Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Squarepusher – Ufabulum (2012; Warp, Reino Unido)

Squarepusher é o pseudônimo de Tom Jenkinson (n. 1975, Essex, Inglaterra), músico eletrônico e multiinstrumentista com ênfase no contrabaixo. Seus primeiros lançamentos, Feed Me Weird Things (Rephlex, 1996), Hard Normal Daddy (Warp, 1997) e Music Is Rotted One Note (Warp, 1998), além dos EPs Port Rhombus e Big Loada (ambos Warp, 1996 e 1997), consolidaram Squarepusher como um dos principais nomes da música eletrônica experimental dos anos 90, e em especial do subgênero drill’n’bass, uma apropriação mais quebrada e excêntrica do drum’n’bass (no qual ele é frequentemente listado ao lado de Aphex Twin). Em seguida, sempre pela Warp, lançou mais oito álbuns como Squarepusher, um como Chaos A.D. (Buzz Caner, 1998) e outro como Shobaleader One (d’Demonstrator, 2010). Ufabulum, lançado em maio de 2012, é o 11º álbum do projeto. (RG)

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Por mais que se seja tentado a definir o som do Squarepusher como a junção de atributos ou como um desvio experimental de um gênero, notadamente o drum’n’bass, a verdade é que a paleta de influências de Tom Jenkinson é vastíssima e parte de seu talento é conseguir conjugar de maneira tão instigante elementos que só pareceriam misturáveis em nossos piores pesadelos, como o fusion virtuoso e os riffs de teclado de techno. A razão desse mistério reside num prazer pela burilação e num inegável prazer pela quebra e pela variação, que evitam a instalação confortável do ouvinte e impedem que as amostras de virtuosismo caiam no eventual vazio exibicionista. Por mais que seus parte de seus ideais de musicalidade estejam ancorados numa zona um perigosa (o músico como acrobata exímio etc.), ele consegue converter toda velocidade em instabilidade, toda quebra em desafio da percepção para recompor suas coordenadas. Em suma, desde 1996 Squarepusher faz uma música que rima profundamente com a sensibilidade do cotidiano contemporâneo, multitarefa, ágil, instável, frenética, bits e bytes hibridamente coligados com as pulsações do sangue.

Ufabulum vem sendo considerado como uma espécie de volta atrás de um projeto que teria dado errado, o Shobaleader One – um projeto que parecia efetivamente oportunista, tentando surfar na onda de boogie eletrônico/fusion dançante de Dam Funk, Hudson Mohawke e mais recentemente Rustie e Joker. Mas faz parte do Squarepusher testar facetas insuspeitas ou ao menos dar maiores níveis de atenção a influências outrora moderadas na mistura (vale lembrar que já houve discos mais “pop”, mais jazzy, mais eletroacústicos…). Longe de querer reavaliar Shobaleader One, que de fato não merece maiores considerações, isso é pra dizer que Ufabulum não é uma volta, apesar de parecer uma. Que as melodias marcantes – por exemplo, o riff grudento de “4001” ou a melodiazinha 8bit de “Unreal Square” – não nos enganem: é um dos discos mais gélidos de seu autor, e isso pode ser notado pela flagrante ausência de linhas graves, sejam subgraves ou mesmo contrabaixo exercendo função melódica. Como o espetáculo de luzes em LED de suas recentes performances ao vivo, é tudo luz ou sombras, sem o suingue da área dos cinzas. As melodias são confrontadas diretamente com as batidas aceleradas e com os breaks insanos que marcam o estilo do Squarepusher, mas tudo aqui é regido pela égide do sintético, do processado, sem as melodias orgânicas de anteriormente (um piano, um baixo). Mesmo numa composição de andamento mais estável e levada por uma melodia afável, como “Stadium Ice”, a sensação é de uma ternura robótica.

Ufabulum é também, até aqui, o flerte máximo de Squarepusher com um sentimento épico/de arena. Esse sentimento povoa as notas alongadas da melodia de teclado da atmosférica “Red in Blue”, o já mencionado riff de “4001” ou as notas em staccato de “Dark Steering” (curiosamente evocativas de “The Caterpillar” do The Cure), mas também está presente nas acelerações de andamento que servem como clímaxes em “Unreal Square”, “Stadium Ice” e na mesma “Dark Steering”. Mas quando dizemos “flerte máximo”, queremos dizer que o amor pela instabilidade que Tom Jenkinson demonstrou desde o começo permanece aqui presente, e funciona perfeitamente para remodular os timbres das melodias, injetar jorros rascantes de sintetizador acid (“The Metallurgist”) e sobrecarregar nossa percepção com os breakbeats de costume, as quebras abruptas (aqui relativamente menores em números, mas ainda presentes) e as camadas simultâneas. Essa instabilidade é a mesma que traça a linha divisória de sempre entre os admiradores e os detratores: essa epicidade não cria nenhum potencial hit single nem uma perfeita faixa de pista. Squarepusher permanece, e esse é um de seus grandes méritos, fazendo música para seu próprio universo, um mundo futurista, ultraveloz, entre o DDA e a atenção extrema. Esse é paradoxalmente o nosso mesmo universo, só que sem as amarras de percepção que herdamos do passado. Ufabulum renova com tudo isso, sem ser um marco especial, mas nos relembrando o porquê de Tom Jenkinson ser um dos nomes mais notáveis da música eletrônica nos últimos vinte anos. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 25 de maio de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , , .
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