Lord’s of Graffiti”, essa última quase um ode à toda uma cena houseira nela invocada. Mesmo faixas mais sedutoras (no sentido dance pelo menos) como “IWAAD”, o equilíbrio é estabelecido com maestriia em meio a uma montanha russa sofisticada na manipulação de frequências e um sample vocal picotado sempre contagiante.

Ou seja, as faixas de R.I.P. nunca caem na tentação de um pico epifânico, pois todo o caminho, todos os mínimos detalhes de seu trajeto, tem do começo ao fim uma epifania já enraizada, delicadamente contagiosa, sempre sutil e cheia dos vestígios melódicos mais deliciosos. Tudo isso só ajuda para que Darren Cunningham se estabeleça como o maestro de uma sonoridade que, mesmo hoje em dia, podemos chamar de fato de underground. Não estamos falando de um simples minimalismo eletrônico ou um mero talento para melodias bizarrinhas, mas o que começou lá atrás, no início da era dubstep, tem, agora, uma forma misteriosa, híbrida, simplesmente inenarrável, um lirismo tecnológico sem precedentes e que, cada vez mais, nos desafia a cada novo lançamento. (Arthur Tuoto)

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3 comentários em “Actress – R.I.P. (2012; Honest Jon’s, Reino Unido)

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Publicado às 21 de maio de 2012 por em álbum da semana e marcado , .
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