Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

dean blunt & inga copeland – black is beautiful (2012; hyperdub, reino unido)

Dean Blunt & Inga Copeland - Black Is Beautiful

Anteriormente conhecidos como Hype Williams, o inglês Dean Blunt e a russa Inga Copeland começaram a lançar CD-Rs limitados por conta própria em 2009. No entanto, foi com o álbum sem título lançado pelo Carnivals em 2010 que despertaram maior interesse da mídia especializada. Até agora, com uma grande quantidade de EPs, singles, mixtapes e LPs, transitaram por selos como Hippos In Tanks, De Stijl e Hyperdub, fazendo aparições discretas nos catálogos Honest Jon’s e Rush Hour. Recentemente abandonaram o nome Hype Williams e optaram por utilizar seus nomes “reais”. Aliando uma atitude copy/paste com instrumentos baratos, o som da dupla pode ser definido como pop lo-fi hipnagógico. (IC)

* # *

De 2010 para cá, a partir do lançamento de Untitled – álbum que, se não era propriamente uma estréia, foi o primeiro e talvez maior destaque de uma já extensa discografia -, muito se divagou acerca da dupla Hype Williams. Divagar é um verbo apropriado primeiramente porque os próprios Dean Blunt e Inga Copeland, mesmo optando por escancarar suas identidades (ou pelo menos mostrar o rosto, muitas vezes em vídeos caseiros e íntimos) num cenário em que escondê-las por si só já seria garantia de burburinho, nunca deram uma entrevista a sério sobre seus métodos e influências, por exemplo; depois, porque seguem à risca a estética quebra-cabeça à qual se propuseram desde o início, seja no canal que mantêm no Youtube, nas imagens de divulgação ou nas apresentações ao vivo, semeando inclusive uma idéia de aleatoriedade cool – vide o discurso sobre pokémons na faixa que abre o Dior EP.

O lado bom dessa pose é que hoje temos, no máximo, peças soltas de quebra-cabeças misturados: se eles gravam versões de Sade ou Cassie e podem ser enquadrados na grande parcela da música underground contemporânea amante do R&B dos anos 90, também utilizam intensivamente timbres analógicos, muitas vezes com um pé no eletropop oitentista, sendo um prato cheio para os seguidores do Hippos In Tanks – selo no qual lançaram One Nation, em 2011. Ainda assim, não deixou de surpreender a parceria firmada com o Hyperdub a partir do Kelly Price W8 Gain EP, no ano passado, fato que abriu precedente para os posteriores lançamentos de King Britt e Laurel Halo.

A parceria continua em Black Is Beautiful, álbum que saiu há poucos meses. O senso de humor fica claro nos primeiros minutos: o loop de um homem tossindo abre a sessão no mesmo modus operandi utilizado para Untitled (disco que começava com um choro), como alguém limpando a garganta para anunciar solenemente a entrada da dupla – o que se confirma com o extenso solo de bateria que segue, funcionando como um rufar de tambores. “(Venice Dreamway)” é a única faixa propriamente nomeada, mas é colocada como introdução – em seu final abrupto, um reverse dá lugar a “2”.

Envolta em tape hiss, a segunda faixa escancara a verve melancólica que perpassava sutilmente toda a obra da dupla (lembremos novamente do choro abrindo o álbum de 2010), além de antecipar a limpeza que seguirá durante toda a audição – se Black Is Beautiful é o álbum mais contido de Blunt e Copeland, certamente “2” é o maior exemplo dessa nova tendência. A dupla transforma o soul cult de Donnie & Joe Emerson – que acaba de ganhar também uma versão pastiche por Ariel Pink e Dâm-Funk – num pop noturno e solitário para o qual percebíamos a vocação dos dois desde “Rise Up”, “dior 2” ou “The Narcissist”, além de anunciar a reinvenção de Copeland como vocalista nesse trabalho.

Pelo menos três das quinze faixas do álbum contam com o vocal dela de maneira direta, inteligível, mais próxima que nunca de canções. Uma delas é “11”, também destaque, que vai na linha disco lo-fi da turma do 100% Silk, porém despida de tantos efeitos e elementos: apenas um trio sensual de bateria, baixo e vocal adornado por duas ou três linhas de sintetizadores. O mesmo acontece, com resultados não tão interessantes, em “5”.

Como se pode perceber, o que mais perde força na sonoridade da dupla é a atitude copy/paste que sempre marcou fortemente sua estética. Por mais que os temas e as sensibilidades permaneçam – e reste ainda um pouco da fragmentação, vide a faixa que se divide entre “3”, “7” e “14”, numa brincadeira inocente e ineficaz – Blunt e Copeland soam, de fato, muito mais contidos. Mesmo as belas “8”, “4” e “15”, mais viajantes que as canções propriamente ditas do disco, seguem claramente uma dinâmica começo-meio-fim bastante rara nos trabalhos anteriores.

A prova de que talvez estejam no caminho certo fica por conta de “9” e “10”. A primeira, unindo várias facetas da dupla numa fragmentação calculada, é dos melhores momentos. Já a segunda, uma jam que beira os dez minutos, não mantém o interesse nem até a metade, apesar do formato já ter sido visitado pela dupla com resultados bem mais satisfatórios. Isso significa que, diante do esgotamento de suas fórmulas, para eles há duas saídas: revisitá-las esporadicamente, com mais foco e vontade de atualizá-las, ou partir para outra, como fazem muito bem na maior parte do disco. (Igor Cordeiro)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 7 de junho de 2012 por em álbum da semana e marcado , , .
%d blogueiros gostam disto: