Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

KTL – V (2012; Editions Mego, Áustria)

KTL é uma dupla formada por Peter Rehberg (n. 1968, Londres, estabelecido em Viena) e Stephen O’Malley (n. 1974, Seattle, estabelecido em Paris). Rehberg é músico eletrônico trabalhando nas searas do noise, da eletroacústica e da livre improvisação. Grava sozinho sob o pseudônimo de Pita e faz parte, entre outros, dos grupos Fenn O’Berg, com Christian Fennesz e Jim O’Rourke, e MIMEO, com Fennesz, Keith Rowe, Rafael Toral, entre outros. Rehberg é também diretor do selo Editions Mego. Stephen O’Malley é guitarrista, notório pelo projeto Sunn O))) e por uma série de outros projetos, entre eles Æthenor, Khanate e Burning Witch. O’Malley é também curador do subselo Ideologic Organ, das Editions Mego. O KTL nasceu em 2006, originalmente para criar a música da peça Kindertotenlieder, de Gisèle Vienne e Dennis Cooper. O primeiro álbum do grupo, I, veio no mesmo ano. Além dos subsequentes 2, 3 e IV, o duo também lançou Live in Paris, IKKI, IV Paris Demos e Eine eiserne Faust in einem Samthandschuh, todos pela eMego, à exceção de KTL 3. Em V, o grupo conta com a participação de Jóhann Jóhansson na orquestração de “Phill 2” e Jonathan Capdevielle narrando texto de Dennis Cooper para a instalação de Gisèle Vienne “Last Spring: A Prequel”, que dá título à faixa. (RG)

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É quase automático associar a música do KTL diretamente às experiências de Stephen O’Malley com o Sunn O))) e às suas alongadíssimas frequências soturnas de grave, criadoras quase que por si só do subgênero conhecido como drone doom. A associação não é enganadora, mas é redutora: ela supõe que a contribuição de Peter Rehberg nos osciladores, sintetizadores e computadores é apenas um auxílio luxuoso textural às sonoridades criadas por O’Malley usando seu conhecido set de guitarra e amplificadores. A brutalidade do preenchimento e do volume dos discos anteriores favorecia o pendor da balança para um certo sentimento “metal” em detrimento da faceta eletroacústica minimalista. A distinção, no entanto, é enganadora e diz mais respeito aos circuitos convencionais de gosto (metal=baixo, eletroacústica=alto) do que qualquer outra coisa: em ambos os casos é flagrante como o objetivo final é uma sensação extática de preenchimento do espaço sonoro por notas ou frequências mantidas ou subrepticiamente alteradas reordenando por sua intensidade nossos dados temporais e/ou perceptivos numa espécie de ritualismo pagão.

Para quem gosta de separações bem estanques, V é um pesadelo. Nele, LaMonte Young e Pauline Oliveros dão as mãos de modo muito natural às densas atmosferas do drone doom e do dark ambient, com drones minuciosos e magros (ao menos relativamente à robustez dos sons dos discos anteriores) se impondo à percepção de modo mais insidioso e produzindo por outras vias a mesma atmosfera carregada e sombria pela qual o KTL é reconhecido. Sem os característicos ataques de guitarra de O’Malley, as quatro primeiras faixas de V flutuam em correntes de baixa frequência que conseguem miraculosamente estabelecer ao mesmo tempo sentimentos lúgubres e radiantes. Apesar da massiva prevalência de sons graves, existe um brilho nas frequências trabalhadas por Rehberg e O’Malley que fabrica uma soberba ambiguidade de sensações, negociando o “dark” e o “doom” atmosférico em terrenos menos confortáveis (e por isso mesmo mais saborosos) e produzindo um amálgama perceptivo que nenhum adjetivo conhecido poderia descrever. Daí a neutralidade dos títulos, como “Phill” 1 e 2, “Study A”, “Tony”: além das possíveis referências a Philll Niblock e Tony Conrad, esses títulos não sugerem nenhum estado prévio de espírito além do total envolvimento e da consequente imersão no fluxo sonoro.

Depois de estabelecida a guinada sonora, entram as variações. “Phill 2” é orquestrada pelo islandês Jóhann Jóhansson com a Orquestra Filarmônica de Praga, e a sensação é de que as cordas do ensemble se ligam indiscernivelmente às frequências de Rehberg e O’Malley criando um densas oscilações subaquáticas, enquanto em alguns momentos ritmados os metais conseguem subir à superfície para mostrar que estão vivos. É talvez o momento mais intenso e volumoso de todo o álbum. No fim, como se para completar o círculo, o duo oferece seu econômico porém marcante acompanhamento para a instalação de Gisèle Vienne “Last Spring: A Prequel” – a mesma artista/colaboradora que suscitou o surgimento do duo –, narrada/interpretada brilhantemente por Jonathan Capdevielle falando um francês demoníaco que parece saído das páginas de maior perversão do Marquês de Sade, tamanha a sensação de depravação que sua entonação suscita. O acompanhamento evoca basicamente um vento processado e dramatizado, concedendo uma forte sensação de espacialidade ao coração da peça, a voz (também belamente mixada). É música para se ouvir alto e em ambiente (ou seja, não em fones), a fim de deixar o som povoar e preencher o espaço. V não é só “o trabalho mais sofisticado do KTL até agora”, como supõe o release do disco. É uma das mais incríveis reinvenções de sonoridade dos últimos tempos, tão mais sedutora quanto confunde gêneros e nos faz lembrar que, independente das chancelas e dos rótulos, o que importa no fundo é som e, através dele, força de expressão. Um dos discos definidores de 2012, sem sombra de dúvida. (Ruy Gardnier)

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2 comentários em “KTL – V (2012; Editions Mego, Áustria)

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Publicado às 26 de maio de 2012 por em Uncategorized e marcado , , , , , .
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