Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

traxman – da mind of traxman (2012; planet mu, reino unido)

Nascido em Chicago, Cornelius Ferguson, o Traxman, é um dos nomes principais do gênero conhecido como Juke. A participação ativa na cena Ghetto House de sua cidade natal o tornou grande influência para toda uma geração de produtores, mas apenas agora tem ganho destaque fora de Chicago devido à ligação recente com o selo Planet Mu, de Londres, que lançou Da Mind Of Traxman, seu primeiro álbum. Faz parte dos coletivos Geto DJz e Ghetto Teknitianz. (IC)

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Por mais que a cena Juke – e seu subgênero Footwork, mais relacionado à dança – em Chicago tenha raízes na Ghetto House de meados dos anos 90, não há como negar o fato de que, até pouco tempo atrás, era um fenômeno estranho a muitos de nós. Se hoje o gênero se encontra minimamente estabelecido no cenário eletrônico mundial, em parte é graças ao esforço insistente de Mike Paradinas na chefia do Planet Mu, e por outro lado pelo crescente interesse dos artistas do underground britânico no estilo de produção – o que parece ter gerado duas vertentes, uma com foco na pista (“Footcrab” e “Work Them” são os exemplos) e outra mais interessada em experimentar com os novos padrões (representada por gente como Machinedrum, Kuedo e Sully).

De qualquer maneira, desde a polêmica causada pelas primeiras resenhas de Hatas Our Motivation, ou pelo podcast assinado por DJ Rashad e DJ Spinn para o XLR8R, Paradinas e companhia tiveram muito tempo para experimentar e descobrir o que funciona com o público estrangeiro à cena, e é nesse cenário mais “preparado” que se insere Da Mind Of Traxman. Sem dúvidas trata-se do disco de Juke mais amigável dessa leva lançada pelo Planet Mu de 2010 para cá, praticamente incomparável com os álbuns de DJ Nate, DJ Roc ou DJ Diamond, e julgando pelas outras faixas do Traxman disponíveis na web, isso não é nenhum acidente.

A kalimba e o field recording nos primeiros segundos de “Footworkin On Air” dão o recado: a abordagem de Ferguson é menos ortodoxa e mais arejada que a de seus companheiros, fato que entrega a maior bagagem por pertencer a uma geração anterior. Mais: a própria estrutura da faixa (levada por uma linha de baixo ácida que ora cresce, ora se retira ao segundo plano, progredindo como um solo improvisado) entrega que, para ele, o negócio vai muito além da construção dos ritmos. O mesmo acontece em seguida, com “Itz Crack”, cujos elementos jogam o tempo inteiro com o ouvinte, numa mistura irretocável de padrões de bateria complexos e vocais infecciosos com samples de Jazz editados espertamente. Essa faceta carregada de alma negra volta à tona mais algumas vezes, com “I Need Some Money”, “Chill” e “Setbacks”, por exemplo, intercalada com momentos de maior crueza.

O primeiro deles é “Callin All Freaks”, também indício de que Ferguson não é apenas o primo mauricinho e viajado de Rashad e Spinn. O uso maníaco dos vocais, o ritmo seco e os graves nervosos nos garantem que o clima pode mudar a qualquer momento, como de fato acontece com “Let There Be Rockkkk”, talvez a faixa mais impressionante do pacote. Se na maior parte do disco a intenção é mostrar sua visão particular do que é Soul, aqui ele sampleia AC/DC dando um timbre irreconhecível à guitarra, mostrando sua versão do Rock. Colocando “1988” ao lado, fica claro como funciona “a mente de Traxman”: seja trabalhando com samples ou fórmulas de gêneros já estabelecidos (nesse caso, a Acid House indicada até no título) Ferguson é o misto de pesquisador apaixonado e experimentador incansável, sempre tentando enxergar suas fontes através das perspectivas mais tortas possíveis (Prince e Ofra Haza também dão as caras de maneira surpreendente) – uma atitude bem diferente da pesquisa pelo loop perfeito de Daft Punk e similares. (Igor Cordeiro)

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Publicado às 11 de junho de 2012 por em álbum da semana e marcado , , , , , .
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