Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Chelpa Ferro – Chelpa Ferro 3 (2012; Mul.ti.plo, Brasil)

Chelpa Ferro é um grupo formado pelos artistas Barrão (RJ, 1959), Luiz Zerbini (SP, 1959) e Sergio Mekler (RJ, 1963). Criado em 1995, o Chelpa Ferro trabalha no duplo eixo da galeria de artes visuais e dos palcos musicais, realizando performances, instalações sonoras e apresentações de música eletrônica. O primeiro disco, epônimo (lançado pela Rock It!), e a primeira exposição individual vieram em 1997. Como grupo de música, o grupo se apresentou em diversas cidades do Brasil. Em galerias, teve instalações expostas na Itália, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Canadá e Cuba. Uma das performances mais polêmicas do grupo foi Autobang, na 25ª Bienal de São Paulo, em 2002, com a destruição de um carro Maverick 74 por diversos músicos/participantes. O segundo CD do grupo foi lançado em 2004 pelo selo Ping Pong. Chelpa Ferro 3 foi lançado em vinil como múltiplo, em tiragem limitada, com cada objeto individualizado por uma capa diferente, além do lançamento regular de CD. Nele, cada uma das cinco faixas é a união do som de uma das instalações sonoras do grupo com a participação de um ou dois músicos convidados, mais exatamente Arto Lindsay, Pedro Sá, Jaques Morelenbaum, Kassin, Berna Ceppas, Chico Neves – que era da formação original do grupo – e Stephane San Juan. (RG)

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Quando se pensa no trabalho atual do Chelpa Ferro, duas são as imagens que possivelmente chegam à mente: o noise free form das apresentações mais constantes do grupo nos últimos anos, ou o trabalho de instalações sonoras em exposições, com objetos que “tocam” sua própria música, como uma máquina de costura acoplada a uma caixa de bateria através de arame e molinete, vasos ou sacos plásticos que “cantam”, amplificações diversas, sons “culturais” abstraídos e ressignificados como puros blocos de som, entre vários outros já apresentados em diversas galerias ao redor do Brasil e do mundo. Algo curioso de se notar é que o conteúdo dos dois álbuns anteriores do grupo, datados de 1997 e 2004, apresentam uma forte complementaridade com o resto da obra em termos de approach estético mas em termos sonoros são discos de música, influenciados por colagem, eletrônica experimental dos anos 90 (IDM), glitch, algo de noise/música concreta e um certo hibridismo anárquico de materiais. Chelpa Ferro 3, ao contrário, dialoga intensamente com as outras áreas de atuação do grupo, utilizando os objetos sonoros criados por eles para repercutir a música “automática” criada por eles e, no outro lado do espectro, a energia do “ao vivo” das apresentações musicais, representadas aqui por músicos convidados que tocam “com” os instrumentos-instalações criados pelo Chelpa Ferro. Ao contrário também dos outros dois discos do grupo, nenhum d”os três participa organicamente do disco, tocando: aqui, eles desenvolvem o conceito, chamam os músicos e deixam que as interconexões apareçam sem intervenção direta, que o som do grupo – na figura de seus instrumentos autoperformáticos – aflore, ganhe tentáculos e se metamorfoseie em outras opções de sonoridade.

O fato de serem tocos os músicos convidados da “trupe” Chelpa Ferro – já terem tocado juntos ao vivo ou em estúdio, regido peças do grupo, caso de Morelenbaum, ou até mesmo ter sido um membro anteriormente, como Chico Neves – imprime um tom de familiaridade dos músicos com os propósitos e a índole do grupo, mas isso não faz das colaborações do disco um jogo com cartas marcadas, uma aventura sem risco ou uma brincadeira de emulação entre homem e máquina. As peças de Chelpa Ferro 3 testemunham uma verdadeira tensão entre as variações maquínicas das instalações-instrumentos e as variações volitivas dos músicos que interagem com esses sons (que, contrariamente ao pas de deux da improvisação a dois, ou aqui em alguns casos a três, não reagem e repropõem, por razões obvias), produzindo saborosas ressonâncias filosóficas (seria isto o equivalente contemporâneo do pastor musicista respondendo com sua flauta à musicalidade do rio?) e, mais importante, encontrando sons vigorosos nos encaixes entre instrumentistas, sejam eles humanos ou autômatos.

O álbum abre com “Mesa de Samba + Arto Lindsay / Pedro Sá”, em que os dois guitarristas acompanham os ritmos irregulares de uma caixa de bateria tocada por um molinete animado por uma máquina de costuras. O som produzido pela mesa lembra um tamborim errático, e sabiamente, ao invés de produzirem com suas guitarras levadas que reconduzissem o samba ao samba, Lindsay e Sá optam por emitirem ataques dispersos e angulares, provocando ainda maior instabilidade rítmica e tornando o equilíbrio geral ainda mais fragmentário. Em seguida vem “Microfônico + Jaques Morelenbaum”, em que o violoncelista e orquestrador opta por dialogar com os graves reverberados emitidos pela amplificação variada de doze vasos de diferentes capacidades e formatos. A escolha por longas notas mantidas, na primeira metade, seguindo a deixa dos sons da instalação, impede a dinâmica, trocando-a por camadas espessas que nos envolvem em seu aspecto quase randômico. Na segunda metade Morelenbaum opta por ataques mais rápidos, incisivos e agudos, fazendo a peça conviver em dois ritmos e dois registros de frequência. “Jungle Jam + Berna Ceppas / Kassin” é estrelado pelas fantásticas trinta sacolas plásticas amplificadas e programadas em ritmos diversos, com pontuação rítmica contínua de baixo e algumas coloração de sintetizador, entre ruídos granulados e ligeiros toques melódicos.

Nos três primeiros casos, o som das instalações que dão os nomes às faixas prescinde relativamente bem da imponência do espaço exibidor e pelo próprio carisma excêntrico do objeto instalado (ver a Mesa de Samba, por exemplo, é uma graça à parte). Mas são sons que se seguram com propriedade abstraído do espaço expositivo, sobrevivendo apenas num ambiente auditivo com a espacialização básica do stereo, como uma audição de registro fonográfico, CD, LP ou mp3. O samba torto da Mesa de Samba, as birutas ensandecidas de Jungle Jam são achados sonoros fenomenais independente da percepção tridimensional e da experiência espacial proposta. Com on-off poltergeist e Acusma, não se dá o mesmo. Ambos dependem profundamente do espaço de exposição, o primeiro por separar o áudio e o vídeo de televisores, transformando a comunicação de massa em padronagem rítmica de sinais incompletos, o segundo por precisar de uma circulação tridimensional pelo espaço para exprimir toda força sonora da instalação. Nos dois casos o som continua cativante e único por si só, mas a transformação em apenas fonte de áudio não acontece sem uma perda significativa no processo.

Os sequenciamentos feitos com sons de TV em on-off poltergeist são exuberantes, mas na tradução para o apenas-áudio escapa um sobretom de pura colagem sonora que reduz o escopo simbólico da obra, apesar da destreza de Chico Neves na execução. Com Sebastian Sanjuan e Acusma acontece algo semelhante: a interação do baterista com os “solfejos de números” da obra é bela, cadenciada e envolvente, mas os sons da peça estão longe de produzir o mesmo senso de mistério que surge quando se está rodeado dos trinta vasos de cerâmica emissores, obrigatoriamente conduzindo a uma audição diferente conforme o ponto no espaço e potencializando a sensação de “alucinação auditiva” que o título da peça evoca.

Conceitualmente, Chelpa Ferro 3 é um acerto monumental dentro da obra do grupo, um elo que recentra as diversas trajetórias  de suas variadas formas de expressão. Como disco de música, é um belo álbum com momentos primorosos de escuta e resposta (tirando uns dois momentos em que Sanjuan parece tocar para si mesmo, em quase todo o resto as participações são bem dosadas e talentosas, somando-se à sonoridade de base). E mesmo a dificuldade na tradução sonora é um dado menor, que nem de longe compromete a satisfação de ter um novo trabalho em CD do Chelpa Ferro, o primeiro em oito anos, em mãos. Os homens que brincaram com Kraftwerk para fazer o trocadilho Autobang agora sutilmente homenageiam sem saber, mais uma vez, o grupo alemão, encontrando outra acepção para a junção Man + Machine. E de quebra produzem entrecruzamentos que fornecem novas portas de entrada ao trabalho do grupo. (Ruy Gardnier)

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Acostumados com práticas sonoras de características mais espaciais e instalativas, o Chelpa Ferro tem nesse trabalho um “formato comum”, o álbum musical, no caso o terceiro lançamento em 15 anos. Porém, todas as faixas aqui presentes partem de instalações já previamente concebidas pelo grupo, agora partilhadas com ilustres participações. Ou seja, o disco opera nessa espécie de jogo de forças entre uma qualidade bastante material, de sonoridade sempre peculiar proveniente desses trabalhos conceituais do grupo (praticamente instrumentos sonoros próprios), com as possibilidades melódicas de seus convidados, resultando nessa mutação sonora, de resultado imprevisível, um vinil-objeto que funciona tanto como lançamento musical como objeto artístico de preço especulativo (R$ 500 reais em seu lançamento, valor normal considerando a obra como uma peça de arte).

“Mesa de Samba”, colaboração com Pedro Sá e Arto Lindsay, soa como um rico, ainda que minimalista, jogo de improvisos: a instalação “Máquina de Samba” ganha uma ordem mais específica na percussão sempre marcante que vai liderando o caminho da faixa. Aos poucos a coisa vai sendo tomada por cordas distorcidas e outros ruídos enigmáticos, e a progressão dessa percussão, feito um órgão vivo que pulsa independente de qualquer coisa, vai variando sua velocidade, construindo e desconstruindo todo o sentido da faixa ao longo dos seus quase doze minutos, chegando a deliciosos picos, digamos, carnavelescos-artesanais, de tempos em tempos.

O disco é construído por essas faixas longas e independentes, como se cada uma funcionasse como uma obra particular, e de fato, se cada uma das instalações tem suas características próprias, as músicas aqui, cada qual possui uma certa estrutura fragmentária individual, cheia de segredos e caminhos bastante específicos: as vozes entrecortadas e os ruídos televisivos de “On-Off Poltergeist” (a experiência sonora Paikiana deslocada para uma faixa fechada?), o baixo, os efeitos eletrônicos e os glitches detalhistas em paralelo ao poderoso jogo de sacolas giratórias de “Jungle Jam” ou ainda os vocais alucinatórios de “Acusma” que encontram toda uma nova lógica atmosférica com a perspectiva de uma bateria assombrosa.

Todo esse esmero detalhista, quase escultural, plástico mesmo, é o que seduz no trabalho, e ainda que as faixas mantenham essa ordem quase impressionista dentro dos timbres propostos, a evolução nunca é exatamente previsível, a interpretação por partes dos músicos é sempre um mistério, tornando o álbum essa espécie de aventura sonora que mescla muito bem as possibilidades melódicas de seus colaboradores com a austeridade e a experimentação musical dita mais extrema das instalações do Chelpa Ferro. Se em alguns casos a espacialidade das instalações não é propriamente traduzida (por uma simples incompatibilidade do formato álbum), suas timbragens de poder único estão sempre lá. O disco, por si só, mesmo para alguém não completamente familiarizado com universo da sound art, pode soar simplesmente como um belo lançamento musical; em searas pouco exploradas pela cena musical brasileira, ou, se explorada em algum sentido, restrita ao ambiente austero e às vezes até hostil da arte conceitual, isso já é mais do que uma vitória. Não se trata de abordar a obra como um objeto enigmático, mas sim de simplesmente celebrar uma sonoridade provocadora e altamente instigante em suas perspectivas musicais e conceituais, seja o vinil-objeto, seja a peça de arte à venda na galeria, seja a simples ideia de um disco. Resumindo, uma feliz colaboração que extrapola linguagens e que encontra nesse belo lançamento um digno exemplo de uma possibilidade pouco explorada pelos músicos brasileiros em geral; uma iniciativa mais do que inspiradora. (Arthur Tuoto)

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3 comentários em “Chelpa Ferro – Chelpa Ferro 3 (2012; Mul.ti.plo, Brasil)

  1. Pedro
    29 de outubro de 2012

    Não tem link para download???

  2. Pingback: Melhores de 2012: Discos – Arthur Tuoto « Camarilha dos Quatro

  3. Pingback: ENGRENAGEM #18: ADEUS 2012 : FLOGA-SE

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