Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Shackleton – The Drawbar Organ EPs (2012; Woe to the Septic Heart!, Reino Unido)

Sam Shackleton, ou simplesmente Shackleton, é um produtor de música eletrônica nascido em Lancashire, norte da Inglaterra. Seu primeiro lançamento é o single “Stalker”, pela Mordant Music, em 2004. Em seguida, criou com Appleblim o selo Skull Disco, no qual lançou alguns EPs e singles, posteriormente compilados em duas coletâneas, Soundboy Punishments (2007) e Soundboy’s Gravestone Gets Desecrated by Vandals (2008), tornando-se célebre no cenário eletrônico experimental por suas produções sombrias e pelos complexos padrões percussivos, muitas vezes utilizando bongôs e outros instrumentos incomuns ao meio. Em 2009 veio Three EPs, pela Perlon, e no ano seguinte Shackleton criou seu selo próprio, Woe To the Septic Heart, lançando o 12” Man On a String. Em 2011 lançou com o produtor Pinch o álbum Pinch & Shackleton, além dos singles solo Fireworks e Deadman, todos pela Honest Jon’s. Music For the Quiet Hour/The Drawbar Organ EPs é o primeiro lançamento de envergadura da Woe To the Septic Heart, com um combo de um álbum (o primeiro propriamente de sua carreira) + três EPs compilados em outro disco, ou vendidos separadamente (os EPs apenas) em vinil. (RG)

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O modo como Sam Shackleton lança seus trabalhos não deixa de ser um pouco excêntrico. Desde o começo ficou sempre óbvio que o homem prefere soltar tudo de uma forma um tanto quanto fracionada, um EP ali, outro aqui, uma contribuição ali, outra partilha aqui, e por aí vai. Por isso não deixa de ser uma surpresa ver Shackleton lançando não apenas um, mas dois discos, simultaneamente. Ainda que, este The Drawbar Organ EPs seja, conceitualmente, uma mescla de três EPs, da mesma forma que seu primeiro disco solo foi o já clássico Three EPs (2009). Ou seja, mesmo quando Shackleton lança um álbum, ele dá seu jeitinho fragmentário de ser.

Em um primeiro momento existe uma subdivisão bastante clara aqui. Enquanto Music For The Quiet Hour tem essa característica colossal, uma colaboração de uma hora de duração com o vocalista Vengeance Tenfold, dividida em cinco partes (traindo invariavelmente essa lógica fragmentada dos EPs), que acaba enveredando por um caminho de certa forma até novo para Shackleton, com uma qualidade mais atmosférica e levando a veia etnológica dos timbre até às últimas consequências, The Drawbar Organ EPs continua essa linha mais desconstruída, com uma sonoridade variada mas ainda familiar. A maior qualidade de Drawbar Organ EPs talvez seja sua vitalidade instantânea: se as faixas de Music For The Quiet Hour exigem um pouco mais do ouvinte, ainda que se façam valer de padrões muitas vezes dinâmicos e atraentes, a coisa aqui é um pouco mais fácil, mas nunca domesticada. Uma faixa como “It Is Not Easy” já nos contagia desde seus primeiros segundos, com seu chocalho rápido e de timbragem sempre particular, suas guinadas de synth inesperadas, além das camadas de percussão sutis e até doces que Shackleton vai acoplando na música; isso sem falar no grave, igualmente dinâmico, que surge depois do segundo minuto, aliado a um minimalismo sintético e veloz, vocal picotado e progressão sempre desnorteante.

Mas a questão definidora, e que o próprio título do trabalho não deixa dúvidas, é o som do tal órgão italiano que ouvimos em várias faixas. Em “Seven Present Tenses”, por exemplo, Shackleton é extremamente preciso ao invocar toda uma lógica particular que parte das notas, sempre rápidas, do instrumento; quase um labirinto de idas e vindas frenéticas em uma espécie de phasing psicodélico. Muito se falou sobre uma certa qualidade à Steve Reich dos EPs, e aqui temos a prova concreta. E além disso há os vocais sussurrados, um jogo rápido que revela toda uma outra dimensão, numa complexa costura de samples, um dance meio tribal meio retrô, único. Ou ainda na soturna “(for the) Love of Weeping”, cheia de vocais que soam como mantras orientais e um poder rítmico ultra veloz gerado pelas notas futuristas do órgão, uma espécie de montanha russa sonora que faz miséria do instrumento.

O disco, como já dito, não deixa de ter essa sensação fragmentária, caótica, desnorteada, mas acima de tudo expõe um domínio, um controle invejável de que Shackleton dispõe ao criar estruturas complexas e sempre dinâmicas, extrapolando gêneros ou padrões já estabelecidos. É como se, ao apropriar-se desse instrumento arcaico, perdido no tempo, o homem fosse capaz de simplesmente criar uma das obras mais ambiciosas da música contemporânea, flertando com épocas e estilos distintos, uma espécie de saga que tem nesse lançamento duplo uma precoce magnum opus, ainda a ser superada. (Arthur Tuoto)

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3 comentários em “Shackleton – The Drawbar Organ EPs (2012; Woe to the Septic Heart!, Reino Unido)

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Publicado às 6 de junho de 2012 por em álbum da semana e marcado , .
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